Dina Barco

Atualizado: 20 de set.
“EMBORA MEÃO DE ALTURA ESTICARAM-ME ATÉ AOS DOIS METROS…”

Gosto de me sentar naquela esplanada, nas primeiras horas da manhã. Escolho uma das mesas laterais, de onde consigo abarcar toda a praça, e vou bebericando um café cheio enquanto observo o movimento crescente do lugar. Essa ocupação distrai-me, mas, às vezes, sou eu que me distraio dela. Há pensamentos, ideias, questões que me ocorrem com urgência de registo e, nesses momentos, o olhar desprende-se do que se passa em meu redor e concentra-se no bloco de notas que trago sempre comigo.
Foi numa dessas ocasiões que ele me abordou. Aproximou-se tão silenciosamente que, quando lhe ouvi a voz, dei um pulo na cadeira.
- Calma! Não queria assustá-la! Só perguntei se me podia sentar ao seu lado.
Estarrecida, tentei responder, mas a voz ficou-me presa no espanto. Olhei para ele, depois para o pedestal vazio, à minha frente, voltei a encará-lo, tornei a verificar que a figura central da praça tinha desaparecido do seu lugar e, depois de repetir estes olhares alucinados mais uma série de vezes, acabei por me render ao óbvio.
Ele já se tinha sentado, entretanto.
- Desculpe, mas não aguento estar mais tempo em pé. Puseram-me ali em cima há quase 155 anos e tenho as pernas que nem as sinto. Parecem de pedra!
Esbocei um sorriso, que se deve ter assemelhado mais a uma careta, e fiz um gesto de
assentimento, ainda incapaz de pronunciar uma palavra.
- Já a tenho visto por aqui, noutros dias. Há muito que queria vir ao seu encontro, mas o tempo não tem estado de feição. Quente, seco, abafado... Não imagina o mau cheiro que tenho de suportar com os pombos a obrarem por cima de mim, a toda a hora, sem qualquer pudor! O que me valeu foi a valente chuvada que caiu ontem à noite. Fiquei todo lavadinho e assim, com um ar mais apresentável, lá me decidi a descer do pedestal. Isto sem qualquer vaidade, atenção! Por mim, em vez da coluna coríntia, podia muito bem estar sentado no poial da porta nº 12, ali na antiga Rua de S. Domingos, onde nasci. Mas já que me quiseram dar honras de figura maior da cidade... Fiquei maior, realmente! Embora meão de altura, esticaram-me até aos dois metros. Mas não me deram asas para subir e descer dali de cima! Só tive direito a uma pena. Aliás, por causa disso é que aqui estou. Ora repare, tenho papel e pena, mas a tinta já secou há séculos! Então pensei: se aquela senhora ali sentada escreve tanto, deve ter um tinteiro dentro da mala ou muitas penas de reserva. Com certeza não se importa de me dispensar uma ou duas, não é verdade?
Respondi-lhe que não me importava, não senhor, mas teria de lhe dar outro utensílio de escrita, uma esferográfica, visto que, tinha muita pena, mas já não se escrevia com penas.
Convidei-o a praticar um pouco no meu bloco de notas e levantei-me para lhe ir buscar um café.
No regresso, a mesa estava vazia. Sobre o tampo, uma folha de papel onde se lia:
Eis Bocage, que também preza o carinho.
Saíram dele mesmo estas palavras, num dia em que se achou mais lavadinho.
No centro da praça, a estátua do poeta servia de poiso a meia-dúzia de pombos.

Muito bom amiga e colega