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Crónicas sem tempo (2)

  • Foto do escritor: Miguel Assis
    Miguel Assis
  • 20 de jun.
  • 3 min de leitura

"O MEU CORAÇÃO É APPACDM" - Delegação de Setúbal



Foi no longínquo ano de 2007, que pela primeira vez participei numa marcha popular. Até essa altura, nunca tinha tido contacto ou sequer interesse, talvez porque na zona da Amora (seixal), onde cresci, não houvesse a tradição. Em pequenos becos e recantos da margem sul do Tejo, o subúrbio com mais identidade cultural que já conheci na vida, fazia-se a festa quando um vizinho virava a aparelhagem para a rua: então assavam-se umas bifanas, saltava-se à fogueira e andávamos de porta em porta, a pedir um tostãozinho para o Santo António. Mas não havia marchas, não havia bairros, pelo menos não havia bairrismo. Quando fui trabalhar e viver para Setúbal, percebi esse pulsar de coração, esse orgulho bairrista, mas só observava, pois não lhe pertencia.

Quando a APPACDM, foi desafiada a participar no desfile das marchas populares de 2007, como convidada e extra concurso, seria, supostamente, um acontecimento único. Talvez por isso, quando as responsáveis da marcha na altura, Susana Félix e Lurdes Costa, me convidaram para padrinho, por amizade e porque iria acompanhar a minha querida afilhada de batismo, Ana Félix, aceitei, quase imediatamente, e sem grandes questões. 

Ainda hoje recordo, como um dos momentos mais emocionantes da minha vida, a entrada, na praça de touros José Relvas. A nossa marcha tão modesta, em comparação com as demais, foi recebida de forma esfuziante. Lembro-me do saudoso ator Fernando Guerreiro e da sua eterna companheira de vida - no sentido mais fraterno - e de carreira, Maria Clementina, que quase pareciam cair da bancada, de tal forma se inclinavam para aplaudir. O entusiasmo do público foi arrepiante. Nunca se tinha visto. A população não estava habituada a ver aquilo que os utentes da APPACDM são capazes, a sua sensibilidade, o seu empenho, a entrega e a dedicação. O público reagiu de maneira tão estrondosa e a nossa pequena marcha foi tão bem recebida que, aquilo que seria uma exceção, tornou-se uma regra e a marcha foi repetindo anualmente a sua participação no grande desfile dos Santos populares. E fomos crescendo, em número de marchantes, na qualidade dos figurinos e adereços, incluímos o cavalinho, a madrinha passou a cantar um original, renovado a cada ano, as coreografias passaram a ser mais complexas, fomos subindo degraus e a responsabilidade foi acompanhando. Lembro o Arnaldo, um homem com a disciplina de um militar e com a sensibilidade de um poeta. Foi nosso ensaiador durante alguns anos. E recordo, inevitavelmente a Elisabete e a Carla (o cérebro e as mãos) que elevaram a marcha ao nível que agora se encontra, em termos de organização e espetacularidade.

Ao longo destes quase 20 anos, apenas por três vezes não acompanhei esta marcha, que aos poucos foi entrando direitinha no meu coração. Numa das vezes fui subitamente operado a um joelho e a APPACDM, não só não me substituiu (havia tempo para isso, afinal a minha participação não é muito maior do que sorrir, acenar à multidão e tentar animar as hostes), como fez questão de me apresentar como padrinho, mesmo estando ausente. Como se deve calcular, ao fim de tantos anos, são muitas as memórias, laços,  histórias, muitas gargalhadas e algumas lágrimas, mas sobretudo o orgulho de pelo menos numa noite, em todo o ano, olharem para nós, verem-nos. E sermos, de facto, exatamente, iguais aos outros.

De cada vez que desço a avenida, recordo as madrinhas que já acompanhei, a Ana Félix, claro, a Susana Brito, a Alexandrina Pereira, a Luna, a Maria Caetano, a Céu Freitas e a Patrícia Rosa (que nos últimos 4 anos tem sido a madrinha perfeita) e vou de braço dado com todas elas. E os pequenos mascotes, o Didi, a Daniela, a Carolina - que me arrancava o braço de cada puxão que me dava e que fazia de mim o que queria - a Mariana, a Bia (minha querida Bia), o Ivo. Em 2026 é o Galiano (quem é o melhor? É o Galiano) e a seguir só a história saberá contar.

Este ano a Lurdes, voltou a liderar, a ser o "maestro desta extraordinária orquestra", mas como ela gosta de dizer, foram muitos os que construíram a marcha mais linda do mundo e que eu já amo, como se fosse o meu bairro.  Com a Lurdes estiveram a Dulce, a Ana Lúcia e o professor Salazar. Veio a Ellis fazer as roupas, a Joana, fazer a letra, o Duarte veio fazer a música, que nos pôs a marchar e ficou tudo afinado, tudo acertado, tudo perfeito, para que esta jóia em forma de marcha, desça a avenida, como sempre, mais bela que nunca. 

Parece que encontrei o meu bairro. E o meu bairro é APPACDM.

A minha marcha é (muito) lindaaaaaa!

 

 
 
 

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