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Grande Entrevista (dr. VA)

  • Foto do escritor: Joaquim Gouveia
    Joaquim Gouveia
  • 20 de jun.
  • 16 min de leitura

Dr. Vitor Augusto

Médico, autarca, membro do associativismo e da cultura setubalense



UM HOMEM DA CIDADE


 

O Dr. Vitor Augusto é figura de destaque na cidade de Setúbal, consequência do seu envolvimento em projetos e iniciativas de índole cultural e associativas, para além da sua profissão de Médico Internista, no Centro Hospitalar de Setúbal, no Hospital S. Bernardo. Desde os tempos em que participou nas atividades teatrais do já extinto Grupo de Teatro Teia, onde conheceu atores, autores, musicos e gentes diversas relacionadas com a arte que o levou pelo país fora em momentos em que muitas aldeias do interior nunca tinham assistido a uma peça de teatro. No associatvismo renovou o seu cargo de Presidente da União Futebol Comércio e Indústria, de Setúbal e pertence a várias direções de diversos organismos. Nas últimas eleições Autárquicas de outubro, foi eleito membro da Assembleia Municipal de uma Junta de Freguesia da cidade. Como homem da medicina, conhece os pormenores da saúde que apoquentam e fazem recear pela extinção do Serviço Nacional de Saúde, o que seria adoptar um sistema tal qual o americano, como explica em detalhe. O Dr. Vitor Augusto, por tudo isto e o que ainda falamos nesta entrevista é um homem considerado por todos os setubalenses. Num àparte devo acrescentar que somos amigos de adolescência e conhecemos bem esta nossa cidade, onde a proliferação de barracas de madeira e a ausência de saneamento básico em vários bairros era uma realidade, mas que, felizmente, está ultrapassada. Pela sua condição de homem da cidade e pela minha de jornalista atento ao valor acrescentado por diversas formas à nossa comunidade, a entrevista surge e recomenda-se. Obrigado amigo!

 

Joaquim Gouveia O Dr. Vítor Augusto é reconhecido na nossa cidade de Setúbal, como uma das suas figuras de enorme prestígio. Para além dos muitos amigos que a vida te foi proporcionando conhecer, a forma como tens gerido a tua vida em termos sociais, na política e, sobretudo, na tua condição profissional, são a base dos elogios que te dirigem como reconhecimento. Sendo médico de renome em Medicina Interna, acreditas que a tua atividade tão dinâmica e incansável é o verdadeiro “elixir” do teu bem estar físico, mental e social?

Dr. Vitor Augusto - O Professor Abel Salazar, que dá nome a uma Escola de Medicina portuguesa, afirmou um dia que “um médico que só saiba Medicina, nem Medicina sabe”. Esse pressuposto é deveras inspirador para a prática da cidadania como fonte do saber holístico. A aliança entre a convivência com o quotidiano nas suas diversas vertentes e o conhecimento do ser humano na sua riqueza maior representada pela diversidade, enriquece o humanismo, o altruísmo e a entrega à comunidade sem pensar em moeda de troca. Numa sociedade virada para o seu umbigo, com estigmas de comportamento autista, a tentativa de doarmos um pouco de nós mesmos é um alimento porventura incompreendido e cada vez mais raro que funciona como um elixir e um bálsamo enquanto recompensa.

Joaquim Gouveia - Concorreste como cabeça de lista à Junta de Freguesia de S. Sebastião, nas últimas eleições autárquicas, pelo “Movimento Setúbal de Volta”. No entanto não conseguiste sair vencedor. Certamente, terás ponderado aceitar essa candidatura depois de uma reflexão cuidada e honesta para contigo próprio, ou seja, perceberes se a freguesia ganhava um bom presidente de junta, mas acabarias por limitar o tempo disponível a um médico com a tua qualidade e experiência. O que acabou por mais pesar na escolha de avançares com a candidatura?.. 

Dr. Vitor Augusto - A decisão não foi fácil nem imediata. A ponderação de diferentes constrangimentos originados por compromissos assumidos como a Presidência da Direção do União Futebol Comércio e Indústria, a docência na Escola Superior de Saúde, desde 2001, a carreira hospitalar, eram desafios que foram colocados em cima da mesa desde o contacto inicial. Não escondo a surpresa pelo convite e o conflito entre prós e contras que originou até à resposta definitiva. Pesaram no limite a honra na escolha, a dimensão do mandato de presidir aos destinos de uma das maiores freguesias do país, onde resido desde os 4 anos de idade, cuja sede antiga na Avenida Jaime Cortesão, conheci pela mão da minha mãe, o carácter independente do Movimento, a obra realizada pela figura central enquanto Presidente da edilidade, trazendo Setúbal para um estatuto de visibilidade nunca antes atingido. Durante quase um ano de campanha, tentei conciliar com os restantes desempenhos, sacrificando a ligação ao Instituto Politécnico e reduzindo as horas de trabalho voluntário associativo. O contacto assíduo e abrangente com a população em ações de rua e com dirigentes de entidades sediadas na freguesia, emprestaram uma solidez acrescida do tecido social, da sua heterogeneidade e multiculturalidade, não menos complexidade. O programa cultural, desportivo e de lazer era rico e inovador e esse é o lamento superior da não obtenção do objetivo eleitoral. Em democracia o povo escolhe.

Joaquim Gouveia – Apesar de não saíres vencedor manténs uma presença na Assembleia de Freguesia, num lugar que se costuma dizer ”confinado à oposição”. Qual o maior dever ou importância que sentes na tua condição de membro da Assembleia: contrapor as propostas do Executivo, ou sugerir novas propostas para a qualidade de vida da própria freguesia? Sentes que existe espaço na junta para esse propósito democrático?

Dr. Vitor Augusto - O estatuto de oposição levou por intermédio da bancada “Setúbal de Volta” à revisão do Regimento da Assembleia de Freguesia e a alterações às disposições relativas à política de proteção de dados inerentes. Desde a primeira hora no acto de tomada de posse, assumimos um estilo de oposição seletiva, construtiva, mas combativa ao qual pretendemos manter-nos fiéis tendo viabilizado o orçamento, os contratos interadministrativos e atribuição de competências, estes últimos negociados com o executivo camarário. Temos marcado presença em iniciativas da autarquia, eventos concelhios, comemorações e efemérides de índole associativa numa preocupação de proximidade. A nível interno promovemos reuniões interfreguesias temáticas e de grupo, bem como da bancada representativa para discussão e análise de assuntos relacionados com a Junta de Freguesia. Recentemente propusemos incremento de acções de formação para a população sénior no âmbito da prevenção de quedas, através de competências onde se insere um dos membros do projecto “Setúbal de Volta”. A inexistência de maioria absoluta no elenco executivo e na Assembleia de Freguesia, implica um processo de permanente aprendizagem democrática e de promoção do diálogo e participação.


"O associativismo tem em si um chamamento longe dos prémios ou das compensações materiais"



Joaquim Gouveia – Teres vivido durante a infância e juventude na bem conhecida Ladeira do Forte da Estrela, que não proporcionando, propriamente, um ambiente bairrista, representou, certamente, para ti  o ambiente de “vizinhança” que muito se viveu em tempos mais longe dos nossos dias. Essa condição de proximidade entre gentes que moravam lado a lado por toda a rua foi, talvez, fundamental na construção da tua personalidade apoiada na humildade e generosidade que todos te reconhecemos? Há um sentido fraterno neste tipo de coabitação que fica para a vida?

Dr. Vitor Augusto - O ambiente da nossa rua foi e persistiu como ímpar e singular. De tal forma que todos os anos desde a nossa adolescência nos juntamos num almoço ou jantar comemorando a amizade e cumplicidade que cultivamos. O Café Bissau era o nosso ponto de encontro de gerações, um lugar privilegiado de convívio genuíno e amizade sem limites. As brincadeiras de infância e os jogos tradicionais como o berlinde, o pião, o espeta, o arco, os carrinhos de rolamentos, criaram um espírito de união e fraternidade que perdura. Na rua inclinada jogávamos futebol e hóquei no tempo em que o parque automóvel era escasso e o trânsito raro. Acendíamos e saltávamos as fogueiras nos Santos Populares. Nas traseiras, hoje urbanizadas, descobrimos o desenlace da amizade profunda, inventando o nosso reino onde cabia o mundo inteiro. Muitos são aqueles amigos que partiram ainda jovens, mas a memória substitui sempre o esquecimento. As histórias das peripécias são inesgotáveis e são pretexto para a gargalhada num mistério de primeira vez. Vivi num bairro operário na proximidade da Estrada Nacional, onde passava a Volta e o Rally de Portugal de outrora, assistindo às mudanças sociais e políticas após o 25 de Abril, sendo o primeiro universitário da rua. Ajudou-me a entender o país e o mundo num espírito de humildade e solidariedade, empatia e alegria.

Joaquim Gouveia – A tua passagem pelo teatro é memória que ficou a quem, como eu ou o João Duarte Victor, por exemplo, acompanhámos durante a nossa juventude. Tiveste uma passagem pelo Grupo de Teatro “Teia”, que tinha um pequeno auditório no Largo José Afonso. De que forma relembras essa experiência onde conheceste gente importante do teatro em Setúbal? A cultura já tinha pulsação presente em ti…

Dr. Vitor Augusto - Integrei A TEIA, com onze anos de idade na companhia da minha irmã, por intermédio e convite do Fernando Guerreiro, companheiro de trabalho do meu pai, após uma experiência teatral no Grupo Desportivo Setubalense “Os 13”. No teatro conheci pessoas fantásticas com um sentido de entrega à missão de levar a representação a populações e locais que nunca haviam assistido a qualquer espetáculo de Norte a Sul do país, nos Açores, no interior, em sítios recônditos, em coletividades e ao ar livre, em festivais, feiras e comemorações. Cedo conheci a experiência do trabalho em equipa, aprendi o papel insubstituível que a arte de Talma, induz em quem interpreta e no público, o trabalho incansável dos ensaios complementado com o humor, o encanto e as emoções da interação, o frenesim dos bastidores na preparação do guarda-roupa e maquilhagem, a beleza da luminotécnica e sonoplastia, da montagem do espetáculo.Convivi com gente fenomenal , seres humanos especiais, que respiravam teatro, como Fernando Guerreiro, mais tarde actor do TAS, TIL e GATEM, onde foi fundador; Carlos Rodrigues (Manel Bola), mais tarde actor e dirigente do TAS, premiado como Melhor actor Ibérico, Maria Clementina, co-fundadora da TEIA,  Álvaro Félix, que se iniciou no Grupo “Presença” e msmo Nuno Melo e Filomena Gonçalves, que passaram pelo TAS. A marca que A TEIA, deixou em todos os que participaram no projecto é eterna.

Joaquim Gouveia – Depois acontece a tua entrada no movimento associativo da cidade com várias passagens por coletividades e clubes, principalmente. De momento és presidente reeleito do União Futebol Comércio e Indústria e integras várias outras direções de organismos diversos da cidade. O que te motiva a reafirmação constante da palavra “presente!”?

Dr. Vitor Augusto - Será um apelo. Dificilmente explicável à luz da razão. O propósito de altruísmo e do sentimento de servir os outros. De modo gratuito e voluntário. Com impacto na vida pessoal, profissional e familiar, mas irresistível numa tentação de contribuir para um objectivo colectivo. Muitas vezes há quem pense que se trata de protagonismo. Outros fazem o julgamento sumário e precipitado de ganhos financeiros. Não necessito, como devem compreender, de cargos associativos para ganhar currículo ou realce social. Tenho uma carreira profissional clínica e académica exigente e remunerada. Claro que me esqueço a maior parte do tempo de viver no contexto da diversão ou do usufruto de lazer, de alguns hobbies, do tempo para os amigos e familiares. Mas o associativismo tem em si um chamamento longe dos prémios ou das compensações materiais. O inverso de presente será ausente e a natureza tem horror ao vazio.

Joaquim Gouveia – Quando tens tempo para descansar e poder observar a cidade de Setúbal e todas as suas dinâmicas construídas entre o que a comunidade pode exigir à cidadania, que observação te parece mais lógica entre o dever e o haver?

Dr. Vitor Augusto - A cidade de Setúbal tem uma localização geográfica singular com beleza natural circundante na Serra e no Estuário. No capítulo social padece de assimetrias evidentes e de um pendor multicultural diverso e inexplorado. Carece de massa crítica construtiva e esclarecida em muitas situações o que não abona em favor do progresso e modernização.

Em termos de infraestruturas culturais e desportivas estamos a uma distância significativa entre as necessidades e as ofertas. Importa resolver o problema do ruído urbano na dimensão de factor preditivo de deficiente saúde mental e física dos habitantes. Um regulamento municipal exigente e uma vigilância e fiscalização de vulto são prioritários. A climatização de áreas da cidade com conceito de floresta urbana autóctone e criação de zonas e corredores verdes devem presidir nas prioridades. A má qualidade do ar em Setúbal, deve ser encarada como matéria de abordagem pluridisciplinar de saúde pública. A criação em conjunto com a Associação de Proprietários, a edilidade e o Governo Central de uma política de habitação a preços acessíveis é, para mim, o principal problema social do segundo quartel do século XXI. O desenvolvimento da política portuária e da aproximação e aproveitamento lúdico da zona ribeirinha serão certamente assuntos unânimes. O anúncio de uma candidatura de Setúbal a capital europeia da Cultura, a ser conseguida, terá o mérito de mobilização, recrutamento e empoderamento dos agentes respetivos, enriquecedor da participação e conquistas alcançadas.

 Joaquim Gouveia – Por força adversa à tradição e vontade do povo setubalense, corremos o risco de perder o direito a frequentar 5 praias da Arrábida, se a Justiça, der razão à empresa que, neste momento, detém a chamada Herdade da Comenda. És de opinião de que a população já deveria estar mais esclarecida e preparada para estar ao lado da APA (Agência Portuguesa do Ambiente) e da própria Câmara Municipal, na defesa das suas praias? Temes por uma decisão desfavorável para os setubalenses? E se isso vier mesmo a acontecer?...

 Dr. Vitor Augusto - Setúbal é uma zona de atração turística por excelência motivada pela riqueza das suas praias. Em termos históricos a Tróia, que pertence em termos administrativos ao concelho de Grândola, foi a pérola da comunidade sadina durante décadas, eleita como a estância predileta da população, nos anos sessenta e setenta destino de turismo britânico, francês e escandinavo. Com a implementação de preços inflacionados tornou-se impraticável às famílias fazer a travessia do rio. A festa de Nossa Senhora do Rosário de Troia passou a estar em causa colocando em risco de extinção a tradição da comunidade piscatória do culto religioso e festividades do mar. A tentativa gorada de interdição do Parque da Comenda, no último mandato autárquico surge agora de novo a assombrar o acesso às praias, retirando o direito de usufruto público e colocando-lhe a etiqueta de espaço privado. Urge uma decisão judicial que descomplique o assunto e devolva uma solução que não permita a entrega nas mãos de proprietários o que deverá ser de todos. Em caso de decisão desfavorável terão que ser esgotados os recursos jurídicos nomeadamente a nível europeu.

 

"A saúde é uma utopia que congrega o bem-estar físico, psicológico e social. É o estuário e a foz de muitos afluentes"

 

 

Joaquim Gouveia - Falemos agora sobre a tua condição de Médico, que exerces, neste momento, como Internista no Centro Hospitalar de Setúbal/ULSA. Tendo em conta que estás perto de doentes que todos os dias dão entrada no Hospital de S. Bernardo, quer para as Urgências, como para consultas, operações, internamentos e outros cuidados, preocupa-te a possibilidade de um dia o Serviço Nacional de Saúde, se extinguir por razões que se mantêm, por enquanto, como nuvem muito negra sobre o país? Que consequências, no teu entender, serão imediatas?

 Dr. Vitor Augusto - A extinção ou a tentativa de minimização a um grau residual do SNS é um potencial risco que advém de posturas políticas geradas nas últimas décadas de modo indolente, mas indisfarçável. Portugal é um país com graves dificuldades económicas e índices de pobreza, designadamente nas franjas mais vulneráveis da infância e idosos, incentivadores de problemas de saúde importantes. A ausência de alternativas à prestação de cuidados de saúde implica que seja o SNS, o suporte basilar e competente no diagnóstico, prevenção, tratamento e reabilitação. A incapacidade de promover a cobertura de médicos de Medicina Geral e Familiar, ao longo de diferentes legislaturas é o cerne maior da saúde no nosso país, comprometendo o acompanhamento na componente materno-infantil, na triagem de doenças crónicas prevalentes, na vacinação e nos cuidados domiciliários praticados pelas equipas comunitárias de Enfermagem. Temo pelo futuro e como médico que abraçou a Medicina Pública, ao longo de quarenta anos, custa-me ver a desmotivação de profissionais e o percurso vigente no SNS.

Joaquim Gouveia – É que bem vista a condição para que o SNS, possa fechar portas, basta que a AD e o Chega, se unam com esse objetivo. Afinal como se poderá evitar que essa tragédia aconteça para a população do país?

Dr. Vitor Augusto - O SNS transformar-se-à num sistema similar ao modelo norte-americano em que existem dois pesos e duas medidas naos cidadãos nos cuidados prestados. Uma Saúde para os pobres e excluídos e outra para os dotados de recursos financeiros, minoritários e privilegiados.

Joaquim Gouveia – Tendo em conta o envelhecimento gradual da população em Portugal, e não sendo a nossa cidade exceção, quais são, na tua opinião, os problemas que mais preocupação apresentam em termos de saúde pública em todo o concelho de Setúbal?

Dr. Vitor Augusto - A água pode correr no processo histórico duas vezes debaixo da ponte. Os níveis de miséria social e económica, a deficiente educação cívica e crise de comportamentos irão reforçar problemas como a sinistralidade rodoviária e laboral, o alcoolismo e tabagismo como factores preditivos de mortes e patologias evitáveis, o aumento de incidência registada de doenças sexualmente transmissíveis, o acentuar da tuberculose como doença infecto-contagiosa em consequência da pobreza, desnutrição e partilha de habitações. Nunca esquecendo a saúde mental como doença da civilização manifestada por depressões, ansiedade e perturbações do sono. O envelhecimento da população acarreta inevitavelmente a ocorrência de doenças crónicas bem como quedas e demências com consequente dependência. Perante a falta de cuidadores pessoais e institucionais para fazer face à inversão da pirâmide etária.

Joaquim Gouveia – Se o Pacote Laboral, que o Governo vai fazer avançar na Assembleia da República for aprovado, estou convencido que a saúde do povo será a primeira a sofrer as consequências quer físicas, como psicológicas. Como Médico de reconhecido valor fraterno e solidário, com que expectativa estás a encarar esta possibilidade?

Dr. Vitor Augusto - O Pacote Laboral inclui um conjunto de medidas que a serem implementadas originarão um recuo nos direitos sociais em nome de um pretenso crescimento económico. Poderei destacar a saúde materno-infantil, aleitamento materno e depressão pós-parto, dos despedimentos e empobrecimento advindo, da repercussão no abandono e insucesso escolar em famílias desfavorecidas, de chagas sociais como a violência interpessoal, os consumos excessivos e a falta de condições de segurança no trabalho. Será a ponta de um novelo infindável.

Joaquim Gouveia – Para finalizarmos esta nossa bem agradável,  esclarecida e oportuna  conversa. Portugal está doente?...

Dr. Vitor Augusto - A saúde é uma utopia que congrega o bem-estar físico, psicológico e social. É o estuário e a foz de muitos afluentes. A saúde dos portugueses inclui muitos pontos críticos. A obesidade infantil, no contexto do excesso ponderal que afecta largos espectros da população, designadamente os pobres pelos comportamentos alimentares contemporâneos, a gravidez na adolescência, a recusa da educação sexual e para a cidadania por preconceitos anacrónicos, a percentagem de casos sociais a ocupar as camas de internamento, os tempos de espera nas urgências por falta de soluções a montante, a deficiente resposta por atraso do INEM, a crise nas urgências obstétricas. O português começa a ser alvo de inoportuna atenção à hora do nascimento. Mas o primordial problema de saúde colectiva será o ódio, a intolerância, a violência que assume estatuto de crise de identidade e o desmoronar da vivência como nação.


Para melhor reconhecimento do valor do Dr. Vitor Augusto, nas suas várias e decisivas contribuições para a medicina, cultura e associativismo da cidade de Setúbal, convidámos três outros setubalenses, cada um de uma área diferente, para prestarem o seu testemunho ralativamente ao nosso entrevistado, a quem mais uma vez agradecemos a disponibilidade e generosidade.


“TU ÉS UMA PESSOA QUE, EFETIVAMENTE, É UM MODELO PARA TODOS NÓS” (Dr. José Poças)


"Caro Vitor. Esta colaboração que me pediram de surpresa é também para ti uma surpresa. E aquilo que eu queria dizer a respeito do médico, que foi nessa versão que me pediram, aliás, é na versão que eu te conheço melhor. Tu és uma pessoa em que os teus colegas, perante a tua postura, se podem rever. Os teus doentes, seguramente, e se sentirão apoiados. Temos tido alguns doentes em comum e eu, como teu colega, quero aqui realçar o teu papel inestimável que tiveste em dois momentos que nós partilhámos, não exatamente no exercício da medicina. O primeiro foi na Direção Médica do hospital, em que estivemos os dois, e tu foste uma pessoa que sempre demonstraste solidariedade com as posições que tomámos em favor do hospital. E a segunda que queria realçar foi durante a crise da pandemia, em que, na primeira fase, houve uma comissão presidida por mim e em que eu, assim como o Carlos Carvalho, tive em ti um dos meus assessores e um dos meus colaboradores. E, nessa qualidade tripla, como médico e como participante nesses dois momentos que foram muito importantes também para a minha vida e, de alguma forma, para a cidade e para o hospital, eu queria prestar uma homenagem, porque foi isso que me pediram, e uma justa homenagem, no sentido em que tu és uma pessoa vertical, és uma pessoa competente e és uma pessoa que efetivamente é um modelo para todos nós. Eu sei que tens tido vários internos, e alguns deles eu conheço, e, portanto, és um modelo de médico que infelizmente cada vez vai rareando mais. E, portanto, um grande abraço do teu colega Poças. Muito obrigado."


"HOMENAGEM A UM HOMEM DE CAUSAS; O MEU AMIGO DR. VITOR AUGUSTO" (Duarte Vitor, diretor/ator do Teatro Animação de Setúbal)


 “Há homens que deixam uma marca indelével na comunidade pela força do seu trabalho, mas há outros, mais raros, que o fazem pela generosidade do seu caráter e pela entrega genuína ao bem comum. O meu grande amigo, Dr. Vítor Augusto, pertence a esta nobre e restrita categoria.

Conheço-o e admiro-o há muitos anos. Ao longo deste caminho partilhado, tenho testemunhado a sua dedicação incansável a Setúbal e aos setubalenses, desmultiplicada em tantas frentes cruciais:

Na Medicina, onde cuida e serve com a humanidade que lhe é intrínseca;

No Desporto e Associativismo, enquanto Presidente da Direção do histórico União Futebol Comércio e Indústria, defendendo os valores do desporto e a identidade da nossa terra;

Na Cidadania e Política Local, como Deputado na Assembleia de Freguesia de S. Sebastião e líder do movimento "Setúbal de Volta", dando voz aos anseios da população com a coragem e a clareza de quem não teme lutar por aquilo em que acredita.

Mas a nossa história tem uma raiz muito própria, plantada algures no tempo da Teia, saudoso grupo de teatro setubalense. Foi o teatro de amadores que nos uniu. Uma cumplicidade nascida entre o palco e os bastidores da paixão pelas artes que, felizmente, resistiu ao passar dos anos e continua viva ainda hoje. Mudaram-se ligeiramente os papéis, mas não a essência: ele mantém-se como um espectador atento e generoso; eu continuo como ator e encenador, mas sempre com o privilégio de saber que tenho na plateia um amigo de todas as horas.

O Vítor é o verdadeiro exemplo de um homem de causas. Alguém que não se limita a ver a vida passar, mas que se envolve, que constrói, que defende os outros e que eleva o nome de Setúbal todos os dias.

Ao Dr. Vítor Augusto, ao médico, ao dirigente, ao político, mas acima de tudo, ao homem de cultura e ao amigo de sempre, a minha mais profunda admiração e o meu mais sincero obrigado. Que o teu dinamismo e lealdade inabalável continue a inspirar-nos por muitos e bons anos”.


“ESPIRITO DE MISSÃO ALTRUÍSTA” (Carlos Branco – associativista/autarca)

 

No reconhecimento do trabalho de Vítor Augusto, como dirigenteassociativo destaca-se o seu papel essencial no desenvolvimentocomunitário, desportivo ou cultural.O Dr. Vítor Augusto é uma referência de liderança, dedicação e éticano associativismo em Setúbal, destacando-se pelo seu profundo sentidode missão pública. A sua reeleição como presidente da direção do UniãoFutebol Comércio e Indústria, mesmo depois de, conscientemente, nãoconseguir a permanência no Campeonato de Portugal, mais pelasinsuficiências estruturais do que pelos valores qualitativos dos seusatletas, reflete a confiança da comunidade no seu trabalho rigoroso,que teve oportunidade de demonstrar. O seu percurso demonstra que o associativismo é, para si, uma verdadeira causa ao serviço da cidadania.Menciono porque lhe é devido, os principais pontos que fundamentam um elogio à sua postura como dirigente:Compromisso com os Valores e a Ética - Promoção da Integridade:Conduziu a União de Futebol Comércio e Indústria, à conquista daBandeira da Ética, o que prova o seu foco na formação de jovensbaseada no fair-play.Visão de Cidadania:Assume cargos associativos, devido à sua inquietude social, como aVice-Presidência da Mesa da Assembleia Geral na ACCSet – Associaçãodas Coletividades do Concelho de Setúbal, com o compromisso claro deservir o interesse coletivo e desenvolver o poder capacitativo dasColetividades cá do burgo.Competência e Resultados DesportivosCrescimento Desportivo: Sob a sua liderança, o clube conquistou a subida ao Campeonato de Portugal, demonstrando capacidade de planeamento e ambição.

Gestão de Formação:

Coordena uma estrutura que apoia centenas de atletas, garantindo umadinâmica social e desportiva saudável na cidade de Setúbal.Proximidade e Impacto LocalLigação à Comunidade:Mostra uma forte capacidade de diálogo com os associados, adeptos einstituições locais, mantendo o clube sustentável e competitivo.Intervenção Ativa:Complementa a sua ação desportiva e empresarial com uma voz ativa nacausa pública local, conciliando o papel associativo com a representação cívica.Presidindo em simultaneidade à direção da Creche o Girasol, para gaudio de Pais e utentes.A sua capacidade de gestão, aliada a um espírito de missão altruísta,tem sido fundamental para o crescimento e sustentabilidade destaentidade.


  • esta entrevista foi gravada dias antes da votação do Pacote Laboral, na AR

 

 




 

 
 
 

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