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Grande Entrevista (2)

  • Foto do escritor: joaquimgouveia06
    joaquimgouveia06
  • há 6 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Paulo Guerreiro (artesão em reciclagem de madeiras)


“VEJO A ARTE COMO UM CANAL

DE COMUNICAÇÃO UNIVERSAL”


 

Paulo Guerreiro é um artista que encontra na arte da reciclagem de madeiras, um motivo para dar expressão à sua criatividade que diz “fazer parte de um canal de comunicação universal”. Para si a questão da reciclagem parte da mentalidade que cada um desenvolve no que concerne à visão de voltar a dar significado e utilidade a materiais cujo destino está traçado no lixo onde, regra geral, são depositados e, irremediavelmente, destruídos. Ainda não se autodefiniu como artista na caminhada que vem percorrendo recebendo elogios como artesão, artista plástico ou pintor. Mas pelos vistos isso não é algo que o incomode nem lhe retire o entusiasmo pela criação de novas peças que, no seu entender, “são um testemunho gritante da sua existência anterior e que por uma questão de dignidade, não se podem nem devem perder”. Tem uma exposição das suas obras patentes na antiga Escola Conde de Ferreira, em Setúbal, até ao próximo dia 7 de abril. A visita recomenda-se vivamente!


Joaquim Gouveia – Você considera-se um criativo que constrói a partir de uma necessidade constante de inventar. Pintura, desenho, escultura são aptidões que reconhece como talento natural. Contudo o que cria, o que inventa não surge sem sentido, sem simbolismo, sem contribuir para um pensamento sobre cada peça que nos apresenta. Há mensagem latente na sua criação. Isso sugere preocupação de que a arte é, também. construtora de um futuro mais próspero?

Paulo Guerreiro – Fico particularmente agradado com esse raciocínio Joaquim. Eu vejo a arte como um canal de comunicação universal, ela é na sua essência, a partilha de visões / ideias, que atuam, onde por vezes as palavras falham. É uma ponte que se estende entre passado, presente e futuro e, naturalmente, nestes tempos que correm, onde tudo é descartado, existe a preocupação na prosperidade das gerações futuras.  A Arte pode ser uma poderosa construtora de identidade, se assim for, o futuro promete…

Joaquim Gouveia - Descobrir em si este sentido artístico que nos surpreende pela perfeição e, muitas vezes, pela forma como idealiza a sua arte, foi um processo que lhe trouxe o entendimento das coisas, sobretudo na mais-valia da reciclagem como poderosa ferramenta para repensar o futuro do planeta? Sente-se, de alguma forma, um artesão embaixador da arte da reciclagem?

Paulo Guerreiro – Não me revejo nesse papel Joaquim, até porque, muitos outro Artistas vieram antes de mim e fazem desse tema, o seu lema de vida. Relembro ao Joaquim, que não tenho qualquer tipo de formação em artes ou ofícios. Apenas vejo-me como um homem, que despertou uma consciência artística com base no inconformismo, de ver tantas madeiras descartadas no lixo, só porque perderam a sua função utilitária inicial.

Acredito, firmemente, em segundas oportunidades para esses materiais, e já agora, aqui entre nós, que ninguém nos ouve, gosto de pensar que o mesmo princípio poder-se-ia aplicar às pessoas. Repensar o futuro do nosso planeta, deveria ser um exercício mental que o ser humano, poderia fazer de tempos a tempos. Não me refiro a um exercício de caridade para com o planeta Terra, mas sim de um exercício de autopreservação da nossa espécie.    

Joaquim Gouveia – "Sustentabilidade é a sombra da criação!". ou “Não me conformo com o desperdício”, são frases suas. Em que fase da sua vida elas surgiram e o convenceram a mostrar-nos que o contrário do desperdício, é o bem do consumo equilibrado e responsável?

Paulo Guerreiro – Não consigo evidenciar uma data precisa, porém tenho noção que desde muito cedo, achei errado ver a presença de madeiras (portas, móveis, etc…), jogados no lixo, provavelmente porque via o seu potencial oculto. Essas frases que referiu, surgiram em momentos distintos, mas convergentes, foram momentos de reflexão, onde percebi que há uma falha lógica na nossa evolução.  Uma das mensagens que gostaria de deixar  é que existe Valor no desperdício, apenas temos que olhar com outros olhos para as coisas e dar o leme à imaginação!


"O QUE SEPARA O LIXO REAL DA RECICLAGEM É A MENTALIDADE (...)"



Joaquim Gouveia – A madeira é o seu material preferido para criar novas peças,  a partir de gavetas velhas, alçados de cama, mesas partidas, etc., como referiu.Diz, com propriedade, que "o lixo de uns é o tesouro de outros". No fundo, para si, o que separa o lixo real da reciclagem possível?

Paulo Guerreiro – A madeira, ao contrário do vidro, do plástico, do metal, etc., é um elemento orgânico. Outrora um ente biológico e tendo sido um organismo vivo, ela guarda uma memória, através dos seus veios, do seu cerne, com padrões únicos e intrínsecos. São um testemunho gritante da sua existência e que por uma questão de dignidade, não se podem nem devem perder. Em boa verdade e respondendo diretamente à sua questão, o que separa o lixo real da reciclagem possível é, acima de tudo, a mentalidade de quem se recusa a ver um fim e define um novo começo.

Joaquim Gouveia – Mostrar à cidade a sua obra é dar-se a conhecer não só como o “artesão da reciclagem”, mas, também, o construtor das obras que, para si, têm vida através da explicação que nos oferece de cada uma delas, ou seja, cada peça é pensada com determinado simbolismo. Como tem sentido a reação dos visitantes?

Paulo Guerreiro – Artesão da reciclagem!?... Penso que ainda não me defini, nesta minha caminhada. Já me chamaram de escultor, outros de artesão, também já ouvi artista plástico ou pintor. Na verdade, nem sei o que sou. Provavelmente ainda estou em metamorfose nas minhas aspirações a Artista. Mais importante que o simbolismo patente nas minhas peças, é a história que elas contam. Gosto particularmente de falar sobre o antes e depois, de como era e como ficou. Nesta partilha, espero passar uma mensagem ao visitante, que na vida destes materiais o mais importante não é como se começa, mas sim como se acaba e durante todo este percurso, agradecer o reconhecimento, as emoções, o respeito ou até mesmo a crítica, que eles me dão. E já que estamos numa de agradecer, aproveito também desde já ao Joaquim, por esta oportunidade de partilha em forma de diálogo. 


"O MEU FORMÃO NÃO TALHA APENAS MADEIRA, ELE TAMBÉM GRAVA SIGNIFICADO"


    

Joaquim Gouveia – Ao ler os textos sobre cada uma das peças que cria, nota-se poesia nas palavras, nos simbolismos que nos oferece, nas mensagens. Sente que é uma arte, também, apoiada na sua forma poética e imagética de olhar a vida e o mundo?

Paulo Guerreiro - Um redondo sim!  Quando estou em processo de criação ou transformação de uma peça, deixo a imaginação fluir e muitas vezes fico completamente absorvido por uma “narrativa do faz de conta”. Uma mão invisível, que conduz do impossível ao possível, do ilusório ao real, um convite à reflexão do parecer ao ser e por vezes, fico muito surpreendido com o resultado final. Quando uma determinada peça, ganha uma nova forma, um novo propósito, é acompanhada de uma memória descritiva, para que todos possam apreciar o seu renascimento. O meu formão não talha apenas madeira, ele também grava significado.  

Joaquim Gouveia – Porque tardam os nossos políticos em exercício em cargos governativos ou municipais, em entenderem que a reciclagem pode, na verdade, criar riqueza artística, postos de trabalho e equilíbrios na sustentabilidade do país, das regiões e, mais propriamente, na defesa do meio ambiente?

Paulo Guerreiro - Certa vez, li uma frase de Edmund Burke, a qual gosto bastante e cito: "Para que o mal triunfe, basta que os bons Homens nada façam". Metaforicamente falando, esta frase encerra em si, todos os males da sociedade. Bem sei, que a gestão pública dos recursos é um tema critico e o mundo atualmente vive uma política de consumo / descarte rápido e é difícil explicar às pessoas, que uma peça de arte, vinda do desperdício, tem mais valor artístico, mais história e carrega mais simbolismo, que peças convencionais produzidas em massa.  Acredito que quem governa, vê o lixo como um problema logístico / financeiro, eu simplesmente o interpreto como uma jazida de matéria prima à espera de ser descoberta.  Mas estou esperançoso e acredito que já existe uma consciência dos problemas ambientais, em cada um de nós, apenas temos que trabalhar coletivamente e colocar em prática, medidas de sustentabilidade duradoras. 

Joaquim Gouveia – Para concluirmos a nossa conversa é importante que lhe dê um elogio por algo que nos transmite e que nos deverá deixar, sempre por sempre, mais admiradores desta sua tão enorme “viagem” pela criação artística. “A ideia de deitar fora um material tão precioso, que outrora foi uma árvore viva, é-me inconcebível”. É assim que se define, um ambientalista reconstrutor?

Paulo Guerreiro - Obrigado pelo elogio Joaquim. Como já referi antes, artisticamente falando, ainda não me defini sobre quem sou, mas mais importante que o rótulo é a missão. Se através do meu trabalho manual e destas peças, eu conseguir inspirar as pessoas a olhar para as madeiras que têm em suas casas, com mais respeito, humildade e menos pressa de descartar, já fico muito contente. Se a árvore foi sacrificada para se tornar num objeto, o mínimo que o ser humano pode fazer, é garantir que esse sacrifício não tenha sido em vão. A “viagem” que refere, faz mais sentido se for partilhada. Obrigado pelo seu interesse e dedicação Joaquim, foi um privilégio!



 

 

 
 
 

1 comentário


Dina Barco
Dina Barco
há 5 dias

Interessantíssimo! Não vou perder a exposição!


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