Feira de Santiago (Vendas de Azeitão)
- Maria A. Bartolomeu

- 24 de jul.
- 4 min de leitura
DAS VENDAS DE AZEITÃO PARA SABOREAR AS FILHÓS DA PENIM

INÍCIO DOS ANOS SESSENTA DO SÉCULO PASSADO
Bem pequenita lá íamos, a pé, até ao Alto das Necessidades, ainda o sol raiava, para apanhar o transporte na empresa setubalense “Belos”, que nos levaria até à feira da nossa cidade de Setúbal.
De traje domingueiro, cabelo apanhado com o laçarote a condizer, íamos os três filhos com a mãe, até à paragem da Boa Morte. Íamos só com a mãe? Claro que não! Era sempre um enorme grupo desta bela aldeia de Vendas de Azeitão. Ali chegados separávamo-nos por grupos e gostos de diversão. Uns mais crescidos escolhiam de imediato a zona onde se podiam divertir, nós os mais pequenos seguíamos o trajecto que a mãe escolhia.
Dessa altura recordo muito bem as compras que a mãe fazia para nós. O dinheiro era muito pouco e não podíamos pedir muitas coisas. Dávamos uma voltinha a ver os carroceis, a ver os carrinhos de choque, literalmente a ver, pois a mãe não nos deixava andar por questões de segurança e por falta de meios monetários.
Íamos à feira e não trazíamos nada? Claro que não!
Uma filhós da Penim, eram as mais saborosas, o que tinha de pior eram as filas. Para o mano um brinquedo de madeira e para as duas meninas a reposição das louças de barro que, entretanto, se tinham partido. Lá vínhamos muito felizes com os nossos tachos, fogareiro, etc., em barro não vidrado, pois era muito mais barato. Não saímos da feira sem trazer a célebre Bolacha Piedade, pois o pai estava, quase sempre a trabalhar, mas não era esquecido, e comia-as com muita satisfação.
Nesta altura lembro-me de pouco mais.
FIM DOS ANOS SESSENTA INÍCIO DOS ANOS SETENTA
Nesta altura, já adolescentes, fazíamos o mesmo percurso, mas as expectativas eram outras.
Já podíamos disfrutar de algumas diversões. Mas sempre com a supervisão da mãe. Não raras vezes os rapazes, desconhecidos, pediam se queríamos dar uma volta nos carrinhos de choque, eram olhados de lado e a mãe punha uma cara de má e eles afastavam-se.
Íamos à feira mais vezes, pois, íamos para a Albarquel, a pé, e na volta da praia passávamos sempre pela feira para comprar farturas e bolacha Piedade. Já não se usavam os brinquedos de barro, essa tradição tinha dado lugar aos brinquedos de plástico e nós já não brincávamos.
A entrada do Feira, que tinha por base um tema, que mudava de ano para ano, ficava perto do mercado do Livramento, e chegava até perto da Saboaria.
De cada lado eram os Stands de exposições, muito abrangentes. Electrodomésticos, demonstrações de produtos inovadores, produtos regionais, ou seja, os mais variados temas. Estava tudo bem organizado e dava-nos uma perspectiva do que poderíamos ter à venda nos vários estabelecimentos da cidade. O comércio situava-se, maioritariamente na baixa da cidade. Ali, na feira, faziam a sua publicidade e entregavam-nos uns cartões para usufruirmos de algum desconto, ou outras facilidades. Era também uma feira de negócios.
Mais adiante encontrávamos já alguns automóveis e as mais variadas alfaias agrícolas.
No Parque das Escolas, assim chamado à época (hoje Largo José Afonso), havia as mais variadas diversões. Recordo-me de algumas. Uma delas era a primeira vez que a víamos, o Poço da Morte.
Havia um enorme movimento de pessoas e um cheiro característico de sardinhas assadas. O povo que visitava a feira por ali jantava e cada “barraca”, autênticos restaurantes, primavam por servir bem.
Toda a baixa da cidade de Setúbal respirava vida e alegria.
Já mais tarde começaram os concertos de artistas já com algum palmarés.
Nesses concertos vi o Bonga, Dulce Pontes, Sitiados, Fafá de Belém e os GNR, entre outros. Os concertos aconteciam primeiro no Largo Teófilo Braga, depois no antigo Externato Luisa Todi, mais tarde na Praça de Bocage e, finalmente, no largo do Convento de Jesus, eram frente ao Convento de Jesus.
A cidade fervilhava de povo e de alegria. Nós íamos apanhar o autocarro à antiga estação dos “Belos”, na Avenida 5 de Outubro, e não havia um desacato ou uma falta de educação. Um piropo ou outro às meninas, que não eram ofensivos.
Tenho saudades desse tempo em que a nossa cidade tinha muito mais vida.

ANOS OITENTA DO SÉCULO XX
Nesta altura já era mãe de dois filhos e não falhávamos a nossa voltinha pela feira. Os tempos já eram outros e a feira tinha ainda maior diversidade de produtos.
Para além dos mencionados aí íamos encontrar, mobiliário artesanal, em madeira e verga, cestaria e peles. Produtores que vinham dos mais variados pontos do país para venderem os seus produtos.
Por fim, comum a todas as épocas, as exposições de faianças e barro vermelho eram os últimos a levantar os seus produtos da feira, alongando-se por mais duas ou três semanas e não deixavam de fazer o seu negócio.
Para terminar esta viagem ao passado, recordo um tempo em que eu trabalhava na Firestone, que ainda hoje está em actividade no mesmo sítio, ia à hora do almoço, dar uma vista de olhos a uma determinada peça de faiança branca que pretendia oferecer à minha mãe a 8 de dezembro, que naquela altura era o Dia da Mãe. O mealheiro não chegava e eu tinha receio que a peça se vendesse. Finalmente, tive coragem de contar ao meu pai e ele deu-me os últimos escudos que faltavam. Comprei a peça e escondi-a tão bem que a mãe só a viu no dia em que a ofereci. Como soube bem fazer esta surpresa.


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