Grande entrevista
- joaquimgouveia06
- 27 de fev.
- 10 min de leitura
Joel Carvalho, o jovem que quer estar em cima das "tábuas"
“O MAIS IMPORTANTE É SABERMOS QUE NÃO CAMINHAMOS SÓZINHOS”

Joel Carvalho é um jovem que atravessa, neste momento, a fronteira que divide a promessa, da certeza. Pelo vasto percurso e número de realizações no âmbito das suas qualidades como ator, cantor e escritor percebe-se que a promessa vincou e a certeza aí está para continuar caminho, porque enquanto houver caminho para andar… Assim é Joel Carvalho, setubalense, filho de gente humilde e generosa, conquistador de amizades fáceis, simples no trato e, notoriamente, guerreiro nos ideais. Quando se olha para o seu “Relatório de Atividades”, percebe-se a dimensão da sua força interior, qualidade artística e objetivos futuros bem definidos. Este jovem quer estar no palco, ou tábuas, como tanto gosta de dizer, quer escrever, quer cantar e, o mais importante, realizar os seus sonhos e ser feliz. Escreveu um livro dedicado à avó Jesuína Rocha, que tanto amou e que, um ao dia saber da sua partida, compreendeu que a sua avó “ganhou asas”…
Joaquim Gouveia – “A minha avó ganhou asas”, é o título do teu primeiro livro, dedicado à tua avó materna com quem tiveste uma relação de enorme amor e carinho. É uma história que pretende explicar e, sobretudo, aliviar a carga que a partida de um familiar, neste caso uma avó, provoca no coração de uma criança quando é surpreendida com tão trágica notícia. A história contada na primeira pessoa, torna-se um elogio ao amor, à dedicação e deixa perceber que a saudade sugere uma nova estrela no céu do nosso encantamento. Sentiste-te crescer nesse momento?
Joel Carvalho - Sem dúvida. Quando a minha avó partiu, despertou em mim também sentimentos novos, até então, a vida era feita de presenças seguras. Nesse momento, percebi, talvez pela primeira vez, o que era a ausência. Foi nesse processo que nasceu este olhar mais sensível sobre a saudade, não como um vazio, mas como uma transformação. Senti que cresci, sim, mas cresci a aprender que quem amamos não desaparece. Apenas muda de lugar dentro de nós. E às vezes, quando olhamos para o céu, percebemos que o amor continua a brilhar, só que de outra forma.
JG – Sendo um livro infanto-juvenil recomendas a sua leitura a partir do momento em que uma avó ganha as tais asas que simbolizas no momento da partida, ou antes desse acontecimento na esperança e compreensão de que as asas a transportarão para os mais bonitos momentos das suas memórias na comunhão de um tempo feliz?
JC - Gostava que este livro pudesse chegar às mãos de uma criança antes do momento em que uma avó ganha essas asas e parte para outra dimensão. Quando alguém que amamos, parte para além do nosso olhar, o coração fica cheio de perguntas e, às vezes, por mais que se tentem arranjar palavras certas os pais têm sempre a missão complicada de tentar transmitir e ajudar os mais pequeninos a compreender a situação. Espero, sinceramente, que este livro possa ajudar os pequenos e graúdos a entenderem que o amor é a chave para tudo. Espero, mesmo, que ao lerem este livro possam ver que não fala apenas da partida, fala do amor que fica, das memórias que nos abraçam e dessa ideia doce de que as asas não são só fim... são também continuidade. Por isso, mais do que um livro para depois da ausência, sinto que é um livro para enquanto há presença. Para que, quando chegar o silêncio, inevitável na vida, ele não seja apenas dor, mas também memória e ternura.
"Apaixonei-me pelas “tábuas” quando ía às revistas do Parque Mayer com a minha avó e tinha desde muito pequeno a vontade de viver mil e uma vidas

JG - Tendo sido tão importante para ti dedicares esta homenagem à tua avó Jesuína Rocha, que lhe dirias hoje se te fosse possível enviar-lhe um recado?
JC - Acima de tudo, abraçava-a muito forte. Quanto ao resto nós falamos muito à noite. Quando todos adormecem, ela está nas minhas orações antes de dormir, mas talvez, certamente, diria que este livro não é uma despedida, é uma continuação, uma forma de a manter viva nas histórias, nas palavras, no coração de quem o lê. “Avó, continuo aqui. E levo-te comigo.”
JG – Para além da escrita decidiste afirmar-te como um homem das artes e da cultura, quando em 2013, deste entrada na Companhia de Teatro de Setúbal, iniciando uma carreira gerida pela mão de Bruno Frazão e que te levou a trilhar um percurso que é muito vasto e rico em termos de currículo. Como surgiu essa vontade de subir aos palcos?
JC - Desde pequeno que tenho paixão pelas artes, ficava horas a ver os desenhos animados com a minha mãe e juntos tínhamos a missão de descobrir quem estava por detrás da voz daquela personagem. Depois, ao ver as novelas à noite, ia descobrindo algumas vozes. O bichinho do teatro ficou sempre em mim, sobretudo, também com as minhas idas com a minha avó ao Parque Mayer, em excursões para assistir às revistas. Apaixonei-me pelas “tábuas” e tinha desde muito pequeno a vontade de viver mil e uma vidas, ter novas experiências, viver ao máximo.
"A revista é o gênero mais completo e foi sempre isso que me fascinou"

JG – Fizeste parte do elenco do espetáculo de homenagem ao antigo travesti Belle Dominique, idealizado pelo Bruno Frazão. Domingos Machado (Belle Dominique), esteve presente e assistiu ao espetáculo. Foi, certamente, uma experiência diferente. Como sentiste a carga emocional do momento?
JC - Foi uma experiência muito gratificante. Não estávamos apenas a fazer um simples espetáculo, estávamos a recriar e a recontar uma vida inteira, estávamos, acima de tudo, a fazer uma homenagem em vida a alguém que estava sempre na plateia a aplaudir-nos e a ajudar-nos a recriar e a representar a sua Belle, que naquele instante, também era tão nossa. A experiência de fazer a própria Belle, em jovem, trouxe aqui uma outra carga, outro peso e acima de tudo uma maior responsabilidade, pois queríamos homenagear o melhor possível, com a maior coerência e rigor. Foi um daqueles momentos em que o palco deixa de ser um lugar de ficção e passa a ser um espaço de verdade.
JG – Com o avanço natural da carreira, quer em aprendizagem, como na experiência da representação, foste desbravando novos caminhos e oportunidades que te levaram até Lisboa, onde fizeste parte de várias companhias de teatro. A Revista à Portuguesa e comédia musical passam a fazer parte da tua atividade de ator. Algum dia sonhaste com o Parque Mayer?...
JC - O Parque Mayer, sempre foi, para mim, mais do que um simples sítio, era um parque de sonhos, um símbolo da cultura, da verdade e o adro da magia . Um parque repleto de gargalhadas, brilho, irreverência e muita magia. A revista é o gênero mais completo e foi sempre isso que me fascinou. O ritmo estonteante de adrenalina e a forma em que durante aquele musical todo o elenco faz de tudo para que o público não pense em mais nada até ao fim, foi sempre algo fascinante. Chegar a Lisboa e mergulhar na revista e na comédia musical foi, de certa forma, aproximar-me desse imaginário que tantas vezes me acendeu o coração. Porque o Parque Mayer representa uma herança viva, um lugar onde o teatro popular encontra a poesia do quotidiano. Como referência tenho sempre os maiores nomes como Laura Alves, que dedicou uma vida inteira aos palcos e deu tudo de si e o que tinha para os manter vivos. Ivone Silva, um grande nome do teatro português e uma personalidade que se tornou uma referência intemporal. Não sei que voltas a vida dará, mas um dia gostava de pisar aquelas “tábuas” tão fascinantes e inspiradoras para mim.
JG – Entretanto já marcaste, também, presença nalgumas séries televisivas e telenovelas. Há deslumbre, ou o vibrante ritmo de gravações não permite, sequer, entrar na euforia do momento? Como foi o teu desempenho e o valor dessa experiência?
JC- A nível das participações, só tive pequenas, nada assim muito grande que me pudesse fazer apaixonar pela televisão. As melhores que já vivi, foi no Inspector Max e na série “Onde fui além do que sou”. Mas, sinceramente, fui muito, muito feliz. Um dia, quem sabe, gostava de fazer um papel de vilão, um papel que me desafiasse e fizesse com que eu pudesse explorar as minhas capacidades de ator. Talvez aí conseguisse perceber bem a magia que as camaras escondem e a adrenalina do ritmo estonteante das gravações.
"As minhas canções nascem desse lugar muito íntimo de vivências, de silêncios, de perguntas que nem sempre têm resposta..."

JG –Depois há marchas populares, autorias de letras e textos e, muito particularmente, uma carreira musical onde os singles “Diz-me”, “Perderei todas as palavras”, “Vem para me salvar” e “Por isso te digo”, já com alguns milhares de visualizações e comentários muito elogiosos no Youtube, sugerem a espera de um álbum completo. Fala-me das autorias e produtores das músicas e dos vídeos e se pensas, realmente, em editar esse álbum tão referenciado e pedido pelos teus fãs...
JC – A escrita sempre foi o meu ponto de partida, a minha verdade, o eco das palavras que guardo. Há uma necessidade quase vital de transformar emoção em palavras. As minhas canções nascem desse lugar muito íntimo de vivências, de silêncios, de perguntas que nem sempre têm resposta e guardo acima de tudo comigo a felicidade de cruzar o meu caminho com o Artur Jordão, que compreendeu desde cedo essa identidade e ajudou a dar corpo sonoro e visual às canções, sendo o responsável pela maior parte dos meus temas no que compete às suas composições musicais. Tanto na produção musical como nos vídeos, houve sempre a preocupação de respeitar a verdade daquilo que estava a ser dito. Quanto ao álbum, sim, é um desejo real. Sinto que estas canções são capítulos de uma história maior que ainda está por contar. E o carinho das pessoas, os comentários, a forma como se apropriam das músicas, faz-me sentir que esse caminho não deve ficar por aqui. Um álbum será, quando acontecer, não apenas uma reunião de temas, mas uma narrativa, um lugar onde todas estas emoções possam finalmente respirar em conjunto e conter a alma de quem as possa ouvir e sentir .
JG -Perante tanta versatilidade que poderemos esperar de ti num futuro breve, o autor, o ator ou o cantor? E que palavras achas que podes deixar a este povo teu conterrâneo, que tanto tetem aplaudido numa cidade como a nossa cheia de talento?
JC - No futuro espero continuar a ser tudo isso com fidelidade àquilo que sou. Há histórias que pedem palco, outras que pedem música, outras que nascem primeiro em silêncio e só depois encontram forma. A todos os que gostam do meu trabalho, quer a nível musical ou teatral, só posso deixar gratidão. Porque é esse aplauso que não vem apenas do espetáculo, mas do reconhecimento, que nos dá coragem para continuar. Numa cidade cheia de talento, o mais bonito é sabermos que não caminhamos sozinhos. Levo comigo cada olhar, cada palavra, cada gesto de apoio. E tudo o que vier a seguir terá sempre um pouco de vocês. Mas certamente, aguardem em breve, novas músicas, livros e quem sabe, peças de teatro. Tenho muitas saudades de representar.
“O JOEL É UM CRIADOR EM AFIRMAÇÃO”
Bruno Frazão, conhecido homem da cultura setubalense e atual autrarca, é referenciado por Joel Carvalho, como a primeira mão que sentiu a puxar pela condição que já emergia e se fazia notar como rapaz de talento para as artes, ensinando-lhe os primeiros passos que, no fundo, acabariam por ser decisivos neste tão desejado, como conseguido percurso que nos vai surpreendendo em qualidade e performance. Pedimos ao Bruno Frazão, que destacasse as qualidades que viu serem próprias de um jovem com caminho para fazer e como o soube orientar e lhe abrir caminho.

Há amizades que se constroem no tempo e outras que se constroem em palco. A minha com o Joel Carvalho tem um pouco das duas.
Foi comigo que o Joel deu os primeiros passos no teatro, um momento que guardo com especial carinho. Desde cedo percebi nele uma sensibilidade artística muito própria e uma vontade genuína de crescer. Por isso mesmo, desafiei-o a ir mais longe: a construir textos, a escrever letras, a encontrar a sua própria voz criativa. E o Joel respondeu sempre com entrega, inteligência e identidade.
Partilhámos momentos muito marcantes, entre os quais o nosso grande papel em palco em Belle Dominique, onde ficou bem evidente a sua maturidade artística e a sua enorme capacidade de habitar cada personagem com verdade.
Hoje, ao assinalar o lançamento do seu novo livro, A minha avó ganhou asas, sinto um orgulho muito especial no percurso que tem vindo a trilhar. Há neste trabalho sensibilidade, humanidade e um potencial muito promissor ao serviço da nossa cultura.
O Joel Carvalho é uma pessoa criadora em afirmação, com caminho próprio e com muito ainda para dar. E eu fico verdadeiramente satisfeito por ter feito parte do seu arranque artístico.
Muito obrigado por continuares a criar, Joel. A cultura ganha contigo.
“O RESPEITO PELA SENSIBILIDADE INFANTIL”
Paula OZ, diretora das Edições OZ, responsável pelo lançamento do primeiro livro do Joel Carvalho, teceu considerações sobre a obra e o autor a nosso pedido, até para que a confirmação de um valor emergente, como é o caso, também mereça a consideração de quem o conhece e o oube acompanhar nesta sua primeira e significativa obra literária.
"A Minha Avó Ganhou Asas" é uma narrativa infantil que aborda o luto na infância com sensibilidade, delicadeza simbólica e clareza emocional.
Desde o início, a obra constrói a imagem da avó como figura de proteção e referência afetiva, verdadeiro porto seguro na vida da criança. Através de pequenos rituais quotidianos, como a espera à janela depois da escola, o lanche preparado com carinho e as histórias partilhadas ao final do dia, o autor cria uma atmosfera de intimidade que facilita a identificação do jovem leitor. A progressão narrativa é gradual e cuidada. Surgem sinais de fragilidade que preparam emocionalmente a criança para a ausência. A morte é apresentada de forma simbólica: a avó parte “em viagem” e transforma-se numa estrela. Esta metáfora permite abordar o tema com respeito pela sensibilidade infantil, sem dramatização excessiva. A frase central da obra — “Aqueles que amamos, ficam sempre connosco” — sintetiza a mensagem essencial: a permanência afectiva para além da ausência física. O reencontro em sonho reforça essa continuidade emocional, conduzindo a um desfecho sereno, onde a memória assume lugar de consolo e presença. Do ponto de vista literário, destaca-se a simplicidade intencional da linguagem, a coerência narrativa e o equilíbrio entre texto e ilustração.
Sobre o Autor
Joel Carvalho estreia-se na literatura infantil com uma escrita marcada pela autenticidade emocional e pela valorização dos laços familiares. A motivação íntima subjacente à obra confere-lhe verdade e densidade afectiva. Revela sensibilidade na abordagem de temas complexos e capacidade de os traduzir para o universo infantil com naturalidade e respeito. A sua voz literária privilegia o afecto, a memória e a transmissão intergeracional de valores. Para além disso devo mencionar – o mais importante – a sua alma, o seu coração puro e a sua sensibilidade em relação ao mundo que o rodeia.

Que entrevista fantástica! É um enorme orgulho ver jovens talentos de Setúbal, como o Joel Carvalho, a brilharem em tantas frentes – na escrita, no teatro e na música. Um percurso construído com muita humildade, paixão pelas 'tábuas' e trabalho. Muitos parabéns ao Joaquim Gouveia por dar palco a quem tanto merece. Que venha esse álbum e o regresso ao teatro!