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Dito e feito!...

  • Foto do escritor: joaquimgouveia06
    joaquimgouveia06
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

O XALAVAR


 

O xalavar é um saco de rede de forma cónica para apanhar ou transportar peixes e crustáceos.

O meu tio João tinha, pelo menos, dois ou três e serviam para apanhar caranguejos na baía do Seixal, especialmente quando eu ía para lá passar as férias grandes em família com avós, tios e primos e montões de brincadeira à minha espera.

Era rapazito, dez ou onze anos, franzino mas muito interessado nas coisas.

Pela manhã íamos à praça da vila para arranjar umas cabeças de peixe Espada para fazerem de isco para os gostosos caranguejitos.

Depois de irem ao lume e servidos na mesa  não sobrava um, ah, pois não…

A coisa funcionava mais ou menos assim, pelo que ainda me lembro.

Arranjávamos, então, as cabeças do peixe Espada que atávamos no interior do xalavar para servir como isto. Geralmente os caranguejos gostam muito de devorar os olhos dos peixes.

Depois prendiam-se uma ou duas pedras no extremo do xalavar para ele ir ao fundo. O meu tio atava uma corda com muitos metros para poder subi-lo e descê-lo junto ao cais de embarque do velho Zagalo, que era o cacilheiro que na altura fazia a travessia até à capital transportando muitos passageiros.

Nesta aventura entrava o meu tio João, o meu primo Rui e eu. A minha tia e a minha prima ficavam à nossa espera para cozer os caranguejos e… devorá-los.

Fresquinhos, vermelhos que nem um tomate, mas muito mexidos. Era preciso cuidado para não ser mordido pelo bicho que não parava de sacudir as suas pinças para se defender.

Mas os coitados não tinham hipóteses. O meu tio e o meu primo já eram mestres na pescaria. Os crustáceos íam todos para dentro do balde.

Na altura o petisco sabia mesmo muito bem. Eu adorava comer os caranguejos que a minha tia fazia tão deliciosos.

Quando os meus pais apareciam levávamos mais xalavares porque o meu pai também entendia do “oficio”.

As pessoas que por ali passavam achavam graça à pescaria. Juntavam-se a nós e conversavam. Era uma espécie de entretenimento para os mais velhos e para os que estavam de férias.

Uma vez o meu tio e o meu pai pediram o pequeno bote ao Chico Bruxo (alcunha de criança), amigo deles, para mais uma aventura agora dentro do rio Judeu, que é uma afluente do Tejo que mora ali na baía seixalense.

E lá fomos, cedinho, de xalavares em punho a atar cabeças de peixe Espada e a trazer para os baldes os gulosos caranguejos.

Era um ver se te avias. Aliás, havia quem os quisesse comprar mas nunca fomos nessa.

Para memória futura ficou este divertimento tão peculiar mas também tão engraçado.

A baía do Seixal, muito bonita, sobretudo com a maré cheia, presta-se a estas atividades piscatórias e, também náuticas.

Tem um encanto perfeito, uma vista majestosa sobre Lisboa e um inconfundível cheiro a maresia.

Hoje gostava de lá voltar para mais uma pescaria de caranguejos e dúzia e meia de saudáveis gargalhadas.

Quando era tempo de embarcar numas férias no Seixal ficava feliz porque sabia que a aventura estava à minha espera. E esta da pesca dos caranguejos perdurou na minha memória por toda a  vida com um toque indelével de saudade.

Por isso quando a recordo, especialmente com os meus filhos, parece que sinto um brilhozinho nos olhos de cada um. É como se alguma vez também por lá estivessem.

Um destes dias compro um xalavar e depois… logo se vê.

 

 
 
 

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