Estórias que eu conto e sei de cor
- Joaquim Gouveia

- 20 de jun.
- 3 min de leitura
Festas na aldeia honram tradição popular
ARRAIAIS, MANJERICOS, QUADRAS POPULARES
E UM TOSTÃOZINHO P´RO SANTO ANTÓNIO

Em junho as ruas são engalanadas para receber os Santos Populares.
A tradição mantem-se e com tal vigor que a decoração de cada rua leva mais ou menos um ano a concluir.
Muito papel, muita fita, muitos laços, canas, madeiras para as fogueiras, quadras populares, extensões de luz, enfim uma enormidade de afazeres que ocupa os moradores ao longo de praticamente todas as noites.
Mas a espera pelo dia da inauguração é, demasiadamente, emotiva. A véspera de Santo António, marca o início dos arraiais.
Cármen Maria, a moça mais bonita da rua da Glória, não pára um segundo. É a miúda mais solicitada da festa.
Muito bonita mesmo, cabelos castanhos, longos e sedosos, olhos verdes da cor da esperança, lábios suaves e doces, um olhar imensamente jovem e inocente.
Servia o vinho e as sardinhas, mas também dança ao som do gira discos, com os "mais de mil" pretendentes a namorados.
Salta a fogueira como ninguém, exibindo um lindo xaile de fadista que a sua madrinha Maria do Amparo, lhe ofereceu quando a Cármen, se estreou a cantar o fado na coletividade da Glória.
Esguia num corpo moldado pela mão de Deus, como os rapazes costumam dizer,
Trina como um pássaro, uma voz, enormemente, quente e suave ao mesmo tempo. Enche os corações daquela gente.
“Ó Carmen, olha que já não temos caracóis na mesa. E essas jolas fervem ou não?”...
É assim toda a noite porque a Carmen, é a menina mais prestável e disponível do arraial.
Nas paredes dezenas de quadras a evocar os santos e o tempo deles: “Ó meu rico Santantoninho | não me faltes à festa | olha que sem vinho | o arraial não presta”. “Ó São João, meu amor | quem te deu esse cordeiro | foi a filha da nossa Flor | ou o luar de janeiro? “. “Ó S. Pedro, meu amigo | tanta a minha devoção | que nesta festa eu digo | há sardinhas a pingar no pão”.
A rua da Glória, é estreita, mas cabe todo o povo no seu imenso comprimento. As entradas estão decoradas com canas verdes em forma de arco que dependuram as figuras dos Santos Populares.
Depois o arraial de papel entrelaçado em laços contínuos, multicolores, festões enfeitam-na de uma extremidade à outra com dezenas de balões de São João, coloridos e pendurados.
As luzes de cores várias emprestam um ambiente muito feliz, embora as lâmpadas amarelas de 75 watts, estivessem em maioria.
Portas e janelas da rua foram decoradas pelos moradores com largas tranças de papel, manjericos, figuras alusivas aos santos e flores várias.
No centro da rua uma bancada com meninas a vender as tradicionais rifas do sai sempre. Copos, canecas, canetas, pratos, bibelots, enfim uma série de surpresas oferecidas, também, pelos moradores com números nos pedacinhos de papel
Junto à entrada da coletividade estão dois enormes fogareiros que assam entremeadas, bifanas, chouriços e salsichas, para além das deliciosas e tradicionais sardinhas, pois claro.
O pão sai em catadupa, era um ver se te avias. Os caracóis são devorados com delícia e prazer. Vinho e cerveja jorram até às tantas da madrugada.
O Zé Pedra, é o homem da música, Os discos, LP´s e singles de vinil são seus, tal como o grande gira-discos que debita decibéis atrás de decibéis, pelas imponentes colunas de som. Tudo com o preceito do antigamente.
As músicas mais populares da quadra sucedem-se ritmadasz para que o baile não tenha paragem. De Maria José Valério, a Amália Rodrigues, não esquecendo a Fernanda Batista e a Aida Batista, toda a gente alinha nas bonitas e ritmadas danças a convite das marchinhas de Lisboa.
E dá para ver o cabelo da Cármen, esvoaçar no meio da multidão em passos atrevidos e cheios de sensualidade. Era a menina do chinelo amarelo.
Toda a gente está feliz. É ali que a própria alegria mora nestas noites de magia única, como se os males do mundo estivessem todos curados.
“Esta noite só queremos saber de alegrias. Siga o baile senhor Zé Pedra”, ordena o presidente do Grupo Desportivo da Glória.
E assim segue, festa após festa, até que a fogueira ainda esteja vigorosa e permita um salto aos mais afoitos.
As crianças atrevem o salto numa pequena fogueira feita propositadamente para elas. É um rodopio, uma algazarra perfeita.
Cármen, cansada sentou-se, derpois, numa das mesas do arraial e, contente abraçou o mundo num pensamento único. Era a noite de voltar a ser feliz como sempre nos habituara. A rapariga é a força que há no mundo, num arraial de papel e fantasia.
E quando a fogueira esmorecer o povo volta à cama e dorme o sono da gente, descansadamente, feliz.


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