top of page

Grande entrevista (Jaime FC)

  • Foto do escritor: Joaquim Gouveia
    Joaquim Gouveia
  • 20 de jun.
  • 7 min de leitura

Jaime Ferreira de Carvalho

Voz da rádio em Portugal e no mundo, na hora da reforma


"HOJE AS RÁDIOS FAZEM MUITO BARULHO

EM VIRTUDE DAS AUDIÊNCIAS"...



No final de mais de 50 anos de trabalho ao serviço das mais importantes estações emissoras nacionais como a Rádio Comercial, Rádio Renascença e RDP Internacional, contando ainda com passagens pela Nova Antena, RDS e PAL FM, Jaime Ferreira de Carvalho entrou na reforma, condição que, no entanto, não quer dizer paragem obrigatória, prometendo fazer ouvir a sua voz por mais alguns anos de forma, naturalmente, mais contida e com atitude mais tranquila e pausada. Começou por desafiar as ondas hertzianas na Rádio Estudantil da Universidade que frequentava e com 24 anos, iniciou a sua carreira profissional ao serviço da RR. Desde então nunca mais parou e fez ouvir a sua voz, a sua dicção e estilo de locução pelo país e depois pela Diáspora, espalhada pelos quatro cantos do mundo. Fez horários diferentes e percebeu que as madrugadas eram muito especiais porque os programas tinham um tipo de público bem especifico. Foi radialista e produtor de alguns dos seus programas. Conheceu, promoveu e apoiou centenas de artistas nacionais e guarda saudades desses tempos onde a partilha com os ouvintes e os artistas eram algo que colocava os ouvintes de orelhas encostadas nos aparelos radiofónicos. Tal como o título deixa entender, hoje as rádios mais ouvidas obedecem a outros critérios e tornaram-se mais barulhentas e menos apetecíveis. A entrevista que lhe proponho fala de um homem que falou toda a sua vida através de uma onda onde o rosto não se vê.


Joaquim Gouveia – Fazes a tua estreia radiofónica profissional em 1980, com apenas 24 anos, ao serviço da Rádio Renascença, onde mantiveste atividade até 1991. Antes e nos tempos de estudante, conheceste a primeira experiência à frente dos microfones na Rádio Estudantil da tua Universidade. Mas recuemos no tempo até às famosas “rádios piratas”. Tiveste alguma participação, percebeste como as coisas funcionavam e o que as motivava contra o próprio espaço radiofónico português que não permitia a sua sintonia? Como viveste esse tempo, ou que recordações ainda te restam?...

Jaime Ferreira de Carvalho – Antes de responder à tua questão, deixa-me agradecer o teu amável convite, que para mim é, uma honra. Quanto às Rádios Locais, elas surgiram em meados da década de oitenta, quando eu estava na Renascença, desde o dia 4 de agosto de 1980, e convém dizer que as Rádios Locais ao princípio foram importantes e, neste momento, tenha pena que o número, tenha reduzido, por questões económicas. Sempre fui defensor de uma Rádio por Concelho.

Joaquim Gouveia - A “Rádio Azul” de Setúbal, foi não só pioneira, mas como uma das principais alavancas para a regulamentação do novo espaço radiofónico e sua afirmação no país, com a liberalização dessas rádios, então, clandestinas. Os radialistas nacionais Jorge Simões (também comentador da RTP) e o Luciano Rocha (jornalista), faziam parte dessa equipa “azul” e foram, na verdade, obreiros desta enorme conquista do espaço hertziano nacional, surgindo, então, as chamadas rádios locais…

Jaime Ferreira de Carvalho – A " RÁDIO AZUL", tal como a " RÁDIO NOVA ANTENA" ,  onde fui convidado a participar, embora na altura estivesse na Renascença, tal como as outras Rádios espalhadas pelo Continente e as Ilhas Adjacentes, foram muito importantes porque na altura, eram as vozes dessas populações.

Joaquim Gouveia – Esta será sempre uma pergunta de retórica que tem a ver com a tua entrada na rádio, quês e porquês. Mas há um fascínio que cada radialista explica de forma muito pessoal. No fundo foi a rádio que chegou a ti e aproveitaste a ocasião, ou algo te fez sugerir um universo profissional onde estar só numa cabine e com um micro à frente, proporcionava estares num palco quase imaginário sem publico à vista?

Jaime Ferreira de Carvalho – A minha paixão pela Rádio surge numa época, em que este Órgão de Comunicação Social, tinha muito peso, junto dos portugueses, isto porque nessa altura, a Televisão em Portugal, começava às 19h e 30m e encerrava antes das 24h, de segunda a sexta. Ao fim de semana, eram mais horas.


"NA PRIMEIRA VEZ QUE FUI PRESTAR PROVAS NA RÁDIO UNIVERSIDADE

A VOZ E A DICÇÃO ERAM MUITO IMPORTANTES"



Joaquim Gouveia – Em 1969, os radialistas Paulo Fernando e Orlando Dias Agudo, estreiam um mini programa diário com apenas 10 minutos intitulado “Os Intocáveis”, no então Rádio Clube Português. O programa consistia na apresentação de novos discos que caso não agradassem pela música, pela letra, ou mesmo pela voz”, ouvia-se um som que dava a perfeita percepção que os dois locutores os partiam. Foi um programa que originou muita controvérsia, embora o nome dos artistas nunca fosse revelado. Tens ideia de que havia coisas destas a ir para o ar. Faz parte da história…

Jaime Ferreira de Carvalho - Lembro - me, como se fosse hoje, desta pedrada no charco, que o Paulo Fernando e, o Orlando Dias Agudo fizeram no antigo Rádio Clube Português, mas não só, na Renascença e com o José Manuel Nunes tivemos a " PÁGINA1", que com músicas de intervenção, desde José Afonso a José Mário Branco, foi outra pedrada, no charco.

Joaquim Gouveia – No momento em que te profissionalizaste quem eram as referências que mais te inspiravam e te faziam acreditar que aprendendo a ouvi-las e a estar perto delas, terias o caminho em aberto para a excelente carreira que agora terminas na reforma? Por outro lado, hoje privilegia-se predicados como a beleza e o baixo salário em detrimento da qualidade, ou isso é treta?...

Jaime Ferreira de Carvalho – Várias vozes Femininas e Masculinas inspiraram-me a ter esta paixão e, este grande amor, que é a Rádio.  Quando entrei na Renascença em 1980 , encontrei três vozes, que escutava: no Rádio Clube Português, Henrique Mendes; na Renascença; Fernando d'Almeida e, na Emissora Nacional, Artur Agostinho. Quando entrei na Rádio, era bem pago agora, não é assim, infelizmente. Quando fui prestar provas, na Rádio Universidade, a voz e a dicção eram importantes agora, o pensamento é outro.

Joaquim Gouveia – Após a Renascença, dás um salto para a Comercial, onde estiveste mais dez maduros anos, que eu bem sei. Criaste programas, destes-lhes voz, mas, acima de tudo foste, também, como que o tal passageiro da noite, que o saudoso Cândido Mota, imortalizou. Há uma mística diferente na rádio que acompanha os taxistas, padeiros, enfermeiros, gente que gosta de ouvir a rádio antes de dormir e que, sempre que lhe é dada oportunidade, também, gosta de falar, de se fazer ouvir e dar a sua saudação. É, romanticamente, mais humana a rádio noturna?

Jaime Ferreira de Carvalho – Quando entrei na Rádio, na Renascença e mais tarde na Comercial, as Madrugadas eram muito humanas, contávamos com a participação dos ouvintes, das áreas profissionais mais variadas, oriundos do nosso País e, do Estrangeiro. Acho que neste século, as Rádios Nacionais perderam a pedalada para algumas Rádios Locais, que no espectro radiofónico fazem, um excelente trabalho.


"FIZ VÁRIAS EMISSÕES PARA TODO O MUNDO COM LARGAS CENTENAS DE PARTICIPAÇÕES PARA PORTUGUESES"




Joaquim Gouveia – Tiveste outro privilégio que foi chegar à nossa Diáspora, falar com gente com saudades, que contava histórias incríveis de vida, que agradecia com amor as palavras dos locutores das madrugadas e mandava beijos aos artistas convidados. Tudo isso é um mundo que não se vê (como na televisão), mas que, imagino, se sente com o coração. O que te ficou desse tempo para além da saudade?

Jaime Ferreira de Carvalho – Meu caro Quim Gouveia fica-me exatamente a Saudade. Em 1980, a Renascença começou as suas emissões de Onda Curta, para a Europa, no dia 8 de dezembro e, no ano seguinte, as emissões de Onda Curta, para a América do Norte, Brasil e África, no dia 13 de maio, 1981, eu e a minha querida Amiga, Arlete Pereira. Em 2011 e, com a minha entrada na RDP INTERNACIONAL, atual RTP -MUNDO, fiz várias emissões para todo o Mundo, com largas e largas centenas de participações de portugueses, mas também de outras culturas, que amam a nossa Língua e a nossa História.

Joaquim Gouveia - Foste um amigo dos artistas, dos mais tarimbados, experientes, conhecidos e amados. Mas também dos novatos, dos que tentavam, ainda, trepar o pau de sebo. Deste voz, glória e esperança a cada um deles. Sentes-te recompensado pelas audiências e pela estima desses mesmo artistas?

Jaime Ferreira de Carvalho – Sinto-me recompensado pelas audiências, graças a todos. Quanto a estima desses mesmos artistas, alguns continuam gratos, outros esquecidos… Estás na Ribalta, todos são teus amigos; desapareces, alguns lembram - se de ti, outros não.

Joaquim Gouveia – A missão da rádio é outra nos nossos dias. Mais agressiva, ruidosa, refém de playlists e de noticiários quantas vezes a terminarem já agredidos pela música. Concordas que há barulho a mais nas principais rádios do país? Será que, afinal, ficou mesmo confinado às rádios locais o vagar e o amor pleno à onda hertziana de qualidade, saber e conhecimento?

Jaime Ferreira de Carvalho – Vou ser muito franco para contigo. A partir de uma certa altura, deixei de ouvir Rádio e, vejo pouca Televisão, porque neste momento, é como dizes, a Rádio faz muito barulho, em virtude das audiências. Quando entrei na Renascença e, nos anos noventa na Rádio Comercial, o principal objetivo era o ouvinte, que de uma certa maneira, fazia parte da Equipa. Quando tive o Fernando d'Almeida, como Diretor de Programas da Rádio Renascença, o mesmo disse que, “quando a Rádio deixasse de ser paixão, a mesma morreria, aos poucos”. Concordo!

Joaquim Gouveia – Relativamente à lei que obriga a passagem de, apenas, 30% de música portuguesa, que opinião tens? É suficiente, ou compromete, seriamente, a nossa música, os nossos artistas, autores, compositores…

Jaime Ferreira de Carvalho - Quanto a esta situação relacionada com o número de percentagem de música portuguesa na Rádio, considero uma patetice. Os nossos vizinhos espanhóis tiveram outro comportamento, defendendo os Autores, os Músicos e os Intérpretes da canção espanhola. Tem piada que no tempo da Emissora Nacional, estas dúvidas, não existiam.

Joaquim Gouveia – A reforma chegou. Mas sei que ainda tens muito para dar e, sobretudo, para ensinar. Vais continuar por aqui, ou aproveitar para fazer turismo cá dentro?

Jaime Ferreira de Carvalho - Infelizmente a reforma chegou, mas eu queria continuar a trabalhar. Estou a tentar vários contactos, em Portugal e fora do nosso País. A seguir à família, a Rádio é a minha paixão.  No final meu caro amigo Quim Gouveia, agradeço a tua amizade e a tua lembrança. Um abraço e obrigado.

 

 

 
 
 

Comentários


Mantenha-se informado(a) com as novidades publicadas no Xetubal Site.
Subscreva a nossa newsletter semanal e acompanhe os conteúdos mais recentes, diretamente na sua caixa de entrada.

Serviço gratuito, com total respeito pela sua privacidade.

Email enviado!

FICHA TECNICA

Edição e coordenação de JoaQuim Gouveia (jornalista)

Produção gráfica: Catarina Branco

Revisora: Ana Santos

Email: xetubalsite@gmail.com

Contacto: 915 568 820

Sede: Setúbal

  • Instagram
  • Facebook
bottom of page