Grande entrevista (diácono Rui)
- joaquimgouveia06
- 10 de jul.
- 41 min de leitura
Diácono Rui Cunha Campos (diocese do Porto)
NÃO DEIXEMOS QUE O MEDO SEJA MAIS FORTE QUE A ESPERANÇA!”
“JESUS CRISTO NÃO ESCOLHEU SER POLITICAMENTE CORRETO. ESCOLHEU SER JUSTO!"

Conheci o Diácono Rui Cunha Campos, por acaso, nas suas intervenções no Facebook, que me chamaram atenção imediata. Uma após outra percebia que, por trás daquelas palavras, existia um homem que, falando do bem comum, apregoava o nome de Deus, a vida de Cristo e a própria Bíblia, não num tom, estritamente, retórico, mas livre, sem preconceitos, aceitando criticas, diferenças, recusando, no entanto ideologias ditas “grosseiras”, contra qualquer tipo de dignidade do ser humano. Propus-lhe a conversa que abaixo publicamos e vos proponho que leiam com calma e oportunidade no vagar do vosso tempo. Aceitou de imediato e concordou, em absoluto, que não iria exigir regras a qualquer questão mais simples ou, até “dolorosa” para a Igreja que dá a conhecer porque a ela pertence inteiramente. Assim foi possível conhecer mais a fundo este homem que coloquei perante questões difíceis para o bom nome da sua Igreja. Não quis ser padre, preferiu ser Diácono, com a possibilidade de estar casado e ter dois filhos. Isso não o impede de praticar o catolicismo que, me garantiu, na nossa conversa, o levou a escolher o seu lema diaconal. Esta conversa deve ser lida, como já sugeri, como um fruto apetecível que se degusta gomo a gomo.
Joaquim Gouveia – O seu lema diaconal é "estou no meio de vós como aquele que serve". Essa é uma necessidade que, possivelmente, sempre sentiu em toda a vida e ajustou à condição de Diácono. Servir será um estado de alma que o acompanha, mas também uma partilha que terá de aceitar o consentimento do outro, ou basta-lhe uma razão para intervir?
Diácono Rui Cunha Campos – O lema que escolhi para o meu ministério diaconal — «Estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22,27) — não nasceu apenas de uma reflexão teológica ou de uma opção pastoral. Nasceu, antes de mais, da vida. Nasceu daquilo que vi, vivi e aprendi desde a infância, no seio da minha família. Ainda criança, fui profundamente marcado pelo testemunho da minha mãe e da minha tia. Durante cerca de quarenta anos, cuidaram da minha avó, acamada e limitada pela doença, numa entrega diária que nunca procurei descrever apenas como um dever. Era muito mais do que isso: era amor tornado serviço, fidelidade transformada em cuidado, ternura feita presença. Vi nelas a beleza silenciosa de quem se dá sem esperar reconhecimento. Vi que servir não é uma perda de liberdade, mas a sua expressão mais elevada. Mas também a minha avó foi uma grande mestra. Apesar do sofrimento prolongado, nunca permitiu que a dor lhe roubasse a esperança. A sua profunda ligação à Igreja e a sua vida de oração transformaram aquele quarto num verdadeiro lugar de encontro com Deus. A aceitação serena da sua condição ensinou-nos que a dignidade humana não depende da autonomia física, mas do amor que somos capazes de dar e receber. Recordo com particular gratidão as visitas dos sacerdotes que nos acompanhavam. O Senhor Padre Miguel, então Reitor da Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Vilar, e o Monsenhor Soares Jorge, Pároco do Santíssimo Sacramento, foram presenças importantes na nossa caminhada de fé. Levavam os sacramentos, mas levavam também proximidade, conforto e esperança. Através deles compreendi que a Igreja não é apenas um lugar onde se vai; é uma família que caminha connosco, especialmente, nos momentos mais difíceis.
Foi nesse ambiente que nasceu a minha vocação ao serviço da Igreja. Tornei-me acólito juntamente com o meu irmão, José Campos, que hoje desempenha responsabilidades de grande relevância no Serviço Diocesano de Acólitos da Diocese do Porto, integra o Serviço Nacional de Acólitos e leciona no Curso de Acólitos do Centro de Cultura Católica da Diocese do Porto. A experiência do pré-seminário ajudou-me igualmente a aprofundar a escuta de Deus e a discernir os caminhos pelos quais Ele me chamava.
Mais tarde, aos dezassete anos, encontrei no Escutismo uma extraordinária escola de formação integral. Ali aprendi que o serviço não é apenas uma atividade; é uma forma de estar na vida. O Escutismo ensinou-me que a verdadeira liderança se mede pela capacidade de servir, de caminhar ao lado dos outros e de colocar os dons recebidos ao serviço da comunidade. Quando me pergunta se servir é um estado de alma ou se depende da aceitação do outro, respondo que é ambas as coisas. O serviço autêntico nasce de uma disposição interior permanente, de um coração atento e disponível. Contudo, o verdadeiro serviço respeita sempre a liberdade e a dignidade da pessoa. Não se impõe. Não invade. Não substitui a vontade do outro. Procura antes criar espaço para o encontro, para a confiança e para a comunhão. Há situações, porém, em que a simples consciência de uma necessidade humana se transforma num apelo moral que não pode deixar-nos indiferentes. O sofrimento de um idoso abandonado, a fome de uma criança, a solidão de quem ninguém visita, a exclusão de quem perdeu a esperança, são realidades que interpelam profundamente a nossa consciência. Nesses momentos, a caridade cristã não pergunta apenas “quem é o meu próximo?”, mas desafia-nos a tornar-nos próximos de quem precisa. Talvez por ter nascido numa família pobre, compreendo bem o significado de “não ter”. Conheço as limitações, as preocupações e as fragilidades que a pobreza pode trazer à vida das pessoas. Por isso, a minha opção pastoral é, e será sempre, pelos mais pobres e vulneráveis. Não por ideologia, mas por fidelidade ao Evangelho. Procuro seguir o estilo daquele que sustenta toda a minha vida: Jesus Cristo. Ele não escolheu ser politicamente correto; escolheu ser justo. Aproximou-se dos excluídos, dos doentes, dos pecadores, dos esquecidos. Colocou os últimos no centro. E continua hoje a identificar-Se com todos aqueles que vivem nas periferias humanas e existenciais. Por isso, entristece-me quando, por vezes, nem todos na Igreja assumem claramente esta prioridade evangélica. A Igreja será verdadeiramente fiel ao seu Senhor, na medida em que souber reconhecer o rosto de Cristo, nos pobres. São João Crisóstomo deixou-nos um alerta que permanece de uma atualidade impressionante: «Se não reconheceis Jesus Cristo no pobre que vedes, dificilmente O reconhecereis na Hóstia consagrada.» Não se trata de opor a Eucaristia à caridade, mas de compreender que ambas são inseparáveis. O mesmo Cristo que adoramos no altar espera por nós nas feridas dos irmãos. E quando falamos de pobreza, é importante alargar o olhar. Existem pobrezas materiais, certamente, mas também pobrezas afetivas, espirituais, culturais, relacionais e existenciais. Há quem tenha pão e careça de sentido para viver. Há quem esteja rodeado de pessoas e se sinta profundamente só. Há quem possua bens e viva sem esperança. O discípulo de Cristo é chamado a estar atento a todas estas formas de pobreza. Servir, para mim, é precisamente isto: reconhecer em cada pessoa uma presença sagrada, um mistério de Deus confiado ao nosso cuidado. É compreender que ninguém se salva sozinho. É acreditar que cada gesto de proximidade, por mais pequeno que seja, pode devolver dignidade, esperança e alegria.
No fundo, servir não é apenas aquilo que faço. É aquilo que procuro ser. Porque, no final, a grande medida da vida não será o poder que tivemos, os títulos que alcançámos ou os aplausos que recebemos. A grande pergunta será sempre esta: quanto amámos? E a resposta encontra-se, quase sempre, na forma como servimos.
Joaquim Gouveia – Cristiano Ronaldo, que tão criticado havia sido no primeiro jogo da nossa seleção frente ao Congo, explodiu depois no jogo com o Uzbequistão e, mais que enaltecer o seu mérito, afirmou com humildade “parece que quem mais trabalha, Deus ajuda”. É uma frase poderosa de uma das mais mediáticas figuras não só do futebol mundial…
Diácono Rui Cunha – A afirmação de Cristiano Ronaldo — «Parece que quem mais trabalha, Deus ajuda» — encerra uma profundidade que ultrapassa largamente o contexto desportivo. Esta frase revela não apenas confiança, mas também humildade. É o reconhecimento de que o sucesso não nasce apenas do talento, mas da perseverança, do esforço e da capacidade de não desistir perante a adversidade. Do ponto de vista cristão, importa recordar que Deus não faz aceção de pessoas. Deus não privilegia uns em detrimento de outros, nem distribui os seus dons segundo critérios de fama, riqueza ou estatuto social. Como nos ensina a Sagrada Escritura, todos somos seus filhos muito amados, criados à sua imagem e semelhança, destinatários do mesmo amor infinito e misericordioso. Por isso, a frase de Cristiano Ronaldo não deve ser entendida como se Deus, ajudasse apenas quem alcança êxitos ou vitórias. Antes nos recorda uma verdade profundamente humana e espiritual: Deus abençoa o esforço honesto, acompanha quem luta com dignidade e fortalece aqueles que se levantam depois de cada queda. Nem sempre o trabalho produz os resultados que desejamos, mas nunca deixa de produzir crescimento interior, maturidade e valor humano. O trabalho, aliás, possui uma dimensão profundamente dignificante. Não é apenas um meio de subsistência; é uma forma de participação na obra criadora de Deus. São Josemaria Escrivá, insistia frequentemente nesta realidade ao afirmar que o trabalho humano pode tornar-se lugar de santificação, caminho de encontro com Deus e serviço aos irmãos. Para ele, não existem tarefas pequenas quando são realizadas com amor, competência e sentido de missão. Na verdade, aquilo que mais impressiona em figuras como Cristiano Ronaldo, não é apenas o talento extraordinário que possuem, mas a disciplina, a capacidade de sacrifício e a determinação diária que permanecem muitas vezes invisíveis aos olhos do público. Vivemos numa sociedade que admira os resultados, mas esquece frequentemente os longos caminhos de esforço que os tornam possíveis. Há, também, uma importante lição pastoral nesta frase. Muitas pessoas trabalham arduamente e, apesar disso, continuam a enfrentar dificuldades, doenças, desemprego ou pobreza. A fé cristã não promete uma vida sem sofrimento, nem garante sucesso terreno a quem acredita. O que promete é algo maior: a certeza de que Deus caminha connosco, especialmente nos momentos em que o esforço parece não ser recompensado. Talvez por isso a verdadeira grandeza não esteja apenas em vencer, mas em permanecer fiel aos valores quando as vitórias tardam. Deus não mede a nossa vida pelos troféus conquistados, mas pela fidelidade, pela honestidade, pela capacidade de amar e de servir. A frase de Cristiano Ronaldo, recorda-nos, afinal, que o trabalho, a perseverança e a fé não são realidades opostas, mas complementares. O ser humano faz a sua parte com empenho e responsabilidade; Deus oferece a sua graça, a sua presença e a sua força. E quando estas duas dimensões se encontram, nasce algo verdadeiramente belo: uma vida vivida com sentido, humildade e esperança. Porque, no fundo, Deus não procura os mais famosos, os mais poderosos ou os mais bem-sucedidos. Procura corações disponíveis, homens e mulheres que façam do seu trabalho uma expressão de amor, de serviço e de compromisso com o bem. E esses podem encontrar-se tanto nos grandes palcos do mundo como no silêncio humilde de quem, todos os dias, continua a fazer o bem sem que ninguém repare.
"Pedofilia... A Igreja Católica foi a única grande instituição mundial que decidiu expor publicamente esta realidade, investigar os seus próprios erros..."

Joaquim Gouveia – A Igreja Católica volta a sentir o enorme peso de uma nova cruz sobre as costas com a questão da pedofilia e, mais recentemente, com as descobertas de certas práticas de orgias entre padres com consumos de álcool, e droga para além de homossexualidade, uma delas bem difundida na Comunicação Social e que aconteceu aí no norte. O silêncio dos Papas, anteriores a Francisco, mesmo quando confrontados com este gravíssimo assunto, não acabou por gerar uma ainda maior agitação e indignação no mundo depois das denúncias? Na sua opinião o que continua a fazer com que a sua igreja esconda meandros tão complicados e tenha dificuldade em enfrentá-los com coragem?
Diácono Rui Cunha Campos – A questão que coloca é dolorosa, legítima e não pode ser respondida com superficialidade. Quando surgem crimes tão graves como a pedofilia, abusos de consciência, ou comportamentos escandalosos incompatíveis com a vocação consagrada, a Igreja não enfrenta apenas uma crise institucional: enfrenta uma ferida profunda no próprio Corpo de Cristo. É uma cruz pesada, certamente, mas a história da salvação ensina-nos que não existe ressurreição sem passagem pela cruz, nem purificação sem a coragem de olhar de frente para a verdade. A Igreja é santa na sua origem, porque o seu fundador é Cristo; mas é composta por homens pecadores, frágeis e necessitados de conversão. Esta tensão acompanha-a desde o início. Entre os doze Apóstolos havia um traidor; entre os primeiros discípulos houve negações, medos e incoerências. Isto não desculpa os pecados dos ministros da Igreja, mas recorda-nos que a santidade da sua missão nunca dependeu da perfeição dos seus membros. Importa também reconhecer um facto frequentemente esquecido: a Igreja Católica foi a única grande instituição mundial que decidiu expor publicamente esta realidade, investigar os seus próprios erros e abrir processos de purificação interna que, embora tardios em muitos casos, exigiram uma coragem que deveria servir de exemplo a muitas outras instituições da sociedade. A transparência nunca é agradável para quem a pratica, porque implica mostrar as próprias feridas ao mundo inteiro. Quanto ao silêncio que durante décadas existiu em diversos contextos, é evidente que ele contribuiu para aumentar a indignação pública e para agravar a dor das vítimas. Hoje sabemos que a proteção da imagem da instituição, a mentalidade de outras épocas, o medo do escândalo e, por vezes, uma compreensão insuficiente da gravidade destes crimes conduziram a decisões erradas. A verdade, porém, acaba sempre por emergir. E quando a verdade é adiada, o sofrimento das vítimas multiplica-se e a confiança dos fiéis fica profundamente abalada. É justo recordar que foi o Papa São João Paulo II, quem começou a tomar consciência da dimensão global do problema, mas foi sobretudo Bento XVI quem iniciou uma resposta sistemática e determinada. Ainda como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o então Cardeal Joseph Ratzinger impulsionou a centralização dos processos de abusos, acelerou investigações e promoveu medidas disciplinares mais eficazes. Já como Papa, encontrou-se pessoalmente com vítimas em vários países, pediu perdão em nome da Igreja e determinou a expulsão do estado clerical de numerosos sacerdotes culpados. O caso de Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, constitui um dos exemplos mais significativos dessa mudança de atitude. Mais tarde, o Papa Francisco aprofundou esse caminho, reforçando mecanismos de prevenção, responsabilização e denúncia. Mas é importante distinguir entre a queda e a escolha deliberada de uma vida dupla. Todos os seres humanos conhecem a fragilidade do pecado. Todos caem. Todos necessitam da misericórdia de Deus. Uma coisa é tropeçar no caminho e levantar-se arrependido; outra muito diferente é instalar-se, conscientemente, numa existência de duplicidade, enganando os outros e traindo persistentemente os compromissos assumidos diante de Deus e da Igreja. Os comportamentos que refere não podem ser relativizados nem banalizados. Quem comprovadamente comete crimes contra menores ou vive de forma gravemente incompatível com o ministério recebido não reúne, na minha opinião, condições para continuar a exercer o ministério ordenado. A misericórdia nunca elimina a exigência da justiça. Pelo contrário, a verdadeira misericórdia exige verdade, reparação e responsabilidade. A raiz mais profunda destes dramas encontra-se frequentemente numa vida espiritual enfraquecida. O consagrado não é um funcionário religioso; é um homem chamado a configurar toda a sua existência a Cristo. Quando a oração desaparece, quando a intimidade com Deus é substituída pela busca de compensações, quando o serviço se transforma em carreira ou privilégio, surgem as condições para que cresçam formas de vazio interior que podem conduzir a comportamentos destrutivos. A oração sincera, a vida sacramental, a humildade, a fraternidade sacerdotal e o serviço generoso ao povo de Deus, continuam a ser o antídoto mais eficaz contra os venenos da duplicidade e da corrupção moral. Contudo, seria profundamente injusto permitir que os pecados de alguns obscurecessem a fidelidade silenciosa de tantos membros do clero que vivem com heroísmo a sua vocação. Há milhares de consagrados que servem comunidades pobres, acompanham doentes, consolam os que sofrem, educam crianças, visitam idosos e gastam a própria vida no anúncio do Evangelho, sem nunca serem notícia. O mal faz manchetes; o bem, muitas vezes, permanece escondido. Por fim, gostaria de sublinhar algo essencial. As pessoas devem aproximar-se da Igreja sobretudo por amor a Deus. A Igreja é, antes de mais, a casa de Deus, o lugar onde Cristo continua a encontrar-Se com o Seu povo. Quando alguém afirma: “Deixei de ir à Igreja por causa dos padres”, está frequentemente a transferir para os outros uma decisão que pertence à sua própria liberdade espiritual. É verdade que o escândalo afasta e magoa; ninguém o deve minimizar. Mas a generalização é uma das formas mais injustas de julgar a realidade. Se aplicássemos esse mesmo critério a todas as áreas da vida, deixaríamos de confiar na família porque existem famílias disfuncionais, abandonaríamos a escola porque houve professores criminosos, evitaríamos os hospitais porque existem médicos que traíram a sua missão, ou desistiríamos do desporto porque alguns atletas e treinadores cometeram abusos. A fé cristã não assenta na santidade dos seus ministros, mas na santidade de Cristo. Os sacerdotes passam, os Papas passam, as crises passam, os escândalos passam; Cristo permanece. E é precisamente nos momentos em que a Igreja atravessa as suas noites mais escuras que os cristãos são chamados, não a abandonar a barca, mas a ajudar na sua purificação, com verdade, justiça, oração e esperança. Porque a cruz é pesada, mas nunca é a última palavra. A última palavra, para quem acredita, pertence sempre à verdade, à misericórdia e à ressurreição.
Joaquim Gouveia – A propósito deste tema, na sua recente visita a Espanha, o Papa Leão XIV, reafirmou a posição da Igreja Católica, sobre o segredo da confissão que, no seu entender, “O sigilo sacramental da confissão reveste-se de uma importância especial para a Igreja. Insere-se no âmbito mais amplo da liberdade religiosa (…)”. Isto aconteceu depois de um intenso debate em França, que pretendia obrigar os sacerdotes a denunciarem crimes sexuais contra menores de que tivessem conhecimento através do sacramento da confissão. Há meio termo entre estas duas posições? Você, aceitaria denunciar um pedófilo ou um criminoso?...
Diácono Rui Cunha Campos – Antes de mais, importa fazer uma distinção fundamental. Eu sou diácono e, por isso, não celebro o sacramento da Reconciliação. A administração desse sacramento pertence exclusivamente aos presbíteros e aos bispos. Digo isto porque a questão do sigilo sacramental não é uma realidade que eu exerça diretamente, embora compreenda profundamente a sua importância para a vida da Igreja. O debate que refere é extremamente sensível porque coloca frente a frente dois bens de enorme valor: por um lado, a proteção das vítimas e a necessidade de combater crimes gravíssimos; por outro, a inviolabilidade de um sacramento que os católicos acreditam ter sido instituído pelo próprio Cristo. Não estamos perante um conflito entre o bem e o mal, mas entre duas exigências que, à primeira vista, parecem difíceis de conciliar.
Para a Igreja Católica, o sigilo sacramental não é uma norma disciplinar criada por conveniência institucional. É uma obrigação absoluta, ligada à própria natureza da confissão. Quando um penitente se ajoelha diante do sacerdote, não procura apenas um conselheiro ou um representante da sociedade; procura encontrar-se com a misericórdia de Deus. O sacerdote escuta em nome de Cristo e aquilo que lhe é confiado nesse contexto pertence ao foro mais íntimo da consciência humana. Por isso, ao longo dos séculos, muitos sacerdotes preferiram enfrentar perseguições, prisão e até a morte, a violar o segredo da confissão. Compreendo, no entanto, a perplexidade de muitas pessoas. Quando se fala de crimes contra menores, de abusos sexuais ou de outras formas graves de violência, a reação espontânea é perguntar: como pode alguém guardar silêncio perante uma realidade tão terrível? A pergunta é legítima e nasce de uma preocupação justa pelas vítimas. A Igreja também a deve escutar com humildade.
Pessoalmente, enquanto cidadão e enquanto cristão, não tenho qualquer dúvida de que os crimes devem ser denunciados e investigados. Se eu tiver conhecimento de que alguém cometeu um crime através de meios que não estejam protegidos pelo sigilo sacramental, sentirei o dever moral e cívico de agir em conformidade com a lei e com a minha consciência. Como cidadão comprometido e como discípulo de Cristo, que Se apresenta como “o Caminho, a Verdade e a Vida”, não poderia pactuar com o encobrimento do mal. Informaria essa pessoa de que os seus atos serão comunicados às autoridades competentes para que a justiça dos homens possa cumprir a sua missão. Mas a confissão situa-se num plano diferente. O sacerdote não recebe essa informação como cidadão, investigador ou magistrado. Recebe-a como ministro de um sacramento. É precisamente por isso que a Igreja entende que não existe um “meio termo” possível dentro do segredo sacramental: ou ele é absoluto, ou deixa de existir. Se um penitente soubesse que determinadas confissões poderiam ser transmitidas às autoridades, a confiança no sacramento ficaria destruída e a própria natureza da confissão seria alterada. Isto não significa, porém, passividade. Um sacerdote que escuta a confissão de alguém culpado de crimes graves pode e deve exortar firmemente essa pessoa ao arrependimento verdadeiro, à reparação do mal cometido, à entrega às autoridades e à assunção das consequências dos seus atos. Não há arrependimento autêntico sem verdade, nem conversão genuína sem responsabilidade. A misericórdia de Deus nunca é uma fuga à justiça; é um caminho para a enfrentar com coragem. Talvez a verdadeira questão não seja escolher entre proteger o sacramento ou proteger as vítimas. O desafio é construir uma cultura onde as vítimas sejam sempre acolhidas, acreditadas e defendidas, onde os criminosos sejam responsabilizados e onde a Igreja coopere plenamente com a justiça em tudo aquilo que não pertence ao foro sacramental. A experiência dos últimos anos mostra que há ainda muito caminho a percorrer, mas também que a tolerância para com qualquer forma de abuso diminuiu significativamente. No fundo, estamos perante um dos maiores mistérios da liberdade humana. Deus respeita de tal forma a consciência de cada pessoa que lhe abre sempre uma porta para regressar, mesmo depois dos pecados mais horríveis. Mas esse regresso nunca pode ser confundido com impunidade. O perdão de Deus, não apaga as consequências dos atos praticados nem substitui a responsabilidade perante a sociedade. A Igreja deve ser simultaneamente casa da misericórdia e guardiã da verdade. Se perder a misericórdia, transforma-se num tribunal sem alma; se perder a verdade, transforma-se numa instituição sem credibilidade. O equilíbrio cristão encontra-se precisamente na união destas duas realidades: acolher o pecador, proteger a vítima, exigir justiça e confiar que nenhuma escuridão humana é mais forte do que a luz de Deus.
Joaquim Gouveia – Perante estas circunstâncias e sendo o Diácono Rui, um homem de importância na divulgação da doutrina e da fé Cristã, de que forma colhe quem o procura e pede explicação sobre estas prática contranatura? Penso que não será algo fácil para a sua causa do amor a Cristo e bem-estar do cristão e do mundo…
Diácono Rui Cunha Campos – Agradeço a sua pergunta porque ela toca numa dimensão muito concreta do ministério pastoral: o encontro com pessoas reais, com histórias reais, muitas vezes marcadas por sofrimento, dúvidas, feridas, pecados, contradições e até situações profundamente complexas. Antes de mais, procuro acolher todos aqueles que me procuram com uma atitude de escuta ativa, respeito e proximidade humana. Ninguém deve sentir que é rejeitado ou condenado à partida. Cristo nunca fechou a porta a quem O procurava. Sentava-Se à mesa com pecadores, escutava os marginalizados, aproximava-Se dos que eram apontados pela sociedade e oferecia-lhes sempre a possibilidade de um caminho novo. Esse continua a ser o modelo para qualquer cristão e, de forma particular, para quem exerce um ministério na Igreja. Contudo, acolher não significa relativizar. Escutar não significa concordar. Compreender uma pessoa não implica justificar tudo o que ela faz. A verdadeira caridade nunca se opõe à verdade. Pelo contrário, uma caridade sem verdade transforma-se numa espécie de sentimentalismo incapaz de ajudar verdadeiramente quem sofre ou quem erra. Por isso, quando alguém me procura para falar sobre comportamentos moralmente desordenados, sobre situações de vida contrárias ao ensinamento da Igreja ou, mais grave ainda, sobre atos criminosos, até hoje nunca aconteceu, procuro sempre conjugar duas atitudes que nunca se devem separar: a misericórdia e a verdade. Misericórdia para acolher a pessoa na sua dignidade inviolável de filho de Deus; verdade para recordar que as nossas escolhas têm consequências e que nem tudo aquilo que desejamos ou fazemos contribui para o nosso bem, para o bem dos outros ou para a nossa felicidade autêntica. Quando estamos perante atos criminosos, a questão torna-se ainda mais clara. Nenhuma justificação ideológica, psicológica, afetiva ou cultural pode apagar a gravidade de um crime. O amor cristão pelas pessoas não pode significar indiferença perante o sofrimento das vítimas. Pelo contrário, a primeira preocupação deve ser sempre a proteção dos mais vulneráveis, o apoio integral às vítimas e a procura da verdade através dos meios legítimos da justiça. Tenho procurado transmitir que a compaixão para com quem errou nunca pode ser exercida à custa da justiça para com quem sofreu. Uma sociedade verdadeiramente humana é aquela que sabe estender a mão ao pecador sem abandonar a vítima ao seu sofrimento. E uma Igreja fiel ao Evangelho é aquela que sabe anunciar o perdão sem renunciar à verdade. Quanto às chamadas práticas "contra a natureza" ou às situações que entram em conflito com a visão cristã da pessoa humana, procuro sempre abordar estes temas com serenidade e profundidade. A Igreja não reduz ninguém à sua condição afetiva, às suas tentações ou aos seus comportamentos. Cada pessoa é infinitamente maior do que os seus erros, fragilidades ou lutas interiores. Todos somos chamados à santidade e todos estamos em caminho de conversão. Não existem cristãos perfeitos; existem discípulos que procuram, com maior ou menor fidelidade, deixar-se transformar pela graça de Deus. Aquilo que verdadeiramente prejudica a causa de Cristo não é a existência do pecado — porque o pecado acompanha a humanidade desde o princípio — mas a recusa da verdade, a falta de arrependimento e a instalação numa vida dupla que transforma a incoerência em modo de vida. A santidade não consiste em nunca cair; consiste em nunca desistir de se levantar. Naturalmente, não é fácil responder a estas questões num contexto social onde muitas vezes se confunde acolhimento com aprovação ou discordância com rejeição. O Evangelho desafia-nos a um caminho mais exigente. Cristo acolheu a mulher adúltera quando todos a queriam condenar, mas também lhe disse: «Vai e não tornes a pecar.» Numa única frase encontramos a síntese da atitude cristã: acolhimento sem condenação da pessoa, mas também sem renúncia à verdade. Por isso, quando alguém me procura, o meu primeiro dever é escutar. O segundo é dizer a verdade com caridade. O terceiro é ajudar a pessoa a encontrar um caminho de crescimento humano, espiritual e moral. E quando existem vítimas, o meu dever é estar ao seu lado, promover o seu acompanhamento integral e defender o seu direito à verdade, à justiça e à reparação. No final, a missão da Igreja não é confirmar cada pessoa nas suas opções, mas ajudá-la a descobrir a beleza do projeto de Deus para a sua vida. Essa missão nem sempre é confortável, nem sempre é popular, e por vezes traz incompreensões. Mas o amor cristão autêntico não consiste em dizer às pessoas apenas aquilo que desejam ouvir; consiste em caminhar com elas, sustentá-las nas suas fragilidades e apontar-lhes, com respeito e esperança, o horizonte da verdade que liberta. Porque só a verdade pode curar plenamente, só a justiça pode restaurar a confiança e só o amor de Cristo pode transformar o coração humano de forma duradoura.
"Seria injusto, e teologicamente pobre, reduzir o chamado “não praticante” a alguém, simplesmente, indiferente ou negligente".

Joaquim Gouveia – Num dos seus posts no Facebook, o Diácono Rui, falou sobre um tema que me tem merecido atenção desde sempre que é o tão habitual “sou católico não praticante”. Isso quer dizer, no geral, que esse católico não frequenta as missas e outras práticas da sua igreja. Mas também se admite que essa frase pode levar a compreender, não apenas a falta de presença nos eventos, mas um completo alheamento da doutrina e sua prática. É que, raramente, essa frase é secundada por uma outra razão como “… não praticante dos eventos, mas disponível para entender, praticar e espalhar a palavra de Deus/Cristo”. Não duvido que o Diácono, não tenha já equacionado esta presunção de católico de ocasião…
Diácono Rui Cunha Campos – A expressão “sou católico não praticante” parece, à primeira vista, uma simples descrição sociológica de pertença religiosa sem adesão vivida. Mas, quando a olhamos com mais profundidade — humana, teológica e pastoral — ela revela um território interior muito mais complexo: o da distância entre o nome e a experiência, entre a identidade recebida e a identidade assumida, entre o desejo de Deus e as feridas que, por vezes, nos afastam d’Ele e da comunidade. Do ponto de vista cristão, a fé nunca foi pensada como um mero rótulo cultural ou uma herança passiva. Ser católico não é apenas “pertencer a algo”, mas ser progressivamente moldado por Alguém. E isso implica caminho, queda, reencontro, dúvida, retorno, silêncio e celebração. A fé, no seu núcleo mais profundo, não é um estatuto, é uma relação viva. E as relações vivem-se, cuidam-se, alimentam-se… ou enfraquecem. No entanto, seria injusto, e teologicamente pobre, reduzir o chamado “não praticante” a alguém simplesmente indiferente ou negligente. Muitas vezes, por trás dessa expressão há histórias de desencontro: com comunidades que não souberam acolher, com linguagens que não foram compreendidas, com experiências de julgamento que feriram mais do que curaram, com etapas da vida em que Deus, pareceu silencioso, ou até com uma busca sincera que ainda não encontrou lugar para respirar. E aqui entra uma dimensão decisiva: a Igreja, quando fiel ao seu Senhor, não é um tribunal de identidades, mas um hospital de almas. Não é um espaço onde se pesam virtudes e se classificam ausências, mas um corpo vivo onde cada ferida deveria encontrar cuidado e cada sede deveria encontrar água. Quando a comunidade cristã esquece isto, corre o risco de transformar o Evangelho numa vitrine de perfeições e não num caminho de misericórdia. Gosto da imagem de uma taça de frutas, que é profundamente sugestiva. Muitas vezes, quem olha de fora, ou mesmo de dentro, mas com dor, não vê a beleza do conjunto, mas fixa-se naquilo que parece estragado. Mas o olhar cristão mais maduro não nega o que está podre; apenas recusa fazer disso a definição do todo. Porque a fé não é ingenuidade: é esperança treinada na realidade. E a esperança cristã insiste em acreditar que nenhum fruto humano está definitivamente perdido enquanto houver tempo, encontro e graça. Talvez, então, a questão não seja apenas “porque é que há católicos não praticantes?”, mas também “que tipo de comunidade estamos a ser para que a prática se torne desejável, habitável, possível e curadora?”. Porque a fé não se impõe, contagia-se. Não se exige, propõe-se. Não se reduz a obrigação, desperta-se como encontro. E, ao mesmo tempo, há uma verdade exigente que não pode ser suavizada: a fé que não se alimenta acaba por definhar. Não por castigo, mas por dinâmica interior. Tal como uma relação humana que não é cultivada perde densidade, também a relação com Deus, pede presença, escuta, comunidade, sacramentos, silêncio e vida partilhada. A prática não é um peso exterior; é, idealmente, o lugar onde a fé respira. Mas Deus é maior do que as nossas categorias. E a sua pedagogia é paciente. Ele não abandona quem se afasta. Não desiste de quem hesita. Não cancela quem falha. A lógica divina não é a da exclusão, mas a da busca: “Onde estás?” continua a ser uma das perguntas mais antigas e mais atuais dirigidas ao coração humano. Por isso, talvez devamos substituir a lógica da rotulagem pela lógica do caminho. Em vez de “praticantes” e “não praticantes” como fronteiras rígidas, talvez devamos falar de pessoas em diferentes fases de aproximação, de reencontro, de cura, de maturação da fé. Há quem esteja no centro da comunidade, há quem esteja à porta, há quem esteja a regressar sem ainda ter coragem de entrar, e há quem, mesmo afastado, conserve uma chama silenciosa que Deus não deixou apagar. O mais belo, no fim, não é a pureza das categorias, mas a verdade do encontro. E o Evangelho é precisamente isto: uma contínua reintegração do humano na esperança de Deus. Se a Igreja for capaz de olhar mais como Cristo olha, com verdade, sim, mas sobretudo com misericórdia criativa, então talvez muitos “não praticantes” deixem de ser uma categoria e voltem a ser aquilo que sempre foram aos olhos de Deus: filhos em caminho, nunca perdidos demais para regressar, nunca distantes demais para serem alcançados, nunca indiferentes demais para não serem amados. E é aqui que a frase final ganha todo o seu peso espiritual: “todos, todos, todos”. Não como slogan, mas como missão. Porque no coração de Deus, não há descartáveis. Há apenas histórias ainda por cumprir.
Joaquim Gouveia – As práticas canónicas (digamos assim), são bem mais vincadas no norte do país onde as tradições religiosas têm pontos muito altos em todas as festividades. Há muita fé e sentido de obrigação no cumprimento das celebrações. Mas, também, há medo, existem padres que ainda não perderam o famoso “Deus castiga”, para julgar ou prevenir. Percebe-se em muitos casos um posicionamento ainda muito retrógrado que não permite novas dinâmicas e aberturas à liberdade do pensamento e dos atos que vão sendo visíveis noutras paróquias não só no país, como pelo mundo e que Francisco, disso foi exemplo. A fé é acreditar pelo medo, ou algo que nos coloca perante interrogações com as quais nos é possível engrandecê-la e espalhá-la com maior consciência e conhecimento?
Diácono Rui Cunha campos – A sua questão toca um ponto decisivo da experiência cristã: a diferença entre uma fé vivida como imposição exterior e uma fé assumida como encontro interior. E essa diferença não é menor é, na verdade, a fronteira entre uma religião do medo e uma espiritualidade da liberdade. É verdade que, em algumas expressões culturais da fé, sobretudo em contextos mais marcados pela tradição e pela repetição geracional, como acontece em várias regiões do norte de Portugal, a prática religiosa pode aparecer fortemente associada ao dever, ao costume e até a uma certa pressão social implícita. A fé torna-se, nesses casos, quase uma herança comunitária que se cumpre “porque sempre foi assim”, mais do que uma adesão pessoal amadurecida. Mas quando a fé se reduz ao “cumprir por obrigação”, corre o risco de perder o seu núcleo mais profundo: o encontro vivo com Deus. E quando se acrescenta o medo, o “Deus castiga”, como linguagem dominante, então o risco é ainda maior: Deus deixa de ser percebido como Pai e passa a ser imaginado como ameaça. E isso, do ponto de vista teológico, não é apenas uma simplificação; é uma distorção do rosto de Cristo. O Evangelho não começa com medo, começa com anúncio: “Não tenhais medo.” E toda a vida de Jesus é uma pedagogia de libertação interior. Ele não força consciências, não coage corações, não impõe amor, desperta-o. A sua presença não paralisa, desinstala; não reduz, expande; não escraviza, chama à liberdade. Por isso, quando a fé é vivida apenas como obrigação canónica desligada da consciência, do amor e da liberdade interior, ela aproxima-se mais de uma prática cultural ou disciplinar do que de uma resposta viva ao Deus, que se revela. E aqui a sua questão é muito precisa: há uma diferença entre uma fé sustentada pelo medo e uma fé iluminada pela consciência. No entanto, também seria injusto reduzir toda a religiosidade tradicional a medo ou superstição. Muitas dessas práticas, mesmo quando marcadas por linguagem menos teologicamente refinada, foram, e continuam a ser, formas humildes de fidelidade. Há pessoas que nunca fizeram grandes construções intelectuais da fé, mas que permaneceram fiéis na oração, na Eucaristia, na comunidade, com uma simplicidade que por vezes envergonha a sofisticação dos discursos. Deus sabe ler o coração por trás das palavras imperfeitas. A questão central não é, portanto, eliminar a dimensão do dever, mas purificá-la. Porque o dever, na fé cristã, não é escravidão é maturação do amor. Quando alguém ama verdadeiramente, aquilo que era apenas obrigação torna-se desejo. E aquilo que começou como preceito transforma-se em necessidade interior. Não porque alguém impôs, mas porque algo dentro de nós foi tocado. É aqui que a Eucaristia e a Reconciliação ganham o seu verdadeiro sentido: não como atos mágicos ou meramente normativos, mas como lugares de encontro. Na Eucaristia, a vida de Cristo não é apenas lembrada, é participada. Na Reconciliação, não se cumpre uma formalidade, restaura-se uma relação. Ambos os sacramentos são profundamente existenciais: dizem respeito ao modo como Deus habita a vida humana e a transforma por dentro. E quando essa experiência é autêntica, nasce aquilo que os discípulos de Emaús viveram: “Não ardia o nosso coração?” Esse “arder” não nasce do medo, mas da presença. Não nasce da ameaça, mas do reconhecimento. Não nasce da obrigação, mas da surpresa de um amor que acompanha mesmo quando não é reconhecido. A fé cristã, no seu núcleo mais puro, não é uma pedagogia do medo, mas uma pedagogia do amor que amadurece. Começa, muitas vezes, de forma imperfeita, por tradição, por hábito, por pertença cultural, mas é chamada a tornar-se liberdade consciente. E essa passagem é decisiva: da fé herdada para a fé escolhida, da repetição para a interiorização, do medo para a confiança. É precisamente aqui que a intuição pastoral de hoje, tão bem expressa pelo magistério recente, sobretudo no caminho aberto por Papa Francisco, insiste: a Igreja não é guardiã de uma disciplina fria, mas testemunha de um encontro que transforma. E encontros não se impõem, oferecem-se. Por isso, a fé não é nem pura obrigação nem pura emoção. É uma relação que integra a liberdade, a consciência e o compromisso. E quanto mais madura se torna, menos precisa de medo para se sustentar e mais se alimenta da alegria de pertencer. No fim, talvez possamos dizer assim: o medo pode até levar alguém à porta da fé, mas só o amor o faz entrar e permanecer. E é dentro desse permanecer paciente, imperfeito, mas sincero, que Deus vai, discretamente, transformando obrigação em amizade e prática em vida.
Joaquim Gouveia - Você é um homem casado, tem dois filhos e várias ocupações profissionais. Essa condição não deveria pertencer a todos os eclesiásticos como norma vigente? Como pode um homem que não compartilha a vida familiar com ninguém, que se abstém de prática sexual (condição natural no mundo humano e animal), e que celebra missa diária por “obrigação”, como pode compreender o outro? Pela observação, pelo conhecimento de exemplos? Afinal sendo o Rui, um Diácono, a sua situação não será muito mais agradável e honesta ao próprio olhar de Jesus, que nunca pediu celibato ou isolamento a ninguém?...
Diácono Rui Cunha Campos - A sua questão toca um dos pontos mais delicados e mais belos da eclesiologia católica: a tensão fecunda entre o matrimónio e o celibato, não como oposição, mas como duas formas de viver a mesma entrega radical ao amor de Deus e ao serviço do humano. Comecemos pelo essencial: a Igreja nunca entendeu o celibato como negação da sexualidade, nem o matrimónio como segunda escolha espiritual. Ambos são vocações plenas, ambas são caminhos de santidade, ambas são expressões distintas da mesma dignidade humana chamada ao amor. Mas há um elemento que atravessa ambas e lhes dá consistência interior, sem o qual nenhuma vocação se sustenta de forma autêntica: a fidelidade. Não uma fidelidade meramente disciplinar ou sociológica, mas uma fidelidade existencial, isto é, a capacidade de permanecer no amor quando o sentimento se torna frágil, quando o entusiasmo inicial dá lugar à aridez, quando o tempo introduz cansaço, silêncio ou prova. A fidelidade é, neste sentido, a forma concreta que o amor assume quando deixa de ser promessa e passa a ser história. O matrimónio é, teológica e antropologicamente, um dos lugares mais densos onde a humanidade se revela: a comunhão de vidas, a fecundidade, a entrega quotidiana, a paciência das fragilidades, a alegria partilhada e também o peso das noites difíceis. É ali que a fé encarna de forma muito concreta na carne da vida: fraldas, contas, conflitos, reconciliações, crescimento dos filhos, envelhecimento partilhado. E tudo isto só se torna verdadeiramente humano e verdadeiramente cristão quando atravessado pela fidelidade, aquela decisão diária de continuar a dizer “sim”, mesmo quando esse “sim” já não é apenas emoção, mas compromisso amadurecido no tempo. Não há idealização possível que sobreviva sem verdade neste caminho e é precisamente por isso que ele é sagrado. A fidelidade conjugal não é apenas permanência; é criatividade do amor no tempo, é a arte de recomeçar sem apagar o passado, é a paciência de construir comunhão onde há diferença. O celibato, por sua vez, não é fuga do mundo nem negação do amor humano. É, na sua forma mais autêntica, uma antecipação escatológica: um modo de viver já aqui aquilo que será a plenitude do Reino, onde “nem se casam nem se dão em casamento”, não por ausência de amor, mas por transfiguração do amor. É um sinal profético de que Deus, pode ser amado com um coração indiviso, não porque o mundo seja rejeitado, mas porque Deus, se torna centro absoluto. E também aqui a fidelidade é decisiva. Porque o celibato não se mantém apenas pela disciplina exterior, mas por uma fidelidade interior contínua: fidelidade a Cristo, à missão, à Igreja, às pessoas concretas que se servem, à oração que sustenta, ao silêncio que purifica, à entrega que muitas vezes não é visível nem reconhecida. É uma fidelidade que não depende de reciprocidade humana direta, mas de uma relação que se renova na profundidade da consciência e da oração. Joseph Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, expressou isto com uma clareza luminosa ao afirmar que o celibato não é “um menos de humanidade”, mas um “mais de disponibilidade”, um sinal de que o amor pode ser dilatado até ao infinito quando é centrado em Deus. E essa disponibilidade só se torna verdadeiramente fecunda quando sustentada pela fidelidade, não como rigidez, mas como permanência de uma entrega que não se dispersa. Mas também é verdade que nenhuma destas vocações se compreende isoladamente. O celibato, sem a referência ao matrimónio, pode tornar-se abstrato. O matrimónio, sem a referência ao celibato, pode tornar-se fechado em si mesmo. A Igreja, na sua sabedoria histórica, não os colocou em competição, mas em reciprocidade simbólica e pastoral: um recorda ao outro aquilo que, sozinho, poderia esquecer. E ambos se tornam mais verdadeiros quando reconhecem que a fidelidade é a sua estrutura invisível comum. O sacerdote ou diácono celibatário não compreende o humano apenas por observação externa. Ele é formado numa imersão contínua na vida das pessoas, na escuta, no acompanhamento, na confissão, na fragilidade partilhada. A sua paternidade não é biológica, mas espiritual e não é menos real por isso. É uma paternidade sustentada por uma fidelidade que se traduz em presença constante, mesmo quando não há retorno imediato, mesmo quando há desgaste ou incompreensão. Ao mesmo tempo, o Homem casado participa de uma sabedoria insubstituível: a sabedoria do concreto, do limite, da ternura quotidiana, da negociação constante com o real. Essa experiência não é apenas humana; é profundamente teológica, porque revela algo do próprio Deus que é comunhão de amor. E essa comunhão só se torna sólida porque é continuamente sustentada pela fidelidade ao outro, à promessa, à vida partilhada, ao tempo que amadurece e também corrói, mas não destrói quando há amor verdadeiro. Não é por acaso que a Igreja não escolheu entre uma coisa e outra. Escolheu as duas. E essa escolha não é um compromisso diplomático, mas uma visão antropológica profunda: o humano é plural na sua forma de amar, e Deus pode ser servido a partir de diferentes configurações de vida. Em ambas, porém, há um núcleo comum: a fidelidade como forma visível do amor invisível de Deus. O perigo surge quando uma vocação tenta medir a outra pelos seus próprios critérios. Quando o celibato é visto como superioridade, ou quando o matrimónio é visto como limitação. Ambas as leituras são teologicamente pobres e espiritualmente injustas. Porque ignoram que o critério último não é a forma exterior da vida, mas a qualidade da entrega e a fidelidade com que essa entrega é vivida. Na verdade, o que une estas vocações é maior do que aquilo que as separa: ambas são chamadas à doação total. No matrimónio, a doação é encarnada, partilhada, quotidiana, visível e sustentada pela fidelidade concreta entre duas vidas. No celibato, a doação é universal, simbólica, pastoralmente difusa, mas igualmente exigente e igualmente sustentada por uma fidelidade interior que atravessa o tempo. E talvez aqui esteja a chave mais profunda: Jesus não instituiu formas de vida como imposições universais rígidas, mas inaugurou um caminho de amor que se expressa de modos diversos. Ele mesmo viveu uma forma de celibato, não como rejeição do humano, mas como pertença total ao Pai e missão universal. E, ao mesmo tempo, elevou o matrimónio a sacramento, isto é, o sinal eficaz do amor de Deus pela humanidade. A beleza da Igreja está precisamente nesta tensão habitada: não uniformiza o amor, mas consagra as suas formas mais verdadeiras. E por isso, o diácono ou presbítero celibatário não é “menos humano”, nem o Homem casado é “menos espiritual”. São duas maneiras de dizer a mesma coisa com linguagens diferentes: que o amor, quando é verdadeiro, abre-se, doa-se e permanece e essa permanência é aquilo a que chamamos fidelidade. No fundo, tanto o matrimónio como o celibato só são compreendidos plenamente quando deixam de ser vistos como identidades fechadas e passam a ser entendidos como caminhos de configuração com Cristo, Ele que amou com um coração totalmente dado, sem reservas, sem exclusões, até ao fim, e que permaneceu fiel mesmo quando o amor humano à sua volta vacilou.
"Quando o outro deixa de ser visto como um dom e passa a ser visto como um objeto, uma posse ou um instrumento de satisfação pessoal, abre-se caminho à cultura da utilização, da manipulação e, em casos extremos, da violência"

Joaquim Gouveia – O Diácono consegue interpretar aquilo que muitos consideram de misoginia católica, que é o facto das mulheres nunca terem ocupado lugares de verdadeiro destaque na sua hierarquia? A Madre Teresa de Calcutá, não poderia ter sido uma ótima “Chefe de Igreja”?...
Diácono Rui Cunha Campos – A questão é compreensível e merece ser acolhida com respeito e profundidade. Muitos interrogam-se sobre o lugar das mulheres na vida da Igreja e sobre o facto de não terem ocupado os cargos hierárquicos que, tradicionalmente, conhecemos. Porém, a fé cristã convida-nos a olhar para esta realidade a partir de uma perspetiva diferente daquela que tantas vezes domina o mundo: a lógica do poder não é a mesma que a lógica do Evangelho. O Espírito Santo está vivo e presente na Igreja. É Ele que a conduz ao longo da história e que suscita, em cada tempo, os pastores, os santos e os carismas de que ela necessita. Na visão cristã, o Papa, não é um monarca nem um chefe no sentido mundano da palavra; é, antes de mais, o “servo dos servos de Deus”, chamado a confirmar os irmãos na fé e a gastar a sua vida ao serviço do povo de Deus. Neste sentido, vale a pena perguntar: o verdadeiro destaque mede-se pelos cargos que se ocupam ou pela intensidade do amor com que se serve? A história da Igreja oferece uma resposta luminosa. Pensemos no exemplo que refere - Santa Teresa de Calcutá. O mundo inteiro conhece-a não porque tenha ocupado um lugar de governo na hierarquia eclesial, mas porque se entregou sem reservas a Jesus Cristo e aos mais pobres entre os pobres. A sua autoridade não nasceu de um título, mas da força desarmante da caridade. A sua voz atravessou fronteiras, tocou consciências, inspirou governantes, crentes e não crentes. Quantas pessoas exerceram cargos elevadíssimos e caíram no esquecimento, enquanto Madre Teresa, permanece como um farol de humanidade e santidade? Na verdade, ela foi aquilo que o Evangelho considera maior: serva. E, sendo serva de Cristo, tornou-se serva dos servos de Deus. A sua vida recorda-nos que a grandeza, aos olhos de Deus, não se mede pela posição que ocupamos, mas pela capacidade de amar, de nos doarmos e de fazermos da nossa existência um dom para os outros. O cristianismo contém uma revolução silenciosa e profunda: diante de Deus, o valor da pessoa não depende do poder, da influência ou da visibilidade. Depende do amor. Por isso, a pergunta decisiva da nossa vida não será: “Que lugar ocupaste?” ou “Que cargo alcançaste?”. Será antes: “Quanto amaste? Quanto te entregaste? Quanto deixaste Deus amar através de ti?”
Como ensinou o grande místico São João da Cruz: «Ao entardecer desta vida, examinar-nos-ão no amor.» Não seremos julgados pelos títulos que acumulámos nem pelas honras que recebemos, mas pela medida da nossa caridade. Porque todos os ministérios, todas as responsabilidades e todos os lugares na Igreja só encontram o seu verdadeiro sentido quando se tornam instrumentos para servir mais e amar melhor. E talvez seja precisamente aqui que Madre Teresa, continua a oferecer ao mundo a sua mais bela lição: há uma forma de liderança que não passa pelo governo, mas pelo testemunho; não pela autoridade do cargo, mas pela autoridade da santidade; não pela grandeza exterior, mas pela humildade de quem faz da própria vida uma resposta de amor a Deus e aos irmãos.
Joaquim Gouveia - O populismo avança, novamente, como “bicho de sete cabeças” pelo mundo. Em Portugal é já bem notório. Ao mesmo tempo a violência doméstica com números significativos de vítimas mortais entre mulheres e crianças, não devem ser assuntos a pedir reflexão com urgência? O Homem parece estar a perder a sua racionalidade e o que sobra nem sequer é comparável com a irracionalidade dos animais que não matam por prazer. Estamos a entrar no mundo da acefalia?
Diácono Rui Cunha Campos – A questão que coloca é de uma enorme atualidade e exige uma reflexão séria, profunda e corajosa. O crescimento dos populismos, a persistência da violência doméstica, a fragilidade dos laços familiares, a polarização social e a perda de referências éticas, são fenómenos que não podem ser observados de forma isolada. São, em muitos aspetos, sintomas de uma crise mais profunda: uma crise do sentido da pessoa humana. Quando uma sociedade deixa de se interrogar sobre quem é o Homem, inevitavelmente, perde-se também a compreensão do modo como deve viver, relacionar-se e construir o bem comum. A história ensina-nos que nenhuma civilização se sustenta apenas na economia, na tecnologia ou no poder político. Sustenta-se, acima de tudo, numa visão do ser humano, da sua dignidade e da sua vocação. Por isso, a violência doméstica, que continua a destruir vidas de mulheres, crianças e famílias inteiras, deve interpelar profundamente a nossa consciência coletiva. Não é apenas um problema jurídico ou policial. É também um drama antropológico, moral e espiritual. Quando o outro deixa de ser visto como um dom e passa a ser visto como um objeto, uma posse ou um instrumento de satisfação pessoal, abre-se caminho à cultura da utilização, da manipulação e, em casos extremos, da violência. Vivemos numa época, extraordinariamente, desenvolvida do ponto de vista técnico, mas, frequentemente, empobrecida no plano relacional. Multiplicaram-se os meios de comunicação, mas diminuíram os espaços de verdadeira comunhão. Confundiu-se, muitas vezes, amor com emoção passageira, liberdade com ausência de compromisso, autonomia com individualismo. E quando o relacionamento humano assenta apenas na satisfação imediata, torna-se, inevitavelmente, frágil perante as dificuldades da vida. Neste contexto, não admira que surjam discursos simplistas que prometem respostas fáceis para problemas complexos. O populismo cresce precisamente onde existe medo, desorientação, insegurança e perda de referências. Quando as pessoas deixam de acreditar em projetos comuns e perdem a confiança nas instituições, tornam-se mais vulneráveis a vozes que exploram emoções legítimas para fins de poder. Mas seria simplista atribuir todos os males apenas à política. A renovação da sociedade começa sempre no coração humano. É aí que se trava a batalha decisiva entre a verdade e a mentira, entre o amor e o egoísmo, entre a liberdade e a manipulação. A tradição judaico-cristã recorda-nos uma verdade fundamental: o ser humano não foi criado para dominar, mas para cuidar; não foi criado para destruir, mas para construir; não foi criado para viver fechado em si mesmo, mas para viver em comunhão. A própria Sagrada Escritura, apresenta a pessoa humana como imagem e semelhança de Deus, chamada a ser guardiã da criação e irmã de todos os seus semelhantes. Quando esta consciência se enfraquece, a sociedade torna-se mais vulnerável à lógica do descarte. Descartam-se os idosos porque já não produzem. Descartam-se os nascituros porque incomodam. Descartam-se os pobres porque perturbam. Descartam-se as relações porque exigem sacrifício. E, pouco a pouco, instala-se uma cultura onde tudo é substituível, incluindo as próprias pessoas. Mas o cristianismo continua a proclamar uma esperança radical. Não fomos fundados no medo, nem na violência, nem na competição desenfreada. Fomos fundados no Amor. Um amor que não é mero sentimento, mas decisão, compromisso, fidelidade e dom de si. É esse amor que gera famílias saudáveis, comunidades fortes e sociedades verdadeiramente humanas. Precisamos, por isso, de recuperar a educação para a responsabilidade, para o respeito, para a solidariedade e para a transcendência. Precisamos de voltar a ensinar às novas gerações que a liberdade não consiste em fazer tudo o que apetece, mas em escolher aquilo que nos torna mais humanos. Precisamos de recordar que nenhuma tecnologia substituirá a ternura, nenhuma ideologia substituirá a verdade e nenhum sistema político substituirá a consciência moral. A escolha continua a habitar o coração de cada homem e de cada mulher. Deus criou-nos livres, não para sermos escravos das modas, das paixões ou das ideologias, mas para sermos construtores do bem, da justiça e da paz. Os populismos passam. As correntes culturais mudam. Os sistemas políticos sucedem-se. Mas permanece sempre a mesma pergunta essencial: queremos ser uma sociedade edificada sobre o medo e a divisão, ou uma comunidade fundada na dignidade humana, na verdade e no amor? A resposta não será dada apenas pelos governantes, pelos intelectuais ou pelos líderes religiosos. Será dada por cada um de nós, nas escolhas concretas de cada dia. Porque o futuro da sociedade começa sempre no coração humano. E é nesse coração que Deus continua a semear a esperança, convidando-nos a ser luz no mundo, fermento de fraternidade e testemunhas de uma humanidade reconciliada consigo mesma, com os outros, com a criação e com o próprio Criador.
Joaquim Gouveia – Existem neste momento no nosso país 300.000 crianças que passam fome todos os dias e, meio milhão de idosos que apenas têm uma refeição por dia. Portugal é já o quinto país da União Europeia com maior índice de pobreza. O Governo gaba-se de que a nossa economia é motivo de inveja pela sua prosperidade. Somos um país em continuo sofrimento, venha quem vier. Concorda?
Diácono Rui Cunha Campos – A questão que coloca toca uma das feridas mais profundas da nossa consciência coletiva. Independentemente dos números concretos, sempre que existem crianças que se deitam com fome ou idosos que vivem privados do mínimo indispensável para uma vida digna, estamos perante uma realidade que deve inquietar qualquer sociedade que se queira, verdadeiramente, civilizada. É evidente que os indicadores económicos têm a sua importância. O crescimento do Produto Interno Bruto, o equilíbrio das contas públicas, a atração de investimento e a competitividade internacional são elementos relevantes para a estabilidade de um país. Contudo, existe uma pergunta que precede todas as outras: para quem existe a economia? A economia não pode ser um fim em si mesma. Deve ser um instrumento ao serviço da pessoa humana. Quando os números melhoram, mas uma parte significativa da população continua a viver na angústia diária da sobrevivência, impõe-se uma reflexão séria sobre o significado do progresso que estamos a celebrar. Há uma diferença fundamental entre prosperidade económica e bem-estar humano. Um país pode apresentar indicadores positivos e, simultaneamente, esconder bolsões de sofrimento, pobreza, exclusão e solidão. Os gráficos não choram. As estatísticas não sentem frio. As projeções financeiras não experimentam a humilhação de quem não consegue garantir uma refeição digna aos filhos ou de quem, depois de uma vida inteira de trabalho, tem de escolher entre aquecer a casa ou comprar medicamentos. Por isso, mais do que discutir se Portugal é um país próspero ou um país em sofrimento, talvez a questão decisiva seja outra: somos capazes de olhar para os mais frágeis e reconhecer neles o verdadeiro teste à qualidade moral da nossa sociedade? A tradição humanista e cristã sempre afirmou que uma comunidade política não se mede apenas pela riqueza que produz, mas sobretudo pela forma como cuida daqueles que possuem menos recursos, menos voz e menos poder. A dignidade humana não pode ser avaliada segundo critérios de rentabilidade. O valor de uma pessoa não depende da sua produtividade económica, da sua idade, da sua condição social ou da sua capacidade de gerar riqueza. Quando observamos idosos que vivem isolados, famílias que lutam diariamente contra a pobreza, crianças privadas de oportunidades fundamentais para o seu desenvolvimento, percebemos que existe uma distância entre aquilo que alcançámos materialmente e aquilo que ainda estamos chamados a construir enquanto comunidade humana. Talvez um dos maiores riscos do nosso tempo seja, precisamente, o de reduzir a realidade a indicadores técnicos. Os números são indispensáveis para governar, mas insuficientes para compreender a vida. Uma folha de cálculo consegue medir despesas, receitas e défices; não consegue medir a angústia de uma mãe que não sabe como alimentar os filhos, nem a solidão de um idoso que passa dias inteiros sem ouvir uma palavra amiga. É por isso que os povos necessitam não apenas de administradores competentes, mas também de líderes com visão humanista. Precisamos de governantes que saibam interpretar relatórios económicos, mas que não percam a capacidade de escutar o sofrimento humano. Precisamos de responsáveis públicos que conheçam as estatísticas, mas que nunca se esqueçam de que atrás de cada número existe um rosto, uma história, uma vida concreta. A política atinge a sua mais elevada nobreza quando se transforma numa forma de serviço. Não quando procura apenas equilibrar contas, mas quando procura equilibrar a justiça. Não quando se limita a gerir recursos, mas quando promove a dignidade humana. Não quando olha para as pessoas como encargos, mas quando as reconhece como o verdadeiro património de uma nação. O Evangelho recorda-nos uma verdade profundamente incómoda e libertadora: uma sociedade será julgada pela forma como tratou os seus membros mais vulneráveis. As crianças, os idosos, os pobres, os doentes e os esquecidos não são um problema a resolver; são uma responsabilidade a assumir e um apelo permanente à nossa consciência. Por isso, mais do que discutir ideologias, importa recuperar a centralidade da pessoa humana. Mais do que proclamar sucessos económicos, importa perguntar quem continua a ficar para trás. Mais do que celebrar indicadores, importa construir esperança. Portugal, não precisa apenas de crescimento económico. Precisa de crescimento humano. Precisa de solidariedade, de justiça social, de proximidade e de compaixão. Precisa de homens e mulheres que olhem para a realidade não apenas com os olhos da eficiência, mas também com os olhos do coração. Porque uma nação verdadeiramente grande não é aquela que apresenta os melhores números. É aquela que não abandona nenhum dos seus filhos à margem da estrada. E quando conseguirmos unir competência económica e humanidade, rigor financeiro e justiça social, desenvolvimento e dignidade, então poderemos dizer que estamos a construir não apenas um país mais rico, mas uma sociedade mais humana, mais fraterna e mais fiel àquilo que existe de mais sagrado: a pessoa humana.
Joaquim Gouveia - O problema da imigração também o preocupa. No seu entendimento que tipo de atitude poderia ser equacionada na resolução deste autêntico flagelo humanitário?
Diácono Rui Cunha Campos - Preocupa-me, e muito. Mas preocupa-me ainda mais a forma como, por vezes, se fala dos migrantes sem nos aproximarmos da sua dor, da sua história e da sua humanidade. É necessário ter prudência perante os falsos profetas do nosso tempo: aqueles que se apresentam como defensores do bem, da moral, da civilização ou até da fé cristã, mas que depois reduzem pessoas a rótulos, números ou ameaças. Quando deixamos de ver um rosto e passamos a ver apenas uma etnia, categoria, começamos a perder algo da nossa própria humanidade. A questão da imigração não pode ser resolvida apenas com slogans, nem com muros erguidos no coração. Exige inteligência política, cooperação internacional, justiça social e regras claras. Mas exige, antes de tudo, um olhar humano. Porque por detrás de cada migrante existe uma vida concreta, uma mãe que sonha, um pai que procura sustento, uma criança que espera um futuro, um ser humano que carrega feridas, medos e esperanças. A tradição cristã recorda-nos uma verdade desconfortável e luminosa ao mesmo tempo: ninguém é estrangeiro aos olhos de Deus. Todos somos peregrinos nesta terra. Todos somos filhos muito amados do mesmo Pai. Por isso, quando um cristão olha para um migrante e vê apenas um problema, corre o risco de esquecer que está diante de um irmão. Naturalmente, os Estados têm o direito e o dever de regular os fluxos migratórios, proteger as suas populações e garantir a ordem social. A caridade não elimina a responsabilidade política. Contudo, a segurança nunca pode servir de pretexto para a indiferença, nem a prudência para a desumanização. A verdadeira solução nasce quando a justiça caminha de mãos dadas com a misericórdia. Talvez seja por isso que, para algumas pessoas, se torne tão difícil rezar o Pai-Nosso. Porque cada vez que pronunciamos as palavras «Pai nosso», estamos a reconhecer que Deus não é apenas meu Pai, mas Pai de todos. E se Ele é Pai de todos, então ninguém pode ser excluído da nossa compaixão. Ninguém pode ser descartado da nossa fraternidade. Ninguém pode ser privado da sua dignidade. A grande questão não é apenas como resolver a imigração. A grande questão é saber que tipo de humanidade queremos ser. Uma humanidade que constrói pontes ou que multiplica fronteiras interiores. Uma humanidade que acolhe a dor do outro ou que se habitua a passar ao lado. Uma humanidade que reconhece em cada rosto a imagem de Deus ou que prefere viver fechada nos seus próprios medos. A história julgará as nossas políticas. Mas a consciência julgará o nosso coração. E, no silêncio de Deus, permanecerá sempre a mesma pergunta: quando encontraste o estrangeiro, viste nele uma ameaça... ou um irmão?
"Todas as crises da humanidade são, antes de tudo, crises de sentido, crises de relação e crises de amor"

Joaquim Gouveia - Para encerrarmos esta nossa tão elucidativa entrevista, quer pelas questões e suas respostas e pela oportunidade de perceber as ideias de um homem que fala em servir o outro como lema de vida, dê-me agora o privilégio de nos deixar a sua mensagem que, neste momento entenda, que é a mais importante para que o Homem, consiga ultrapassar esta “corda bamba”, onde se encontra. De resto, deixe-me agradecer a sua disponibilidade e enviar-lhe um fraterno abraço solidário com os valores que coloca na sua e na vida dos outros.
Diácono Rui Cunha Campos - Antes de mais, a minha gratidão pelas suas palavras generosas e o abraço fraterno que retribuo com igual estima. Mais do que uma entrevista, esta foi uma oportunidade para refletirmos juntos sobre o tempo exigente que atravessamos e sobre o lugar que cada um de nós ocupa na construção do mundo que havemos de legar aos que virão depois de nós, com a convicção de que só a fraternidade poderá resgatar a humanidade das suas divisões, dos seus medos e das suas indiferenças. E, se me pede uma última mensagem, gostaria de a deixar não como uma resposta acabada, mas como uma inquietação que continue a ecoar no coração de quem a escuta. Vivemos um tempo singular da história. Nunca o ser humano possuiu tantos meios para comunicar e, paradoxalmente, nunca experimentou de forma tão intensa a solidão; nunca dispôs de tanto conhecimento e, contudo, parece tantas vezes perdido quanto ao sentido da sua própria existência. Caminhamos sobre uma espécie de corda bamba, suspensos entre o progresso e a incerteza, entre a esperança e o desencanto, entre a tentação do individualismo e o apelo irrenunciável à fraternidade. Mas creio profundamente que a saída não virá de novas tecnologias, de estratégias económicas mais sofisticadas ou de sistemas políticos mais eficientes, embora todos eles tenham a sua importância. A verdadeira resposta continuará a nascer do coração humano. Porque todas as crises da humanidade são, antes de tudo, crises de sentido, crises de relação e crises de amor. O Homem só encontrará estabilidade quando compreender que não foi criado para viver fechado sobre si mesmo. A felicidade não é uma conquista solitária; é uma obra partilhada. Ninguém se realiza acumulando, mas oferecendo; ninguém cresce apenas recebendo, mas aprendendo a dar-se. A grande revolução de que o mundo necessita não é ideológica nem económica: é a revolução da compaixão, da proximidade e da responsabilidade pelo outro. Hoje, mais do que nunca, precisamos de homens e mulheres que se recusem a passar ao lado da dor alheia; que não se habituem à pobreza, à exclusão, à guerra, à indiferença ou ao sofrimento escondido atrás das portas fechadas das nossas cidades e das nossas famílias. Precisamos de pessoas que compreendam que cada ser humano é um mistério sagrado e que a dignidade de um só homem ferido diminui toda a humanidade. A este propósito, a grande conclusão da Encíclica Magnífica Humanitas de Leão XIV, apresenta-nos um horizonte luminoso: a humanidade reencontra a sua verdadeira grandeza quando descobre que foi feita para a comunhão, para a solidariedade e para o dom de si. O ser humano não alcança a plenitude pelo poder que exerce, mas pelo amor que oferece; não pela capacidade de dominar, mas pela coragem de servir. A grandeza humana manifesta-se quando cada pessoa reconhece no rosto do outro um irmão e uma irmã pelos quais é responsável. Por isso, a minha mensagem final é simples e exigente: não deixemos que o medo seja mais forte do que a esperança, nem que a indiferença seja mais forte do que a compaixão. O futuro não será construído pelos que observam de longe, mas pelos que têm a coragem de se aproximar, de escutar, de compreender e de amar. Talvez, no final da vida, não sejamos interrogados acerca dos nossos sucessos, dos títulos que alcançámos ou dos bens que acumulámos. Talvez a grande pergunta seja apenas esta: quanto amor deixámos acontecer através de nós? E termino com um dos mais belos pensamentos de São João da Cruz, do qual sou apaixonado, que permanece como um farol para todos os tempos: «Ao entardecer da vida, seremos julgados pelo amor.» Que esta verdade nos inquiete, nos transforme e nos inspire a viver de tal modo que a nossa passagem pelo mundo deixe menos escuridão e mais luz, menos divisão e mais encontro, menos egoísmo e mais humanidade.


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