Grande Entrevista (1)
- joaquimgouveia06
- há 6 dias
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O pintor da cidade
Rogério Chora construiu o grande espólio da pintura de Setúbal
“TEM QUE SE TRABALHAR MUITO
PARA SE OBTER RECONHECIMENTO”
Rogério Chora é o mais antigo pintor setubalense, ainda, em atividade. Um dia gostaria de ser lembrado como o pintor da cidade que o viu nascer e à qual tem um amor que se poderá afirmar de “perdição”. Despontou ainda criança para a pintura e encontrou nos seus próprios pais um obstáculo que teve de ultrapassar com persistência e determinação. “O meu pai entendeu que os artistas morriam de fome, mas conseguiu ser, até hoje, o único pintor de Setúbal, a viver, exclusivamente da pintura”. Os seus quadros são obras muito valiosas e colecionáveis pelos seus dedicados amigos e fãs da sua obra. Tem sido premiado por diversas ocasiões. Contudo, recebeu das mãos de Marcelo Rebelo de Sousa, a Medalha com o grau de Oficial da Ordem do Mérito, no Palácio de Belém, afinal a sua mais elevada distinção. No presente tem uma exposição patente na Galeria do 11, em Setúbal, até ao próximo dia 11 de abril e que o nosso site recomenda vivamente a visita.

Joaquim Gouveia – Aos quatro anos de idade pintou o seu primeiro quadro, uma chávena, e aos oito descobriu que a cor daria vida à suas obras. Como entende esta incrível e quase inexplicável aptidão: veio do ventre da mãe ou começou a sentir inspiração nessa tenra idade?
Rogério Chora – Na instrução primária, tive logo o interesse e vocação para o desenho. Um dos principais foi essa chávena, que foi motivo de admiração pela professora. Tinha uns 6 anos. Nessa altura, fazia muitos “bonecos”, tais como representação de batalhas, entre outros. E, a partir daí, comecei a fazer os meus desenhos à vista, como garrafas, copos...
Joaquim Gouveia - A vida acabou por se encarregar de lhe trazer perfeição à sua arte de pintor, entretanto, bastante contrariada pelos seus pais. Foi a grande paixão pela pintura que o levou a não valorizar esse desentendimento familiar? O querer foi mais forte que o quebrar…
Rogério Chora – Na Escola Técnica (Escola Industrial e Comercial de Setúbal), já fazia desenhos com uma certa perfeição. Então, a professora, a arquitecta Eduarda Vinhas, sugeriu que eu seguisse pintura. Mas o meu pai entendeu que os artistas morriam de fome... No entanto, quando houve a passagem da escola velha para o edifício novo, os alunos apresentaram trabalhos numa exposição no ginásio. Eu apresentei ruas e o retrato da minha avó paterna. Foi aí que os meus pais viram e acharam graça ao retrato da avó. O engenheiro Medeiros, então director da escola, que tinha sido professor do meu pai, convenceu-o a mandar-me estudar pintura para Lisboa. Eu assim fui, a partir do terceiro ano da Escola Técnica. No segundo ano de estudos em Lisboa, passei a ficar alojado em Alvalade.
"SOU NETO DE UM PESCADOR E DE UM TABERNEIRO"

Joaquim Gouveia – A partir desse momento, todos os caminhos se abriram e o Rogério Chora deita mão às oportunidades que lhe vão surgindo. De todas as formas de arte que experimentou enquanto pintor, qual foi a que mais o seduziu?
Rogério Chora – Acontece que, já em Lisboa, nos intervalos, ia pintar ruas típicas (Alfama, Bairro Alto) e, em Setúbal, vendia esses trabalhos por intermédio da arquitecta Eduarda Vinhas, que mostrava os trabalhos a pessoas amigas. Eu fazia uma linha figurativa com desenho “de escola” e gostava muito desse género. Também fazia modelação, mas já com uns 16 ou 17 anos. Gostava muito de modelação, mas esses trabalhos não tinham venda. O que se vendia era a pintura. Na escola, havia várias aulas de diversos cursos (escultura, gravura, gravura para gravadores...). Eu gostava de andar sempre a ver os outros cursos. Isso levou-me à realização da cerâmica, mas também litografia, cartazes, maquetes, logotipos. Foi uma das razões pelas quais fiz carros alegóricos e publicitários para empresas, nomeadamente para António Xavier de Lima, nos anos 70.
Joaquim Gouveia – Mas é em Setúbal que o Rogério Chora, se torna um pintor de eleição, um verdadeiro retratista da cidade e da própria região, deixando para o futuro imagens muito reais de uma cidade que vê crescer desde há oito décadas. É neste modo, tão regionalista, que encontra propósito e inspiração para a sua pintura?
Rogério Chora – Como tenho vivido em Setúbal e gosto muito da minha terra, sou neto de um pescador e de um taberneiro, estou voltado para figuras e paisagens de Setúbal. A Arrábida também é muito querida para mim.
Joaquim Gouveia - De alguma forma sente-se, também, inspirado por outro qualquer pintor anterior a si e que, com a mesma paixão, sentiu na cidade, no seu rio e na sua serra a verdade da sua pintura ou, pelo contrário, acredita que criou um traço muito próprio que lhe pertence e o identifica sem possibilidade de comparação?
Rogério Chora – Gosto dos nossos pintores Luciano dos Santos e João Vaz, que admiro. Mas nós ganhamos um estilo muito nosso e é isso que nos identifica.
Joaquim Gouveia – Até hoje o Rogério Chora foi o único pintor da cidade de Setúbal, a viver da pintura a tempo inteiro, sem mais qualquer outra profissão. Há uma técnica muito própria que terá descoberto para que tal fosse possível. Certamente corre-se algum risco. A determinação gera a concretização?...
Rogério Chora – Tenho feito toda a minha vida na pintura e tenho-me mantido como pintor. E estou muito grato aos setubalenses. As empresas têm-me dado trabalhos de composição, serigrafias e litografias para ofertas a clientes, painéis sobre as empresas, medalhística, cartazes publicitários, etc.. E não só empresas. Por exemplo, sou autor do golfinho feito para a Costa Azul em 1970. E, também, tenho clientes particulares. Tem sido uma vida de trabalho.
"TUDO O QUE ENVOLVE A NOSSA REGIÃO É APAIXONANTE"

Joaquim Gouveia - “A pintura figurativa é o bom para mim”. Esta afirmação é sua e pode-se comprová-la nas exposições que tem realizado. O que existe nessa expressão hiper-realista que o fascina assim tanto?
Rogério Chora - Embora também faça trabalhos estilizados, alguns até mais simplificados, voltei sempre ao realismo figurativo. Identifico-me mais e, além disso, tem a ver com uma aprendizagem de escola artística. Trata-se de desenho e técnica de escola e não de trabalho amador.
Joaquim Gouveia – Este nosso rio azul é infinito para si, na sua pintura, no seu olhar, no amor que lhe tem e como descreve as suas atividades que o caracterizam como dele fosse filho. Há um sentido poético, inspirador que o atrai a pintá-lo com tanta beleza e em contínuo desafio no seu percurso?
Rogério Chora – O rio azul tem sido uma fonte de inspiração, com os seus barcos tradicionais, os pescadores, as gentes. É uma fonte infinita.
Joaquim Gouveia - Depois vem a paisagem urbana de Setúbal, os monumentos, a indústria, a Serra da Arrábida e figuras maiores da literatura e da História local, como Bocage e outras. A sua pintura já constitui, um dos grandes “Atlas” da cidade e da vida setubalense retratada nas suas telas. Sente essa realidade como um objetivo cumprido na sua vida?
Rogério Chora – Tudo o que envolve a nossa região é algo apaixonante. Os monumentos, as ruas, o mar, a serra, assim como as figuras desta terra. É uma das razões que me têm mantido em Setúbal. É por gostar! Até certo ponto, sinto que cumpri a missão, mas estou sempre a pintar, sem pressa dar as coisas por concluídas. Há que gostar daquilo que fazemos e isso não tem propriamente um fim.
"ESTOU MUITO GRATO ÀS PESSOAS PELO CARINHO E GOSTAREM DO MEU TRABALHO"

Joaquim Gouveia – O Rogério Chora, tem obras espalhadas nos vários cantos do mundo, tem sido galardoado em diversos momentos e recebeu, em janeiro de 2024, a Medalha com o grau de Oficial da Ordem do Mérito, das mãos do ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no Palácio de Belém. Acredita que é, hoje, um artista devidamente reconhecido?
Rogério Chora – Até certo ponto, sim. Estou muito grato às pessoas pelo carinho e por gostarem dos meus trabalhos. Mas tem de se trabalhar muito para se obter o reconhecimento. E é isso que faço.
Joaquim Gouveia – Daqui a alguns anos, como gostaria de ser recordado nesta que é a sua cidade, onde se manterão os maiores valores da sua pintura na totalidade?
Rogério Chora – Continuarei a trabalhar até poder. Trabalho todos os dias. E gosto do que faço. Gosto muito dos trabalhos de composição, procurando o equilíbrio. Isso é uma técnica aprendida na escola de pintura. Gostaria de ser lembrado como o artista da cidade, porque sou muito feliz por ter nascido em Setúbal!

Sou apaixonada pelos trabalhos de Rogério Chora, pessoa que admiro e estimo muito. Não consegui estar presente na inauguração desta sua mais recente exposição, mas tenho feito questão de a divulgar e irei visitá-la dentro de dias.