GIMBA

AS PRIMAS, AS RIMAS E A MALDITA “GENEBRA”…

Encontrei Bocage, por acaso. Estamos em Lisboa, 1995. Passando no Rossio, eu tinha ido ao Nicola, à procura do grande vulto sadino, mas ele não estava por lá. Como não lhe conhecia outro paradeiro, esqueci o assunto e rumei ao bairro alto, para refrescar a garganta.
O local escolhido foi “As Primas”, uma adega que originalmente foi de um galego, mas era explorada pelas suas filhas – que eram afinal irmãs (claro!) e não primas. O nome “Primas” aparece por via popular: sucede que a mais velha se chamava efetivamente “Prima”. A clientela, ao ouvir as irmãs berrar: «Prima: mais duas Sagres!...»; «Prima: são três imperiais!...»; «Prima: isto!...», «Prima: aquilo!...» tomou como certo que as raparigas eram primas, enfim...
Pois, foi justamente ao balcão desta barulhenta Meca do tintol e da ginjinha, que alguém me deu um encontrão que fez verter o meu capilé. Era ele – o meu velho amigo Bocage, segurando o seu cálice (vim a saber que era o terceiro...) de genebra. — Ainda bem que te encontro — gritou ele, no meio de grande vozearia da casa cheia. — Vim aqui parar, mas não conheço nada disto. Tu, que és um assíduo, fazes-me uma visita guiada do bairro? – Claro que sim – respondi – Estás com sorte: eu tenho de ir distribuir panfletos a anunciar um concerto, e vou percorrer todas as capelinhas. Vamos embora!
Poderão os leitores pensar que se segue uma jornada, tipo “rali das tascas”, com a enumeração dos locais de culto a Baco por onde passámos, e a descrição de todas as bebidas consumidas pelo poeta do Sado (que eu, sempre fui abstémio!). Pois, não. O que interessa aqui é a nossa conversa – que, sim, foi demorada e passou por muitas mesas e muitos balcões do alto bairro, antes do grande clímax, já fora de horas, alta madrugada, no jardim de São Pedro de Alcântara.
O assunto era poesia, claro. – Mas eu não sou, nem nunca fui, poeta – argumentei – Apenas escrevo letras para canções, o que - na minha opinião - é uma coisa muito diferente. Só que as pessoas em geral (o «indígena da Rua dos Fanqueiros», nas palavras do teu amigo Eça de Queiroz) metem tudo no mesmo saco!
E continuei: – Tu, e os outros poetas, praticam uma escrita métrica: veneram as redondilhas, os decassílabos, os alexandrinos e Cia. (Ena, temos lua cheia!). Uma sílaba a mais pode ser um pecado mortal! Nós, os letristas, somos de outro clube, que é o da escrita rítmica. Porque, para o escritor de canções, quem dita as palavras são as toadas das melodias. Ora se, na música cantada, as melodias se repetem, como é normal em quase todas as canções, o palavreado para essas melodias tem de ter a mesma constituição rítmica, a mesma toada da primeira matriz, senão, vai haver palavras mal pronunciadas, com as tónicas fora do sítio e tempos do compasso a acentuar sílabas mudas. (Está lindo o rio, hoje!)
E dou-te um exemplo: o teu soneto «Camões, grande Camões...» – e vamos só falar do primeiro verso, da primeira linha – se fosse uma canção, daria problemas. Repara: «Camões, grande Camões, quão semelhante» não é ritmicamente compatível com «Como tu, junto ao Ganges sussurrante», a primeira linha da segunda estrofe, onde seria normal que a melodia se repetisse.
Em linguagem rítmica – inventada pelos gregos, faz três mil anos – a primeira linha é constituida pelos módulos rítmicos: iambo, troqueu, anfíbraco e peónio (não ligues a estes “palavrões” linguísticos). Confuso? Trocado por miúdos: num total de dez sílabas, as tónicas são a 2ª, a 3ª, a 6ª e a 10ª. Ora, no primeiro verso da segunda estrofe: «Como tu, junto ao Ganges sussurrante», as tónicas são a 1ª, a 3ª, a 4ª, a 6ª e a 10ª. A matriz rítmica, a toada, não é igual. A melodia não caberia nessas palavras! Se, em vez disso, tivesses escrito algo como: «Porém, vendo-te assim tão dominante», já temos tónicas nas 2ª, 3ª, 6ª e 10ª posições: já se poderia cantar com a mesma melodia! (desculpa estar tão falador; hoje estou com verve. E a noite? Não está espetacular?).
Esta é a principal diferença entre as nossas escritas. – concluí – Vocês, os poetas, escrevem sem preocupações rítmicas, pois o que conta é ter o número de sílabas certinho – seja redondilha, decassílabo, alexandrino ou até métrica livre. Mas há que ter a noção que um grupo de cinco, sete ou “N” sílabas não tem sempre a mesma toada, pois as palavras têm inúmeras combinações diferentes. Para que saibas – se é que não sabes já – a redondilha maior tem vinte e uma toadas diferentes, isto é: pode ter vinte e uma melodias! (Mas que noite!)
Sabes uma coisa engraçada? Nos meios do fado não há “letristas”, só há “poetas” (que é suposto ser uns degraus mais acima do vulgar autor de canções)... E como, justamente, os poemas são escritos apenas com critério métrico, sem cuidado rítmico algum, o texto fica recheado com acidentes dinâmicos, ou seja sílabas àtonas onde deveria haver sílabas tónicas, e vice versa! (E o cheiro a erva? Estes turistas dão-lhe bem!) Sabes que os fadistas fazem gala de ter pronúncia perfeita. Então, sempre que esbarram numa dessas irregularidades, fazem uma “ginástica” com a melodia, enganando o ritmo – esticando ou encolhendo palavras, para poder cantar sempre com pronúncia correta, apesar de, tecnicamente, haver disfunção rítmica! Um bom exemplo disso é a “Rua do Capelão”. Se a melodia fosse cantada como a letra foi escrita «Ó Rua do Capelão, juncada de rosmaninho», numa toada quase marcial, à Zeca Afonso, a palavra «juncada» - marcada pelos tempos do compasso na 1ª e 3ª sílabas – seria pronunciada JUN-ca-DA, ou seja – a sílaba tónica (a 2ª) – seria “abafada” pelo ritmo da toada. Mas nunca ouviste nenhum fadista pronunciar «JUN-ca-DA», pois eles fazem um exercício de interpretação – fugindo ao ritmo com o tal esticar e encolher de palavras – e conseguem sempre a pronúncia correta. A isso chama-se vulgarmente “estilar”. (Eh pá: tomara muitas noites de agosto estar uma temperatura destas!).
Mas eu, apesar de ser alfacinha de gema, não escrevo fados (claro, já terei escrito/esboçado um ou dois...), não sou do fado, a minha praia sempre foi o rock and roll, a pop, a música ligeira, a canção popular. E aqui, meu amigo, não há liberdades rítmicas. Assim que fazes nascer uma matriz, pimba: tens que lhe identificar o(s) ritmo(s) para poder escrever as estrofes seguintes com palavras condizentes, isto porque... (...) (...) (...)
Bocage!... Bocage!... Olha, este agora adormeceu-me!... Então estive aqui a falar para o boneco? (Maldita genebra). Acorda, pá!

Comentários