Grande entrevista (Alice Brito)
- Joaquim Gouveia

- 20 de mai.
- 7 min de leitura
Alice Brito, escritora setubalense, apresenta amanhã o seu 4ª romance
"A POLÍTICA COME CONNOSCO À MESA"
"Perdeu-se relógio de senhora" é o título do novo romance da escritora e advogada setubalense Alice Brito, que será apresentado por Luis Caetano (jornalista da RTP), amanhã na Biblioteca Municipal de Setúbal, às 18h30. Trata-se da sua quarta obra baseada nos tempo difíceis de um país que viveu largos anos numa tenebrosa ditadura onde as mulheres eram descriminadas e subjugadas à vontade dos homens. O fascismo, a repressão e a guerra colonial, presentes nos seus livros, para além de testemunho real, são contributo necessário, também, para que os descendentes dessa gente que sofreu na pele as barbáries do Estado Novo, possam hoje dar valor à liberdade. É que os dias andam zangados porque o mundo mudou para pior, constata a autora. Nesta entrevista que propus à escritora, figura reconhecida na defesa dos direitos da mulher e de luta pela paz e bem estar social, decidi, por ordem quase cronológica, situar as primeiras questões num tempo de juventude em que era estudante em Lisboa e ganhava consciência de um Portugal, amordaçado, torturado e onde os jovens eram obrigados a embarcar para uma guerra que nunca foi sua. Alice Brito, na primeira pessoa antes de nos reencontrarmos, amanhã, na Biblioteca Municipal de Setúbal, na apresentação da sua nova obra.

Joaquim Gouveia – Os seus livros anteriores apresentam o país onde a condição humana, essencialmente, a mulher, sofre no corpo as marcas da opressão encomendada por Salazar, à PIDE, pelo lápis azul da censura e as prisões dos corpos magoados, sofridos, e sem forças para mostrar alguma resistência. Mas começava a perceber-se que a ditadura quebrava e estalava por todo o lado. A Alice Brito, era nessa altura, uma jovem estudante, mas, pelo que leio, atenta ao desgaste do regime. A juventude dava sinais de muita inquietação. Pressentia que “algo” não demorava para o derrube do regime?...
Alice Brito – Sim, claro. O peso da guerra colonial começava a ser completamente insuportável. Uma geração inteira era mobilizada para a guerra. A pouco e pouco o exército passou a alimentar-se de estudantes, operários, jovens que não se reviam, nem estavam dispostos a continuar a guerra, cuja solução não estava sequer à vista. Havia um cansaço generalizado daquela ditadura, daquele regime que tinha eternizado Portugal, numa situação de pobreza, atraso, analfabetismo…
Joaquim Gouveia – Quando tomou conhecimento da revolução, qual foi a primeira ideia que lhe surgiu, o primeiro pensamento e, depois, a atitude imediata?
Alice Brito – Vivia em Lisboa, nessa altura. Através de uma amiga soube que ia acontecer um golpe. Ninguém sabia se o golpe seria de direita ou de esquerda. Passei a noite de 23 para 24 acordada. Depois, na noite de 24 para 25, fui-me deitar cedo. Andam a brincar connosco, foi o que pensei. Mas às 6 da manhã tocou o telefone. A partir daí foi um sem parar de emoções, alegrias, o experimentar da liberdade.
Joaquim Gouveia – A Alice é de um tempo que lhe permitiu testemunhar, no dia a dia, muito dos conteúdos que os seus livros narram com a verdade que os dias tristes, agrestes, difíceis e sem esperança nasciam, também, para o povo de Setúbal, a sua cidade natal. Hoje transcreve nas suas obras a resistência, a coragem e a “magreza” das pessoas, nomeadamente, das mulheres. Neste momento, para si, o que mais é importante na sua escrita, o testemunho ou o apelo às novas gerações?
Alice Brito – Um romance não é nem um ensaio, nem um panfleto. Mas num romance as coisas sobre as quais se fala têm um contexto. Têm um contexto político e um contexto social, espacial e temporal. As personagens habitam determinado país, num determinado tempo, pertencem a uma classe social, são mulheres e homens com determinados comportamentos. Assim sendo, quando escrevo sobre o séc. XX português, onde normalmente vivem as minhas personagens, é-me impossível não abordar questões como o fascismo, a repressão ou a guerra colonial. Para mim, fazem parte integrante da narrativa. De facto, as personagens, com as suas acções, prestam depoimentos sobre o tempo em que o romance se inscreve. Se isso servir para proteger a memória e ajudá-la a estar entre nós, se servir para que as novas gerações saibam como foi a vida dos seus pais e avós, se essa memória ajudar a que esse tempo terrível que foi vivido não se repita, então o romance pode também ser uma arma contra o esquecimento programado que hoje nos visita.
Já não estamos apenas no plano da mera alfabetização. Trata-se antes de mais de formar cidadãos (...) sobretudo, capazes de ler o mundo, interpretá-lo, agir sobre ele.

Joaquim Gouveia – É filha de professora e, chegou, também, a lecionar já depois de abril. Na comparação da escola dos tempos da sua mãe, ainda sob a mão pesada da ditadura e os seus tempos já em liberdade, como viu a reconversão da política pela iliteracia do Estado Novo, com a entrada dos novos propósitos democráticos e progressistas na educação desde o primeiro ciclo?
Alice Brito - Chegámos ao 25 de Abril, com mais de um quarto da população sem saber ler. Partimos de um ponto muito distante nesta corrida para a literacia. A escola era nas décadas anteriores à revolução um quase luxo. E, normalmente, ensinava o básico: ler, escrever e contar. A escola democrática é uma das conquistas de Abril. É perfeita? Não é. Mas não tem qualquer comparação com a anterior. Hoje pedimos à escola muito mais do que aquilo que ela nos dava antes, sendo certo que nos dava muito pouco. Já não se trata só de saber ler. Há que voar para além disso. Já não estamos apenas no plano da mera alfabetização. Trata-se antes de mais de formar cidadãos. Cidadãos capazes de ler um texto, com certeza, mas, sobretudo, capazes de ler o mundo, interpretá-lo, agir sobre ele.
Joaquim Gouveia – Na sua longa carreira como advogada tem sentido discriminação nos casos onde a mulher está envolvida? Podemos falar de violência doméstica, violação, assédio sexual, despedimento e outros que a Alice Brito, tem como exemplos, possivelmente, muito distantes até do que possamos imaginar, digo eu… Ainda se nota que faltam acrescentar muitas peças ao “puzzle” da verdadeira e consolidada emancipação da mulher no nosso país?
Alice Brito – A luta das mulheres nunca está consolidada. Se pára, anda para trás. Basta ver o que acontece hoje nos Estados Unidos de Trump, com a legalização do aborto. Já há Estados, onde antes era legal, que o ilegalizaram. Aliás a ilegalização está hoje também na mira da extrema-direita em Portugal. Todos os dias os media nos oferecem imagens sobre mulheres livres. As mulheres votam. Vão à escola. Tiram licenciaturas, mestrados, doutoramentos. As mulheres têm, como nos diz a Constituição, os mesmos direitos que os homens. Se olharmos, contudo, para o topo de todas as hierarquias o número de mulheres que aí está é absolutamente diminuto. E enquanto se trocam juras de amor em altares adornados de flores, e as raparigas dos anúncios nos aparecem de cabelos ao vento numa demonstração de liberdades várias, a violência doméstica prossegue implacável; as diferenças salariais continuam sem pejo, nem remorso; o trabalho doméstico continua a ser visto como uma coisa de mulheres. Por isso mesmo, há que dizer que de cada vez que a luta das mulheres vacila, dá tréguas, não fica parada no mesmo sítio. Retrocede. Anda para trás. E, andar para trás, é caminhar em direcção à barbárie e ao desespero.
Quando os pobres dizem mal dos subsídios atribuídos a alguém, que também é pobre, os bancos podem ficar descansados porque ninguém se volta contra eles

Joaquim Gouveia – Nas suas obras, para além da narrativa de tempos pesados e criminosos, existem, quase ao mesmo tempo e no mesmo livro, estórias onde a fraternidade e o amor também se revelam como uma aragem fresca e clara, tal qual, quando se abre uma janela pela manhã. É impossível descrever o sofrimento sem tentar acender, também, uma candeia de amor e esperança que possa aquecer-nos o coração por alguns momentos?
Alice Brito – Acredito profundamente na amizade, solidariedade, fraternidade, na capacidade que o ser humano tem de amar. O individualismo que agora se impõe, tenta também acabar com tudo isso. Cada vez mais a mensagem que é passada é “Deixa os outros. Tu é que interessas”. Na verdade, ninguém diz que sem os outros nada somos. A crueldade está hoje na ordem do dia. Pior que isso, a indiferença perante a crueldade é já de si superlativamente cruel. Olhemos para Trump, Netanyahu, Milei, Putin e tantos outros. Os líderes mundiais são hoje criaturas bárbaras, grosseiras, impiedosas, verdadeiros criminosos.
Joaquim Gouveia – O último livro do saudoso poeta Joaquim Pessoa, tem por título “Os dias não andam satisfeitos”. Na entrevista que tive ocasião de lhe fazer a propósito dessa obra e outros temas, o poeta explicou-me a razão do título apontando para a porta de entrada/saída do restaurante onde nos encontrávamos e pediu-me para ver o que acontecia ali fora. Uma metáfora, claro. A Alice é da mesma opinião, ou seja, os dias não andam satisfeitos ou, pior ainda, estão mesmo zangados?
Alice Brito – Os dias andam zangados, de facto. Contudo, a zanga é hoje direccionada pelos pobres contra os pobres. É isso o populismo. Quando os pobres dizem mal dos subsídios atribuídos a alguém, que também é pobre, os bancos podem ficar descansados porque ninguém se volta contra eles. Quando em vez de se lutar por melhores salários se gasta a energia a vituperar emigrantes, também os patrões podem ficar mais descansados, porque não são o alvo principal. Os dias andam zangados, tristes, sem norte. O mundo mudou, e mudou para pior.
Joaquim Gouveia – O seu livro “As mulheres da Fonte Nova”, está traduzido para alemão e editado, para já, naquele país. Espera-se, com enorme expetativa, que venha a ter lugar de venda ao público em várias livrarias europeias. Posso afirmar que será a cereja no topo de um bolo cuja receita pertence à sua criatividade que, pelos vistos, está a transmitir ao mundo um pedaço de um país que muitos reconhecem ter acordado “na mais bela manhã de qualquer revolução”?
Alice Brito – É muito reconfortante levar “As mulheres da Fonte Nova“, a passear até à Alemanha… Já tinha sido igualmente uma alegria ver o livro “ A noite passada”, traduzido para espanhol.
Joaquim Gouveia – No passado dia 11 do corrente a literatura nacional ganhou mais uma obra sua “Perdeu-se relógio de senhora”. Uma nova narrativa sobre três mulheres cuja previsibilidade de se virem a conhecer era nula. Mas o acaso… De novo o peso da ditadura nos destinos de cada uma e a cidade de Setúbal, uma vez mais como um dos panos de fundo da história. Quem deve encontrar este relógio?...
Alice Brito – Este título não aparece por acaso. É uma senha da clandestinidade. Mas não vou desvendar mais nada. A política não é uma coisa distante, alheia e inacessível. Come connosco à mesa. Somos visados por ela. Diz-nos directamente respeito. Se um país entra em guerra, serão os seus habitantes que nela vão combater. Se os preços aumentam isso vai reflectir-se na nossa vida. Tudo é política. Este livro, e os outros que escrevi, provam-no.

Com muita pena minha, não vou poder estar na apresentação desta tarde, mas, conhecendo a escrita de Alice Brito, tenho a certeza de que vou ler este seu novo livro de uma assentada. Já o encomendei!
Já li. Recomendo.