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Grande entrevista Dr. Luís Paulino Pereira

  • Foto do escritor: joaquimgouveia06
    joaquimgouveia06
  • 11 de mar.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 13 de mar.

“UM MÉDICO DE BATA BRANCA SÓ

PODE ESTAR AO SERVIÇO DA VIDA”


O dr. Luis Paulino Pereira lançou há cerca de duas semanas o seu mais recente livro "Dos palcos da vida à Casa do Artista" onde, desde há cinco anos exerce funções de médico de clinica geral. O livro retrata vários episódios da sua vida profissional e é dedicado, em singular homenagem, ao saudoso ator setubalense Luis Aleluia, cujo contributo para a qualidade e bem estar da Casa do Artista e seus utilizadores foi, também, determinante pela sua coragem e fraternidade em prol dos seus colegas das artes. O Dr. Luis Paulino Pereira é, também, setubalense filho do antigo e prestigiado cirurgião Dr. Paulino Pereira, que entre outros cargos, dirigiu o Hospital de S. Bernardo. Aproveitando o momento tão caloroso e humanista que o lançamento de um livro com tamanho significado sempre alcança, convidámos o autor para uma conversa não apenas sobre a sua nova obra literária, mas viajando, também, por outros temas relacionados com a sua profissão de médico. O resultaddo aqui fica para leitura que recomendamos. Já agora, aproveitámos para lhe sugerir a apresentação do livro na nossa cidade muito em breve.


Joaquim Gouveia - “Médico dos artistas”, um epíteto que lhe foi atribuído pela sua enorme contribuição como clínico à causa dos que entregaram a sua vida aos palcos. Depois de uma carreira de serviço público, esta nova condição junto das gentes das artes, o que lhe trouxe de novo?

Dr. Luis Paulino PereiraUm conhecimento mais aprofundado destes seres humanos. Os artistas estão mais “treinados” para suportar o sofrimento do que as outras pessoas mercê do seu trabalho no dia a dia em que tantas vezes são precisas forças adicionais para suportar dificuldades, uma vez que essas dificuldades não podem passar para cima dos palcos. Com a minha vinda para a Casa do Artista, vim a confirmar aquilo que sempre defendi: fazer medicina é muito mais do que receitar medicamentos. Em primeiro lugar é preciso saber ouvir e depois ter presente que uma palavra, um sorriso e um carinho são essenciais.

JG - O seu último livro “Dos palcos da vida à Casa do Artista”, relata histórias pessoais que, de certa forma, lhe moldaram uma carreira tão preenchida e onde nos deixa descobrir, nas suas páginas, o sentido da medicina como contributo para o bem estar físico, mental e social de toda a gente. Ao mesmo tempo disponibiliza à Casa da Poesia, os frutos da venda da obra. É esta honestidade que nos torna melhores e maiores?...

Dr. LPP – Nem melhores, nem maiores. Cada qual procede de acordo com a sua própria consciência. Na vida há imperativos de consciência que marcam a nossa conduta. Eu acho que esses imperativos estão muito bem definidos no meu procedimento do dia a dia.

JG - A vida do Luís Aleluia, ao qual dedica este livro em homenagem, foi mais que subir a corda a pulso. A corda parecia ensebada, mas a sua determinação foi sempre mais forte para trepar até ao cimo. Mas a partida que programou deixou-nos secos, completamente vazios, sem entendimento possível, prostrados. O suicídio é coisa séria e preocupante…

Dr. LPP - O suicídio é um problema sério e muito preocupante. É a consequência mais grave de uma doença psíquica arrastada e muitas vezes silenciosa da qual quase ninguém se apercebe. Preocupante na medida que a saúde mental dos portugueses está longe de estar controlada devido às insuficiências tanto do setor público, como do privado.


"O LUIS ALELUIA ERA UM HOMEM DE CAUSAS"



JG - Contudo, nos vários momentos em que teve ocasião de privar com o Luis Aleluia ficou com a ideia de que se tratva de um ser humano excecional, um verdadeiro voluntário das causas humanas como demonstrou em todo o seu trabalho na Casa do Artista. Um homem que deixou um legado e muita saudade...

Dr. JPP - Luís Aleluia era um homem de causas que não se poupava a meios par atingir os fins. Na Casa do Artista deu o melhor de si próprio para ajudar os outros e a obra muito lhe deve.

JG - “Aprender com a experiência dos mais velhos ajuda-nos a crescer”. Esta é uma afirmação que lhe pertence. Mas nos dias de hoje a sabedoria dos mais velhos pesa no Orçamento de Estado e são acusados de “geração grisalha”, que só dá despesa e trabalho. É o famoso “mundo cão” que se vai instalando pé ante pé e corrói os valores

Dr. LPP – Estamos perante um problema cultural. Na civilização oriental o “velho” é respeitado por todos, direi mesmo venerado, pois representa a sabedoria, a experiência e a mais-valia em quem toda a gente se revê. No ocidente é precisamente o contrário, o velho é um peso, não produz, não serve para nada. Esta é a realidade.

JG - “A intenção é ajudar as pessoas a pensarem pela sua cabeça e a encontrarem pistas para a resolução de muitos problemas de saúde". Outra frase que proferiu em entrevista a um semanário. Mas é possível que isso aconteça num mundo tão ritmado de acontecimentos penosos e trágicos?

Dr. LPP - Tudo o que refere infelizmente é verdade. Mas é preciso saber viver um dia de cada vez com as dificuldades que se tem e as possibilidades de cada um. Citando J. Bragança, um grande teólogo que conheci, “Não custa nada ser-se santo quando tudo corre bem.”.

JG - Reformei-me do Estado, mas não me reformei nem da Medicina, nem dos amigos". Quando se intervém em sociedade é difícil dar descanso até ao pensamento. Haverá, ainda, muito caminho na sua vida para não parar, certo?

Dr. LPP - Acredito que sim. Ainda que de uma forma modesta penso que posso dar o meu contributo para ajudar os outros a refletirem no presente em relação às incógnitas do futuro. E a avaliar pelos comentários que me chegam após os meus artigos no jornal, o feedback é francamente positivo.

JG - O Serviço Nacional de Saúde tem sido alvo de muito descrédito por gente que apoia um serviço de saúde privado. Há falhas evidentes, há momentos mais complicados no SNS, mas acredita que o serviço privado estaria em condições de dar uma resposta mais capaz aos doentes? Por outro lado, pagar serviços aos privados pelas lacunas do SNS, não enfraquece o próprio serviço público, ou seja, esse pagamento não deveria reverter para a melhoria do próprio SNS?

Dr. JPP - Muito se pode dizer (e tem sido dito), do SNS, sobretudo em confronto com o setor privado. O mais importante é frisar que é urgente uma restruturação profunda do SNS, de modo a torná-lo moderno, forte, competitivo e que dê resposta aos problemas de saúde dos portugueses. Antes disso ser feito, ou seja, se continuarmos a pôr paninhos quentes em vez de remodelar, tudo se vai agravando.

JG - O antigo Serviço Médico à Periferia, não faria hoje, de novo, muito sentido quer no atendimento das populações mais, privadas de médico, como para a própria formação de novos médicos como aconteceu antes do SNS? 

Dr. LPP  - Não posso estar mais de acordo. É como diz.

JG - A morte assistida é o direito à decisão de viver com qualidade até que a doença agudize a dor ao ponto de, não sendo já suportável, não fazer parte do sentido que damos à própria vida?

Dr. LPP - Um médico de bata branca, ao contrário de um licenciado em Medicina, só pode estar, por definição, ao serviço da vida. Por isso, seja em que circunstância for, sou totalmente contra a chamada morte assistida. A solução passa pelo investimento nos cuidados paliativos que, no momento presente, ainda não chegam a todos. Por outro lado, a medicina tem hoje respostas para o dito sofrimento insuportável. Em resumo, tudo é aceitável, exceto matar.

JG - Ainda todos precisamos de um abraço como no tempo do Covid, onde o doutor sublinhou esta afirmação na apresentação de um dos seus livros?

Dr. LPP – O abraço é essencial e muitas vezes decisivo no relacionamento entre os homens e na relação médico doente. O contato físico faz muitas vezes a diferença. O abraço que aproxima, o sorriso que conforta e a palavra certa que traz esperança.


"SETÚBAL CONTINUA A SER A CIDADE DOS MEUS ENCANTOS




JG - Pessoas como a dra. Manuela Eanes, ou Júlio Isidro, já assinaram prefácios dos seus livros. Gente importante diz sempre coisas importantes, necessárias, justas?...

Dr. LPP – A Dra. Manuela Eanes é uma humanista nata com um apurado sentido de missão. Comungamos dos mesmos valores e é uma mulher de causas em quem me revejo. Júlio Isidro é um homem da comunicação social com um passado invejável de comunicação de excelência. Nada lhe escapa e tem um forte sentido de solidariedade. Sinto-me muito honrado com os prefácios de cada um.

JG - Há alguns anos atrás, quase que em jeito de brincadeira, o conceituado dr. Eduardo Barroso afirmou: “A saúde não augura nada de bom”. É um leão como eu… Afinal a saúde é uma rasteira em potencia, Concorda?

Dr. LPP - Ser saudável é aquilo que todos desejamos. Contudo, ninguém pense que, apesar de ter saúde, está livre de poder ter amanhã qualquer problema grave de consequências imprevisíveis. Mas também não é obrigatório que venha a contrair qualquer patologia. Portanto, há que cuidar sempre da nossa saúde.

JG - No futuro o “Médico dos artistas” ainda chegará a palco, ou continuará como “bombeiro de serviço”?

Dr. LPP - A palco? Seria muito difícil pois sou demasiado transparente e deixo-me levar pelas emoções. Sinto-me mais útil como “bombeiro de serviço”.

JG - Para concluirmos a nossa conversa. E Setúbal, continua no seu GPS? Que qualidades mais destaca agora na nossa cidade?

Dr. LPP - Setúbal continua a ser a cidade dos meus encantos. Uma cidade que cresceu, modernizou-se, mas sem perder a sua essência, as suas raízes e o seu ADN. Em minha opinião isso deve- se, em grande parte, à ação de uma pessoa, a Dra.  Maria. das Dores Meira.



"Dos palcos da vida à Casa do Artista"


Sinopse


A beleza da medicina é transformar desencantos, fracassos e outros males do passado em vidas novas”.

Quem o diz é um senhor de seu nome Luís Paulino Pereira que faz da bata branca uma missão… ajudar a viver quem sofre e no caso particular dos artistas, criar condições a esta “raça” onde a regra é “o espectáculo tem que continuar”, para que o pano suba sempre para prazer e alegria dos espectadores.

Só podia ser médico e apaixonado pelo teatro, o autor deste saboroso livro Dos palcos da vida até à casa do artista. A mãe, professora liceal, encenava teatro do bom aos seus alunos enquanto o pai, médico, salvava vidas no teatro de operações, de quem já não via saída para os seus problemas de saúde.

Este livro é um repositório de depoimentos e estórias de quem tem vivido para a humanização da medicina, longe de estatísticas e objectivos de quantos pacientes por hora.

Nestas linhas, boas de ler e sonhar, conta a história deste médico de família que adoptou essa outra enorme família de gente com a estranha forma de vida de ser artista.

E assim nasceu, numa circunstância que não vos relato, a designação certeira, justa e oportuna do “Médico dos Artistas”.


Júlio Isidro,

do Prefácio

 
 
 

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