GRANDE ENTREVISTA
- joaquimgouveia06
- 29 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Rui Zink tem orgulho nas colaborações com o TAS
“HORA A HORA SÓ DEUS MELHORA…”

Tem sido constante a colaboração do escritor/professor/ensaísta Rui Zink, com o Teatro Animação de Setúbal. Foram já várias as peças levadas a palco pelo TAS, a partir de obras escritas por este autor bem conhecido da cultura nacional, sobretudo, depois da sua participação no painel do célebre programa “Noite da má língua”. Rui Zink é irónico, serve-se de uma satírica, que muitos dizem experimental, para construir as suas obras, os seus pensamentos que, nos incomodando pela força da veracidade, nos predispõem, também, a rir de um país onde esta forma de sermos, absurdamente, diferentes nos deixa assustados e, ao mesmo tempo, incrédulos com uma certa ridicularidade própria de um ADN, composto por múltiplas ascendências históricas que parecem terem sida misturadas num liquidificador de sangue, raça e cultura, cujo o resultado nos define como "lusitanos", vejam bem... Em entrevista que lhe propus, Rui Zink, mostra-se igual ao que dele já sabia, ou seja, rápido na resposta, célere na observação, pragmático e, sobretudo, atento ao facto da “parvoeira e do ódio” continuarem a fazer crescer o mundo sem, no entanto, se perceber ao certo quem “montou” a pirâmide de Jizé, digo eu. “Simplesmente abril”, ou mais recentemente “Manual do bom fascista”, proposto pelo TAS neste último mês, em Setúbal, deixam a nu o quanto vale Zink, em temos de oportunidade lucida e bem estruturada sobre o Portugal, nunca adiado…
Joaquim Gouveia – O derradeiro livro do poeta Joaquim Pessoa, dá pelo título “Os dias não andam satisfeitos”. Na entrevista que tive muito prazer em realizar com ele, mostrou-se preocupado relativamente aos dias que se pronunciavam e que, ao fim e ao cabo, parecem ter chegado. Partilhas desta opinião? O que falta aos nossos dias, amor, fraternidade ou luta acérrima pela manutenção dos valores que abril, nos devolveu? Quem nos entope as “veias” neste momento?
Rui Zink – Bom, isto é uma luta contínua. Hora a hora, só Deus melhora. A humanidade nem tanto. O ódio e a tendência para a parvoeira não foram embora, só andavam escondidas. E agora destaparam a manta. O segredo é agirmos sem cair na armadilha do desespero. Alegria de viver é precisa, mesmo de noite. Pensando bem, sobretudo de noite.
JG - Na toada de guerras que invadem em alarido a nossa Comunicação Social é de antever que os nossos filhos e netos vão mesmo ter de embarcar de mochila às costas, capacete na cabeça e G3 à tiracolo, para a guerra mais próxima?...
RZ – É. E para mim é uma boa notícia porque vão precisar de alguém com jeito para a aldrabices que lhes escreva a propaganda. Para resistir, o importante é dizer sempre: "E o seu filho está alistado onde, doutor?"
JG – Se te sugerisse a oferta do teu “Manual do bom fascista”, a três figuras nacionais quem estaria no teu ponto de mira?
RZ – Ao Cardeal-Patriarca, pois é um livro de moral e religião. Ao futuro Presidente, para ter um mapa de minas e armadilhas, à Comissária do Plano Nacional de Leitura, para o recomendar às escolas e fazer deste rico homem um homem rico.
JG – Qual o entendimento para que pessoas que não viveram um só dia no Estado Novo, afirmem que sentem saudades desse tempo e que desejariam o regresso de Salazar, caso fosse possível? Está tudo louco neste país?...
RZ – Está. Ou está ou para lá caminha.
“NA INFÂNCIA DE TODA A GENTE HOUVE UM QUINTAL”

JG – Hoje é prática corrente nas redes sociais ler uma frase que de tão batida parece já ter entrado nas consciências mais vulneráveis como afirmação de tempos felizes, mesmo em presença de fotos de bairros de barracas de madeira e lata: “éramos felizes e não sabíamos”? As pessoas perderam mesmo a noção da felicidade?
RZ - Não creio. O "éramos felizes e não sabíamos" pega num tema dos tempos bíblicos. As saudades da mãe pátria durante o exílio. Camões pega no assunto: "saudades de Sião na Babilónia", associando juventude a felicidade e velhice a exílio. Não está mal visto. Fernando Pessoa tem um poema lindo-feio que faz o mesmo, Dobrada à moda do Porto: "Na infância de toda a gente houve um quintal (...) e brincarmos era o dono dele." Mas há aqui uma ideia lúcida: a de que a felicidade implica sempre algum desprendimento. Eu fujo das pessoas que estão sempre com lamúrias.
JG – Nascer é uma fatalidade porque nos obriga ao improviso para cumprirmos a vida até aos últimos dias onde o tudo e o nada podem acontecer, ou será, antes, uma benesse por vermos o nascer dos dias, o acontecer do luar, experimentarmos o amor e até a possibilidade de, também, acontecer tudo e nada? Já alguma vez te apeteceu não teres nascido?
RZ –É uma benesse. "Eu não pedi para nascer!" é birra de adolescente chantagista. Dar vida eu uma espada de Dâmocles, sim, mas para os pais. Eu gosto, até ver, de viver. Nem que seja para vir ao choco a Setúbal!
JG – És uma das grandes figuras da cultura portuguesa. O teu percurso na escrita em vastas áreas desde o jornalismo, autoria de livros, peças de teatro e ópera, e escrita criativa, às quais se junta o professorado é por demais conhecido e elogiado como contributo para a própria democracia literária e intelectualidade do país. Ao perceberes os assustadores números da iliteracia e até do analfabetismo puro, que grassam neste Portugal, de abril, sentes algum tipo de frustração por estares em frente de uma realidade absurda 51 anos depois de uma revolução que tinha por obrigação cultivar o povo para que a inteligência germinasse trazendo-nos, no geral, felicidade e bem-estar intelectual?
RZ – Obrigado pela parte que me toca, mas eu pude assistir aos muitos milagres a seguir ao 25 de Abril, desde a mortalidade natalícia, à saúde e à educação. Um ou outro retrocesso não me tiram a alegria de ter visto o meu país passar de um estado feudal a um mais aberto. A questão é que as mentalidades levam muito século a mudar.
“TENHO MUITO ORGULHO NAS COLABORAÇÕES COM O TAS”

JG – Tens estado muito perto do Teatro de Animação de Setúbal – TAS – através de vários textos teus que têm sido adaptados para os seus espetáculos. A companhia celebrou agora meio século de existência. Surgiu com o propósito da descentralização do teatro profissional e, nesse particular, continua a ser um pilar bem estruturado. Como sentes o pulsar do TAS e a dimensão da sua importância não só regional, como a nível nacional?
RZ - O TAS tornou-se uma instituição, mas continua a arriscar. Isso tem muito mérito. Tenho muita admiração pelo seu trabalho e muito orgulho nas nossas colaborações.
JG – O Governo da AD, riscou o Ministério da Cultura, do seu programa governativo reduzindo-o a Secretaria de Estado. Apetece-me dizer “cuidado que eles andam por aí…
RZ - É sintomático. A direita sempre teve uma visão mais decorativa da cultura. Dá arte ao nada pior, só a compreendem quando está morta. Não é por mal, simplesmente não conseguem pensar melhor. Têm o cérebro ocupado com outras coisas.
JG – A Cultura continua a ser uma coisa cara e, muitas vezes, impossível de frequentar. Fosses chefe de Governo como te entenderias com este drama nacional?
RZ - Dois por cento do orçamento para a cultura. Investimento a sério nas crianças e nas escolas.
JG – De tantas vezes que tens vindo por aqui algum dia te surgiu a ideia de viveres em Setúbal? Quem somos nesta cidade e que cidade nós temos por cá?
RZ – Setúbal hoje é um mosaico de contradições. Tem uma identidade forte, mas população muito dispersa. É pena que para alguns seja quase só dormitório. Lisboa continua a sorver tudo e a usar e deitar fora pessoas.
“TENHO MEDO DE SER ALDRABADO PELA IA”

JG - Neste momento de que tens medo?
RZ – De ser aldrabado pela inteligência artificial. De ela me tornar toxicodependente já não vai a tempo, esse é um risco para os mais jovens.
JG – E daqui para a frente qual o caminho que o teu percurso te sugere? Continuar a dar-nos que pensar, motivar-nos para a descoberta, ou calçar as pantufas e entrar em estado Zen?
RZ – Não sabia se ainda tinha fôlego para novo romance e fiz agora um que sai daqui a uns meses. Acho que, como um dia disse um Grande Homem (salvo erro, D. Fuas Roupinho), "vou continuar a andar por aí". A brincar, que é a única forma séria de estar na vida.
JG – Ambos pertencemos à chamada “casta de 61”. Não fomos à guerra de África, ainda levámos umas reguadas e vimos que numa manhã cinzenta de abril, o Estado Novo, foi enfiado num chaimite e mandado para outras bandas quase ao pontapé. Fomos os felizes contemplados na grande cena dos tempos da revolução e, pelo que se antevê, seremos os renegados sexagenários desse mesmo mês dos cravos? Quem nos pode acudir?
RZ - Ah ah ah! Para citar um grande português (salvo erro, D. Marco Paulo), "ninguém, ninguém, ninguém".


Li a entrevista de fio a pavio e dei por mim a sorrir várias vezes. O Rui Zink está exatamente como se espera: rápido, irónico, lúcido e sem pachorra para disparates!!!. Há respostas que dão vontade de sublinhar, outras de rir, e outras ainda de pensar “pois… é mesmo isto”. A conversa flui, as perguntas são boas e o resultado é uma leitura inteligente, sem ser pesada, como a cultura devia ser sempre. Muito bom!!!