Feira de Santiago (poço da morte)
POÇO DA MORTE – BATE, BATE CORAÇÃO…

Ver o Poço da Morte, era uma tremenda aventura, uma emoção que quase nem sei explicar num misto de medo e audácia.
Primeiro viam-se as acrobacias junto à entrada do gigantesco poço de madeira por onde artistas e as suas motas desfilavam para o espetáculo.
A mota do Nélson, um dos acrobatas rolava sobre dois cilindros e o homem desdobrava-se em desenhos acrobáticos que nos pareciam valentes e muito difíceis de executar.
Primeiro tirava as mãos do volante e abria os braços. Depois colocava-se de joelhos sobre a moto e, finalmente, erguia-se, ficando mesmo de pé, num movimento enérgico e arrebatador.
Logo aí recebia as primeiras palmas do público que, antes de subir à bancada do poço, apinhava-se para ver o motard em exibição.
Nélson e Rute, assim eram anunciados os ases do volante, os verdadeiros desafiadores do perigo de iminência. Era um casal de jovens, bonitos e, fantasticamente, vestidos, a chamar o olhar do público.
Enquanto a minha família observava os provocantes momentos de perigo exibido antes do espetáculo, o meu pai dirigia-se à bilheteira para nos comprar os ingressos.
Depois havia que subir a íngreme escadaria que nos levava ao topo do poço, a uma altura bem considerável do chão.
Aquilo tremia tudo e ainda mais com o rolar louco das motorizadas já em ação.
Não sei de que mais tinha medo, se da queda de um motard ou do próprio poço. Nem uma coisa nem outra aconteciam, claro. Tudo estava, minuciosamente, preparado, mas, às vezes o destino prega as suas partidas…
Haviam muitos ensaios. Afinal a vida não podia valer tão pouco.
Vruuummm aceleravam as motos lá em baixo prometendo uma vertiginosa subida ao cume do poço.
A velocidade era estonteante. Toda a estrutura tremia que nem varas verdes. Era um espetáculo de arrepiar, sobretudo os mais jovens, as crianças.

Nélson e Rute, em plena exibição rolando em contra mão subindo e descendo o poço num ápice, verdadeiramente, assustador. Muita audácia, coragem e emoção..
Numa altura os dois abriam os braços e deixavam as motos quase voarem sózinhas. Depois o Nélson, retirava uma bandeira de Portugal, do bolso da camisa e colocava-a sobre o rosto ficando, momentaneamente, sem visão.
Era a apoteose. Grande e sonora salva de palmas ao casal maravilha.
A descida das escadas era um momento de alívio depois de tanta adrenalina deixada na bancada do Poço da Morte.
Quando se chegava ao final da escadaria, também de madeira, com corrimão dos dois lados, apetecia comer uma fartura para desanuviar a pressão.
E logo os motards voltavam à sua exibição na moto sobre cilindros captando os olhares e o apreço do público.
O poço jamais parava em cada noite de audácia e acrobacia.
Bate, bate coração. Uf...

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