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Feira de Santiago (a avó Gabriela)

Miguel Assis
24 de jul.
4 min de leitura

“A FEIRA DE SANTIAGO É SERÁ SEMPRE A FEIRA DA MINHA VIDA”



A Feira de Santiago podia ser apenas uma feira qualquer, mas não é. Faz parte dos hábitos de um povo, faz parte da história de uma cidade, da autoestima das suas gentes e certamente faz parte da minha vida, desde sempre.

Os meus avós maternos eram feirantes, tinham um carrossel. Quando eu nasci a vida deles já era diferente, por isso não acompanhei essa realidade, mas vivi uma outra, mais confortável e muito mais divertida. A comunidade dos feirantes é como uma grande família. Todos se conhecem, passam o ano inteiro a viajar pelo país, nem sempre com as melhores condições, a sua vida é muito dura, não têm rendimentos extraordinários e, apesar das melhorias das últimas décadas, continuam a ser um pouco esquecidos, ainda marginalizados e detentores de muito poucos direitos. Por isso defendem-se uns aos outros, apoiam-se uns aos outros, vivem as alegrias e as tristezas uns dos outros.

A partir dos meus 7 ou 8 anos, quando comecei a reter memórias mais vivas e claras e maior noção ou perceção do mundo à minha volta, a chegada da Feira de Santiago passou a ser um dos melhores momentos, senão o melhor momento do meu ano. Eu não morava, nessa altura, na cidade, mas vinha passar as férias de verão a casa dos meus avós. Logo no dia da inauguração a avó Gabriela, ia à cabeleireira, vestia a sua melhor roupa, penteava-me a mim o melhor possível (finalizando sempre com um bocadinho de cuspo no cabelo), e lá íamos os dois com uma excitação que não conseguíamos, nem queríamos disfarçar. A avó Gabriela, já reformada, sabia que ia encontrar as suas gentes. Uma vez por ano ia estar, de novo, perto daquela vida que foi a sua por mais de 40 anos. E eu sabia que, como em todos os anos, sem que ninguém desse por isso, ia ser o miúdo mais privilegiado daquele espaço. Enquanto a avó Gabriela, ia de barraca em barraca, de banca em banca, de carrossel em carrossel, de roulotte em roulotte, rever as amigas (a família), contar as novidades, as histórias, as alegrias e as dores, para que o menino (eu), não se aborrecesse ou não as atrapalhasse a elas enquanto conversavam, todos (repito, todos), os feirantes no melhor lugar do mundo, do melhor momento do ano, desde os vendedores de farturas aos carrinhos de choque, desde as loiças, ao algodão doce, desde os livros às bifanas, desde as barracas de prémios, ao comboio fantasma ou à casa dos espelhos, Todos me davam presentes. O que tinham para oferecer. Fossem os livros que eu quisesse escolher, fosse empanturrarem-me de pão com chouriço, gofres, gelados, torrões de Alicante, tremoços, alcagoitas, bolachas Piedade, churros, entremeadas, peluches para levar para casa e

muitas, muitas senhas e fichas para andar, interminavelmente, ou pelo menos, enquanto durasse o reencontro da minha avó com as amigas em todos os divertimentos.

A maioria dos miúdos andava apenas em alguns carrosséis, uma volta, no máximo duas, mas o discreto rei da festa (eu), sem que ninguém desse por isso era o mais feliz de todos.

Anos mais tarde a primeira casa que tive, quando vim trabalhar e viver para Setúbal, foi exatamente junto ao atual largo José Afonso, na altura o terreiro da Feira. Imagine-se o que é morar, durante 15 dias, dentro de uma Feira. Mas não numa feira qualquer, a Feira que na infância me fazia sentir importante. Imagine-se ter de se pedir licença à senhora da banca dos baldes de plástico para poder entrar em casa, a música que começava de manhã com a limpeza de cada carrossel até altas horas e ficar à janela para ver moedas e chaves a caírem dos bolsos das pessoas, à medida que os divertimentos foram ficando cada vez mais sofisticados e muito mais movimentados.

A partir dessa altura, através do TAS - Teatro Animação de Setúbal, passei a fazer parte da própria Feira de Santiago. Durante anos fiz animações diárias na Feira, na minha Feira, na Feira da minha vida. Entretanto a Feira de Santiago, cresceu e deixou de caber naquele espaço. Isso não me indignou nem me defraudou, porque o mundo consiste de mudança, porque passou a haver muito mais opções de espaços e equipamentos lúdicos, porque se alargou na necessidade de fazer da Feira um espelho da cidade, uma forma de divulgar aquilo que faz esta terra ser única, da sua história, dos seus hábitos, das suas especialidades e particularidades e também porque a Luísinha e a minha tia Maria (eternas rivais e donas dos dois impérios das farturas, respetivamente, "As Farturas da Luísinha" e as "Farturas Pax Júlia"), fizeram finalmente as pazes, obrigadas a unir-se no "combate à ameaça" das novas barracas de doces fritos, que as indignavam por "serem porcarias feitas por quem não percebe nada disto", enquanto se sentiam aterrorizadas por poderem vir a perder o seu estatuto. Nesta nova fase passei a fazer parte de outro momento honroso que é a abertura deste evento tão importante e tão querido para os setubalenses.

Esta não é uma feira qualquer, é um momento particularmente alegre para os habitantes desta cidade, é uma altura em que se unem gerações, estratos sociais, diferentes gostos, distintos hábitos e em que nos aproximamos uns dos outros através das memórias felizes que todos temos desta grande festa familiar, desta importante celebração da região e do país. E, pessoalmente, seja qual for o espaço em que ela seja realizada, esta é a Feira da minha vida e nela encontro as minhas raízes.

 
 
 

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