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Dito e feito!...

  • Foto do escritor: Joaquim Gouveia
    Joaquim Gouveia
  • 20 de mai.
  • 3 min de leitura

GAZCIDLA COM “Z” OU A MARCA DO CAMPEÃO JOAQUIM AGOSTINHO

(em homenagem ao grande campeão do ciclismo português, na passagem do 42ª aniversário do seu trágico falecimento)


 

A minha mãe nunca me deixou ter uma bicicleta e tanto que eu adorava ter uma. Tinha muito medo que me magoasse a sério. Era um pavor quando se falava em tal coisa.

No entanto não perdia uma oportunidade para dar uma voltinha sempre que estava com amigos que tinham bicicleta.

Aprendi a andar muito cedo e tinha jeito para a coisa. Já andava sem mãos e sem pés se fosse necessário, só para mostrar as habilidades. Sem dentes é que não, ah isso não. Livra…

Por conseguinte, o ciclismo a par do futebol, era uma paixão.

O meu pai também foi culpado porque, embora não sabendo andar de bicicleta, adorava ciclismo.

As nossas modalidades preferidas eram o futebol, ciclismo e hóquei em patins. Aquilo é que eram tempos de entusiasmo sufocante.

Não perdíamos pitada dos relatos de qualquer das modalidades.

Acompanhávamos a Volta a Portugal em bicicleta, de fio a pavio, todos os anos. Aliás, era algo que, a par do futebol e do hóquei em patins, cativava amor e paixão por todo o país

Era tremendo ouvir os locutores, quase num engasgo falarem das vitórias arrebatadoras do Joaquim Agostinho, o grande campeão nacional, patrocinado pela Gazcidla, (do então industrial Casalo Ribeiro), numa altura em que gás se escrevia com “z”.

A volta tinha um brilho muito especial e os narradores radiofónicos sabiam fazer o relato com entusiasmo tal, que só lhes faltava saltar pelos microfones e entrar nas nossas casas pelos rádios e transístores que na altura ninguém dispensava.

A volta, também, chegava a passar por Setúbal. Agosto, era sempre o mês escolhido. Muito calor a acompanhar as longas etapas em que cada dia os atletas percorriam neste tão pequeno mas ao mesmo tempo imenso Portugal.

Do norte ao Algarve, passando pelas Beiras, Estremadura e Alentejo.

Dezenas de corredores de várias equipas portuguesas e espanholas, desfilavam acompanhados por muitos carros de apoio e no final o célebre “carro vassoura” que apanhava os que desistiam da prova.

Aquilo era um espetáculo.

Quando Setúbal era uma das metas da Volta,  o entusiasmo era crescente até ao grande dia em que a caravana entrava na cidade em velocidade arrebatadora até à linha de chegada.

O meu tio materno era fiscal na Câmara Municipal de Setúbal. Estava colocado nos serviços de higiene e limpeza.

Na véspera da chegada foi buscar-me a minha casa para ir com ele, numa camioneta camarária, acompanhar a limpeza das imediações da Avenida do Bonfim, onde a caravana iria chegar, com meta mesmo em frente à porta principal do nosso estádio do Vitória Futebol Clube.

Lá fui contente e feliz dar uma bela passeata com o meu tio Francisco, pelos arrabaldes durante toda uma tarde.

Na manhã seguinte acordei com entusiasmo visível, eu e o resto da maltinha. Todos queríamos ver o Agostinho, ao vivo e a cores.

Na zona da meta, perto das cinco horas da tarde, o povo apinhava-se. Cada um fazia comentários à sua medida, mas ouvia-se pela rádio que o nosso Joaquim, vinha no comando do pelotão.

Lembro-me de  que havia muita polícia mas o povo foi ordeiro apenas queria manifestar o seu regzijo e entusiasmo por momento tão alto que se iria viver na cidade.

De repente, ali vinha um ciclista africano, talvez saído de uma qualquer obra, a atravessar a zona da meta. Logo surgiu o reparo de um anónimo: “olha este viu-se negro para chegar a Setúbal”, risada geral. Não havia intenção racista. Tudo nas calmas. Até o africano achou graça por comp5reender que não existia maldade, nem hostilidade para com os africanos que já nesse tempo viviam e trabalhavam na cidade.

Pouco depois o coração apertou. Ouviam-se as sirenes das motas da polícia e as buzinas dos carros de apoio. Eis o pelotão com Agostinho, na frente a cortar a meta e a segurar a camisola amarela. Uf… que satisfação.

Estive lado a lado com o meu herói. Eu não tinha mais que doze anos, mas aquele momento foi para toda a vida, claro está.

Nos dias seguintes brincámos tanto à Volta a Portugal, que já queríamos ser também patrocinados pela Gazcidla, com “z”, claro!

 
 
 

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