Grande Entrevista XetubalSite
- Joaquim Gouveia

- 9 de abr.
- 7 min de leitura
Miguel Assis, o ator improvável que bateu à porta do "Pai Natal"...
"CONTINUAR A OBRA DO CARLOS CÉSAR
ERA UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA E DE RESPEITO"

Um artista não constrói apenas a sua arte, não se limita aos gestos, aos traços, às personagens e ao aplauso como objetivo final. O artista é mais que tudo isso, ou pode ser, se assim o entender. Miguel Assis é um artista de mão cheia e isto quer dizer que nada na sua vida lhe passa ao lado. Não se limita aos palcos, aos textos, às performances, às luzes, enfim, ao refúgio e espaço onde espraia a sua arte. O Miguel vai para além disso. Desde há muito, soube saltar esse muro e hoje, sendo figura de destaque e necessária ao Teatro de Animação de Setúbal é, de forma igual, um de nós, como todos nós. É cidadão da nossa imensa comunidade, faz parte do pulsar citadino que, em tempos, acreditou não ser interessante, quando morava na Amora (sua terra natal) e estudava em Lisboa. Mas os avós eram setubalenses e isso acabou por ser determinante na sua vida e na sua carreira de ator e de todas as frentes que agarra de frente. Tem a ideia de como os politicos, enquanto governantes, olham para as artes e os artistas que afirma serem, afinal, os grandes heróis do país. Valeu-lhe, ainda, o facto de conhecer Carlos César, quando bateu à porta do TAS.
Joaquim Gouveia - Aos 19 anos chegas a Setúbal, de armas e bagagens depois de uma vida na freguesia de Amora, Seixal. É o apelo da vida na grande cidade que te fascina, onde a possibilidade de construíres um futuro mais sólido poder acontecer de forma mais rápida e sustentada?
Miguel Assis – Não, foi um acaso. Até porque aos meus olhos, Setúbal, não era exatamente uma grande cidade. Eu vivia na Amora, estudava, na altura, em Lisboa. Para ser sincero, aos olhos daquele rapaz de 19 anos, Setúbal tinha uma década de atraso relativamente ao que se usava ou ao que se dançava, por exemplo. Os meus avós moravam em Setúbal e eu vinha visitá-los em férias e foi numa dessas visitas que passei pelo Luísa Todi e tive o impulso de entrar, pedir para falar com o responsável e oferecer a minha pouca experiência e a minha muita vontade. Nunca tive o calculismo necessário para pensar as coisas de forma tão pragmática, apesar de não me arrepender do meu percurso, penso que se tivesse essa frieza de cálculo teria rumado a norte e não a sul.
Joaquim Gouveia - Um dia bates à porta do Teatro de Animação de Setúbal. Na altura sentias uma vontade de subir aos palcos como ator de teatro? O “porteiro” é o próprio Carlos César. Foi como chegar à Lapónia e dar de caras com o Pai Natal?...
Miguel Assis – Foi mais ou menos assim. Embora eu tenha sempre ficado com a ideia de que ele nem olhou para mim. Deu-me um texto para decorar e mandou-me voltar na semana seguinte. Assim fiz, mas no dia combinado ele não estava. O Carlos Curto, que na altura estava a trabalhar com os estagiários, disse-me para ficar e ir aparecendo nos ensaios, que o Carlos César decidiria o que fazer comigo, quando voltasse de viagem. Costumo dizer, a brincar, que fui ficando porque se esqueceram de mim.
Joaquim Gouveia - No TAS, abriste as portas da tua carreira que continua ligada a esta companhia setubalense. Aquando do inesperado falecimento de Carlos César, foi comentada a vossa “orfandade”, capaz de colocar em causa a própria sobrevivência da companhia. Há um pulso forte que vos une e permite continuar o ideal de Carlos César…
Miguel Assis – Na altura, as companhias de teatro eram muito centradas numa só pessoa. Tal como o Bando, tinha o João Brites, o Teatro Experimental de Cascais, tinha o Carlos Avilez, o Teatro Animação de Setúbal tinha o Carlos César. Cada um deles era a figura central das respetivas companhias, uma presença que balançava entre o pai e o senhor feudal. A morte prematura do Carlos César, deixou-nos numa posição fragilizada, nenhum de nós estava preparado para dirigir uma companhia, atrevo-me até a dizer que nenhum de nós o desejava. Continuar a sua obra era uma questão de justiça e de respeito, até porque, na altura, cada um de nós sentia uma dívida de gratidão para com aquele homem que nos ensinou quase tudo o que sabíamos acerca do ofício.
"Os conteúdos de cidadania têm sido distorcidos de forma absolutamente disparatada e inconsequente"

Miguel Assis, com Carlos César, Sónia Martins e Fernando Guerreiro (todos já falecidos), nos seus tempos iniciais no TAS
Joaquim Gouveia - No teatro desenvolveste ao longo de tão meritório e aplaudido percurso, as suas principais nuances como ator, encenador, autor e dramaturgo. Percebe-se a enorme satisfação com que te entregas a causa tão distinta para ti e importante para todos. Quase parafraseando o poeta, posso entender pela tua afirmação na vida e na carreira que pela “construção dos ideais é que vamos”?
Miguel Assis – Volto ao Carlos César, para responder a esta pergunta, pois foi quem me permitiu, pela primeira vez, encenar um espetáculo. Permitiu que eu escolhesse o texto, o elenco e deu carta branca para se cumprir as minhas necessidades para a montagem do espetáculo. A partir daí, poucas vezes encenei um espetáculo ou dirigi um elenco que não escolhesse ou desejasse. Tenho trabalhado, nos vários coletivos onde passo, textos que desejo visitar, formas que desejo experimentar e tenho sido razoavelmente feliz com os resultados.
Joaquim Gouveia – Fazer televisão ou cinema não tem fascínio para ti?...
Miguel Assis - Não. Fiz uma longa metragem, algumas curtas e faço, pontualmente, pequenas participações em novelas, mas não é uma linguagem, um ritmo ou uma forma que me agradem. Penso que é o medo. O medo do que é diferente, o medo do que desconhecemos, do que não dominamos, do que não entendemos. O conservadorismo bacoco também dá uma ajuda para que os retrocessos sejam hoje uma realidade. Mas vem tudo da mesma raiz. A raiz do medo.
Joaquim Gouveia - As artes foram sempre um local de muita oportunidade, assunção, encontro e discussão sobre o tema Identidade de Género, que nos dias de hoje provoca acesa polémica no país. Afinal é o conservadorismo, o egoísmo, a hipocrisia, ou, essencialmente, a falta de informação que estão subjacentes a alguma rejeição desta realidade?
Miguel Assis - Os conteúdos de cidadania têm sido distorcidos de forma absolutamente disparatada e inconsequente. Tornaram-se armas de arremesso entre forças políticas e caricaturados ao serviço de ideologias. Olhando neste momento para uma qualquer sessão no parlamento, chego à conclusão que todo aquele elenco necessita urgentemente de aulas de cidadania…
Joaquim Gouveia- Essas própriaa Aulas de Cidadania, têm sido alvo de discussão na sociedade, chegando a parecer extremamente incómodas não só para conservadores, mas, igualmente, para muitos progressistas. Consideras que já estamos preparados para a abordagem mais correta deste e outros temas que são hoje propostos nos programas de educação da criança e do adolescente?...
Miguel Assis - É muitas vezes frustrante tentar criar em Portugal. Os artistas do meu país são os verdadeiros heróis. Nem me incluo, exatamente, porque pertencendo a uma companhia sou, de certa forma, privilegiado. A época do COVID e dos confinamentos, para mim, é o retrato de como a arte neste país é tratada. Enquanto a maior parte dos artistas passava por grandes dificuldades, era o seu trabalho que permitia à maior parte das pessoas manter a sanidade e o contacto com o exterior. Se na altura inventamos formas de levar o nosso trabalho ao público através de streamings e de reels, sendo aplaudidos por isso, finda essa época e na prática, na forma de incentivos ou de reconhecimento da parte de quem detém o poder, resultou em nada. Lembra-me a célebre canção de Chico Buarque, “Geni e o Zepelim”:
"Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni!
(...)
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!"
"O meu irmão é muito mais capaz do que eu, é um empreendedor, acima de tudo!"

Em "Menina Júlia", a performance indelével de um ator de cartilha inteira
Joaquim Gouveia - No entendimento de um agente da cultura como tu, habituado aos palcos, ao público, aos atores, enfim, a todo o movimento artístico e literário, como se pode ser feliz vivendo da cultura em Portugal? Emigrando?...
Miguel Assis – Na resposta anterior acho que já respondi um pouco a esta. Acrescento apenas a célebre frase do grande António Lobo Antunes, que nos deixou recentemente: "A cultura é uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo".
- Permite-me que fale sobre o teu irmão, o cantor e músico Vasco Fernandes, que é um grande exemplo da afirmação “querer é poder”. Perante a sua deficiência e a forma como tem construído a sua vida, será, certamente, um caso de esperança e de orgulho para todos nós…
Miguel Assis - Em casa, o meu irmão nunca foi deficiente. Nunca o vimos dessa forma. Para ser sincero, quando era criança, achava que os irmãos dos outros é que eram diferentes, porque o normal, para mim, era um irmão com bengalas e aparelhos. Ainda por cima, era eu ainda um miúdo e ele já cantava, era artista. E nenhum dos irmãos dos meus amigos era artista. Na zona onde morávamos, na Amora, ele era uma estrela, todos o conheciam e todos gostavam dele. As eventuais incapacidades, nunca foram um assunto, porque os nossos queridos pais educaram-no de forma a poder ser o que ele quisesse. Talvez tivessem sido um pouco duros na forma como o atiraram para a vida, mas era necessário que assim fosse. O meu irmão é muito mais capaz do que eu, é um empreendedor, acima de tudo. É capaz de se reinventar a qualquer momento, não desiste, não tem pena de si próprio. E se a sua atividade principal, a música, não resultar em algum momento, ele inventa uma outra qualquer. Nunca o verão a pedir esmola ou a mendigar seja o que for. Ele exige, luta e trabalha pelo que quer. É o homem mais forte e capaz que conheço.
Joaquim Gouveia - Para fecharmos esta nossa conversa que te apetece ou te falta dizer?
Miguel Assis - Que te devia esta entrevista há muito tempo e que as respostas foram dadas de rompante, numa tarde chuvosa de primavera, em que uma valente constipação me atirou à cama. Como quase sempre faço na vida, fi-lo sem filtros e dizendo o que o coração foi ditando. Quero ainda agradecer-te por seres um dos que não desiste. Um dos que resiste!


Obrigada, a ambos, por este diálogo partilhado.