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Fim de ano em Setúbal, nos anos 50

  • Foto do escritor: joaquimgouveia06
    joaquimgouveia06
  • 29 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

O BAILE DO ATENEU

QUE FEZ ESTALAR O VERNIZ…

 

A grande noite chegou, finalmente.

Os fatos ficaram prontos a tempo e caíam que nem luvas aos dois rapazes. O senhor Silva sentia-se vaidoso pela perfeição dos cortes.

A tia Beatriz gabou, entusiasticamente, o Óscar. “Mas que bonito – afirmou – Tenho a certeza de que não regressarás a casa sem uma promessa de amor”, alvitrara.

Òscar sentia-se um autêntico príncipe adornado pelo seu belo fato.

Tinha comprado uns sapatos pretos, de verniz que muito realçavam no conjunto. A camisa era branca e a gravata listada a branco e vermelho. Penteou-se com brilhantina. Empinou o corpo, deu as boas noites a Beatriz desejando-lhe um bom ano.

Depois seguiu em direcção ao Ateneu.

Pelo caminho lembrou-se da visita que fizera, dias antes, à colectividade do senhor Silva. No fundo até desejava que o baile de fim de ano fosse por lá. Tinha gostado bastante da colectividade e do ambiente. Capricho, era o nome da sociedade filarmónica. Tal como na sua terra, havia uma banda de música, um grupo cénico, uma biblioteca, um bar, mas a verdade é que tudo era bem maior. A sala, a banda, o palco, enfim, tudo à escala de uma colectividade de cidade.

As pessoas pareceram-lhe simpáticas. Havia de lá voltar com mais tempo.

As ruas da grande cidade estavam particamente desertas. De quando em vez viam-se algumas pessoas que se dirigiam para as colectividades levando farnéis de comida para comemorar a passagem do ano.

A noite estava bastante fria e o capote tinha ficado em casa. O Óscar nunca largava o seu capote alentejano, mas a ocasião era especial.

Por isso sujeitou-se a gelar dentro do seu fato que pouco ou nada o aquecia. Que interessa se o momento é de grande importância?



Óscar não conhecia o Ateneu. Pensava que se tratava de mais uma colectividade da cidade. Daí que achasse que iria fazer figura vestido da forma que estava, um verdadeiro galã.

Entregou o convite, subiu as escadas e percebeu, logo ali, que aquela casa não era como as outras. Cada um dos convidados estava ainda mais bem vestido que ele e o porte era de distinção absoluta. Muitos fumavam charuto, outros cachimbo. As senhoras exibiam vestidos de alta costura e penteados que só tinha visto em fotografias por Lisboa. Os empregados tinham farda e luvas brancas e serviam bebidas em bandeja. O conjunto musical era o melhor da região, a Blue Star.

Procurava desesperadamente pelo Necas e pelo senhor Mendes. Sentia-se perdido e cada vez mais encalorado num Príncipe de Gales, que já lhe parecia tecido rude. Tudo era estranho e absolutamente aterrador. Pensava em sair dali o mais rapidamente possível mas não podia fazer essa desfeita ao senhor Mendes. Estava sem jeito, sem palavras, encurralado junto a um canto exibindo desconforto e mal-estar. Dava a sensação que todos olhavam para si, que era o centro de todas as atenções, o alvo de todas as chacotas.

Na verdade o caso não era para menos. Óscar estava entre a nata da sociedade setubalense, entre gente rica e poderosa da cidade.

O salão era luxuoso com cortinas vermelhas e lustres imponentes pendurados no tecto. As mesas estavam cobertas com longas toalhas brancas e as cadeiras enfeitadas com enormes laços azul bebé e marron, nas costas. Os flutes entornavam champanhe e o marisco amontoava-se em travessas de porcelana cara.

As paredes eram brancas e nelas estavam pendurados os retratos de vários homens, certamente, ilustres. No centro um enorme espelho. Balões e serpentinas corriam por toda a sala e ainda não era meia-noite.

Os convidados falavam alto e riam bastante.

Finalmente chegou o senhor Mendes e logo a seguir o Necas. “Que alívio”, pensou o Óscar.

O Necas vinha bem disposto. Falava bastante e gozava com tudo o que via. “Olha para aquele... Epá já viste aquele penteado... Olha-me aquele bigode”.

O mestre pedia que se calasse. Tentava explicar-lhe que local era aquele. Mas o Necas parecia já estar com os copos.

O senhor Mendes chegou acompanhado da sua família. Cumprimentou maior parte dos presentes e fez questão de apresentar os seus dois amigos: “O Óscar e o Necas, dois rapazes por quem eu tenho muita estima”, esclarecia.

Óscar percebia os olhares daquela gente e sobretudo a forma quase desprezível e desinteressada como o cumprimentavam. Ouviu os comentários de algumas senhoras: “O Mendes pode ter muito dinheiro, mas não tem maneiras, é sempre a mesma coisa. Como se atreve a trazer para aqui os pelintras dos empregados..”.

Foi o rastilho que incendiou a revolta de Óscar e o fez disparar em direcção à saída desculpando-se com má disposição repentina. Desceu apressadamente as escadas. Nem tinham soado as onze da noite. O Necas ficou por lá. Embriagou-se e deu problemas ao senhor Mendes.



Óscar recolheu ao seu quarto, em silêncio.

Beatriz sentiu a sua presença mas não o incomodou. Talvez tenha percebido o prematuro regresso do seu hóspede. Ela sabia que o Ateneu, não era casa para o Óscar. Limitou-se a deixar que o rapaz vivesse as suas próprias emoções.

Óscar acendeu o candeeiro de petróleo, puxou de um cigarro e recostou-se na cama envolto em pensamentos que o atordoavam e revoltavam. No fundo acabara de experimentar uma sensação diferente, estranha e, terrivelmente, perturbadora.

Ás doze badaladas abriu a janela e olhou a noite e o passar de mais um ano percebendo que, afinal, o seu lugar ainda era o quarto na casa da tia Beatriz.

 

(in “O Barbeiro das Águas”, de Joaquim Gouveia)

 

 
 
 

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