Feira de Santiago (ponto de encontro)
- Carlos Lopes

- 24 de jul.
- 3 min de leitura
Quando a memória ainda passeia pela Avenida Luísa Todi
“NÃO ERA APENAS UMA FEIRA. ERA O PONTO DE ENCONTRO DA CIDADE E DE QUEM A VISITAVA”

Há lugares que deixam de existir apenas no mapa. Na memória, permanecem intactos, com os sons, os cheiros e as emoções de um tempo que jamais regressa. Para mim, a Feira de Sant'Iago será sempre a da Avenida Luísa Todi.
Ainda hoje consigo ouvir a música dos carrosséis a misturar-se com as gargalhadas das crianças, enquanto os carrinhos do algodão-doce pintavam de cor-de-rosa os sonhos dos mais pequenos. No fundo da avenida, quase como um ritual imutável, permaneciam as loiças de barro. Ali estavam elas, resistindo ao tempo, como se soubessem que a feira acabava, mas a tradição continuava.
Foi também ali que vivi alguns dos momentos mais felizes da minha vida na rádio. Primeiro pela Rádio Azul, depois pela Rádio Voz de Setúbal, tive o privilégio de fazer locução na inesquecível Rádio da Feira. Muito mais do que passar música para animar o recinto, aquela pequena cabine era o coração da feira. Era dali que se anunciavam mensagens de quem procurava familiares ou amigos. Bastava pagar uma pequena quantia para que uma voz ecoasse pelos altifalantes: "A família Silva aguarda o senhor Manuel junto ao stand da rádio." E, poucos minutos depois, lá surgia o reencontro.
Mas havia anúncios que nos apertavam o coração. Eram os das crianças que, no meio da multidão, se perdiam dos pais. O stand da rádio transformava-se, então, num porto seguro. Entre lágrimas, brinquedos improvisados e palavras de conforto, aguardávamos, serenamente, que a voz da rádio voltasse a cumprir a sua missão e devolvesse um abraço a quem mais dele precisava. Felizmente, quase sempre com um final feliz.
A feira era também palco de grandes emoções. A convite da Câmara Municipal de Setúbal, apresentei inúmeros espetáculos durante vários anos. Primeiro, no emblemático palco da Praça de Bocage. Mais tarde, junto ao Mosteiro de Jesus. Foram noites inesquecíveis, de artistas, aplausos e um público que fazia da Feira de Sant'Iago, o grande acontecimento do verão sadino.
Naqueles dias, Setúbal transformava-se. As ruas enchiam-se de visitantes vindos das localidades vizinhas, de vários pontos do país e de tantos emigrantes que escolhiam as férias de verão para matar saudades da terra. A cidade ganhava outra vida, outro ritmo, outro brilho. Havia um frenesim contagiante que parecia unir toda a gente numa mesma celebração.
E como esquecer as entradas monumentais da feira? Todos os anos surgiam diferentes, inspiradas em novas temáticas, despertando a curiosidade de quem chegava e servindo de postal de boas-vindas a milhares de visitantes.

Mas as minhas primeiras recordações são ainda mais antigas. Vejo-me de mão dada com os meus pais ou com os meus avós, caminhando lentamente pela avenida, fascinado com tudo o que os meus olhos descobriam. Os brinquedos de madeira, os carrinhos de folha, as pequenas maravilhas artesanais que, para uma criança, pareciam verdadeiros tesouros.
E havia aromas impossíveis de esquecer. O cheiro inconfundível das filhós e das farturas acabadas de fritar, polvilhadas com açúcar e canela, confundia-se com o perfume da feira inteira. E, ali perto do stand da rádio, quase sempre estava outro ponto de paragem obrigatória: o stand da Bolacha Piedade. As filas eram constantes, mas ninguém parecia importar-se. Afinal, esperar fazia parte do ritual.
Hoje, a Feira de Sant'Iago, continua a escrever a sua história noutro espaço, adaptada a novos tempos e a novas exigências. Mas, para quem viveu aqueles anos na Avenida Luísa Todi, ficará sempre a sensação de que ali existia uma magia difícil de explicar. Não era apenas uma feira. Era o ponto de encontro de famílias, amigos, emigrantes, artistas e sonhadores. Era um lugar onde a rádio aproximava pessoas, onde uma voz podia devolver um filho aos braços dos pais, ou reunir amigos separados pela multidão.
São memórias que o tempo não apagou. Pelo contrário. Tornaram-se mais valiosas com os anos. Porque há saudades que não pedem para voltar. Pedem apenas para serem recordadas.
E sempre que penso na velha Feira de Sant'Iago, da Avenida Luísa Todi, percebo que, afinal, uma parte da minha infância, da minha juventude e da minha vida continua a passear por aquelas ruas, ao som de um carrossel que nunca deixou verdadeiramente de girar.


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