Grande entrevista (Tetyana)
- joaquimgouveia06
- há 5 dias
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Tetyana Andersen, pintora ucraniana, cidadã de pleno direito em Setúbal
"HÁ OBRAS BANHADAS PELAS MINHAS LÁGRIMAS ENQUANTO PINTAVA NA TELA"

Tetyana Andersen, reconhecida pintora ucraniana vive, desde há quatro anos em Setúbal. Depois de uma passagem pela zona do Reno, Nevada, nos Estados Unidos da América, decidiu conhecer o nosso país e acabou se deslumbrar com a cidade do Sado, que diz parecer-lhe saída de um pequeno conto de fadas. Por outro lado sempre ficaria mais perto do seu país e da sua cidade natal, Dnipro, que quase todos os dias é noticia pelos vários e continuados ataques do exército russo. Naquela cidade estão a sua filha e a sua neta, mas sabe que a zona onde se encontram ainda vai estando a salvo de maiores sobressaltos, Em Setúbal tem feito inúmeras amizades e reconhece no seu povo gente amistosa e fraterna, Também agradece aos portugueses no geral pela forma muito peculiar e carinhosa como tem acolhido a comunidade ucraniana que hoje se conta por alguns milhares de familias por todo o país. A sua pintura é diversa e garante que a vida profunda e emocional da sua alma é base da sua criatividade e, como o título sugere, muitos dos quadro que pinta são banhados pelas suas lágrimas, essencialmente, quando ouve a música do seu país. Tetyana Andersen tem a sua própria história de vida para contar e essa é a razão desta entrevista que lhe proponho para leitura atenta.
Joaquim Gouveia – A Tetyana Anderson, já reside em Setúbal há 4 anos. Nasceu ,em Dnipro, na Ucrânia e teve uma passagem pela zona de Reno, Nevada, nos Estados Unidos da América. Trouxe até nós a sua arte como pintora e já participa em exposições e pertence à Artiset. Percebe-se que a sua integração na cidade não foi difícil, até pelos amigos que já conquistou. Gosta de estar por aqui? O que mais lhe atrai nesta região?
Tetyana Anderson – Sim, tive muita sorte com a mudança através de amigos no Facebook. Quando chegámos já tínhamos amigos da Ucrânia que viviam aqui há muito tempo e, no terceiro dia , conhecemos a Viktoria no Red Corner Café. Chegámos a Setúbal, em Dezembro de 2021, ao fim de apenas uma semana, já me tinha apaixonado por perfeição para mim: o rio as montanhas, o clima, a beleza da natureza e da cidade, ahistória e a arquitetura. Cada recanto pede para ser retratado numa tela. Estilo de vida, pessoas muito atenciosas e sinceras. Acolhedor, tranquilo….
Joaquim Gouveia - No entanto a sua cidade natal na Ucrânia é notícia já habitual nos noticiários do mundo. Tem lá a sua família, nomeadamente os seus filhos. Contacta de forma permanente com eles? Certamente, já terá pensado na possibilidade de os trazer para perto de si. Ainda não chegou o momento?
Tetyana Anderson – Todos os dias falo com a minha filha e, muitas vezes com a minha família. Agora è mais fácil do que no inverno, já não há blackout. Trazer a filha e a neta para cá é uma questão muito delicada. Elas vieram para cá em 2022, mas voltaram sete meses depois, quando a situação lá se acalmou e havia esperança de que a guerra chegasse ao fim… eles sentiam muitas saudades e a filha sentia que era mais importante estar lá, ao lado do marido, para viver e ajudar os nossos defensores.
Joaquim Gouveia - Há uma comunidade ucraniana em Setúbal, que é hoje bem entendida na cidade e nesta região. Costumam encontrar-se e confraternizarem, no fundo como ponto de apoio entre todos? Que noticias vos chegam de lá e de que forma acontecem os vossos encontros? Há conversa, musica tradicional, danças, comidas, enfim, um país inteiro num pequeno espaço de convívio. Será mais ou menos assim…
Tetyana Andreson – Há muitos ucranianos em Setúbal, tal como em Lisboa. O que nos une é o mesmo sofrimento e a missão de apoiar os nossos soldados. Integramos nas redes sociais e, claro, realizam-se grandes eventos- férias , festivais e comícios. Estes eventos realizam-se em Lisboa, reunindo ucranianos e visitantes, onde se dá a conhecer a nossa cultura ucraniana: música, artesanato popular e comida . Estes projetos são preparados com bastante antecedência e reúnem diferentes regiões de Portugal. Cada um tem a sua fonte de notícias. Estou inscrita de notícias no Telegram, mas os meus amigos mais próximos e a minha família são a minha principal fonte de notícias.
"SETÚBAL PARECE SAÍDA DE UM PEQUENO CONTO DE FADAS"

Joaquim Gouveia - Acredita que um dia irá voltar à sua cidade e ao seu país já em paz e segurança?
Tetyana Anderson – Fui a Dnipro em 2024. Sentia muitas saudades dos meus filhos e da minha família. Naquela altura, a situação lá estava mais ou menos tranquila. Viemos dos EUA, para Portugal porque ficávamos mais perto da Ucrânia, para nos vermos com mais frequência e para os recebermos em nossa casa em Setúbal.
Joaquim Gouveia – Falemos agora de outros temas mais felizes, como a pintura. Nos quadros que exibe já se vê Setúbal, as ruas, as gentes, as paisagens, o rio, a serra… É uma região com potencial de inspiração com beleza e felicidade. O sol é radiante e os tons da natureza urbana e de paisagem convidam à criatividade. Estou certo?...
Tetyana Anderson – Sim, é verdade. Setúbal tem uma magia especial, uma atmosfera que parece de saída de um pequeno conto de livros sobre pessoas simples, trabalhadores… Gosto especialmente do doca com barcos, do reflexo na água, do ar translúcido, como se tempo não existisse, e assim que o sol se põe, pintado as nuvens com uma paleta multi-coloridas , como o último traço de pincel que da o toque final a uma obra de arte.
Joaquim Gouveia – Como se define enquanto pintora? Surrealista, figurativa, retratista… De que estilo retira mais prazer?
Tetyana Anderson – Sou uma artista multifacetado. As paisagens são impressionistas, rápidas e vivas , como a respiração, que é essencial para vida. Mas há outra vertente da minha criação: a vida profunda e emocional da minha alma. Os meus sentimentos dos meus quadros. Chamo a este estilo de “Expressionismo Figurativo”, mas nele podem surgir animais, aves e fenómenos naturais. É precisamente este tipo de arte que enche de energia. Diz muito sobre mim enquanto artista.
"AS MINHAS OBRAS SÃO COMPLEXAS E RICAS EM SIGNIFICADOS"

Joaquim Gouveia - Tem participado em muitas exposições pelo país. A sua obra já merece muita admiração. Foi uma conquista facilitada pela qualidade dos seus quadros ou, também, por ser ucraniana, símbolo de uma guerra injusta que o seu povo sofre amargamente? Acredita, para além do seu excelente trabalho e mérito, que a fraternidade, também, esteja presente no olhar dos portugueses, relativamente, à sua obra?
Tetyana Anderson – É difícil para mim responder e essa pergunta; provavelmente, não me cabe a mim. Cabe às pessoas que viram os meus trabalhos e formaram a sua própria opinião sobre mim como artista. Tenho obras que me ligam ao tema da Ucrânia, à energia e à beleza, à dor da guerra e das perdas…. As minhas obras não são espontâneas, penso muitos e vivo intensamente cada momento, e coloco nelas as minhas emoções e sentimentos. Há obras banhadas pelas minhas lágrimas, enquanto pintava na tela, ouvia a nossa música e chorava …. Trata-se do retrato do General Valeryi Zaluzhnyi com soldados e do quadro “Momento de Eternidade” . Há obras felizes, em que a minha modelo é a minha filha. As minhas obras são complexas e ricas em significados, são uma experiência emocional e uma demonstração de técnica. Penca que é a combinação destas qualidades que leva as pessoas a parar e a olhar com mais atenção.
Joaquim Gouveia – Sente apoio por parte dos portugueses aos refugiados de guerras que entram no nosso país? Há afinidades que vos transmitem amizade, carinho…
Tetyana Andersen – Sim, sem dúvida. Sinto um enorme apoio e uma grande compreensão por parte dos portugueses. Em termos de espírito, temos muito em comum: a preservação das tradições, o respeito pelos outros e a alegria de viver. É muito fácil comunicar, apesar da barreira linguística. Estou profundamente grata aos meus amigos portugueses pela sua sinceridade, carinho, compreensão e apoio. Até na arte encontramos muitos pontos de contacto. Historicamente, os ornamentos florestais dos azulejos portugueses fazem me lembrar o Barroco Ucraniano, tanto pelas formas como pela riqueza cromática. Vejo nessas semelhanças algo mais profundo do que uma simples coincidência estética.
Joaquim Gouveia – Há poucos meses tive o prazer de privar com um pintor, também, ucraniano, o Viktor Tsapko, que me disse que as artes na Ucrânia, estão destruídas pela guerra. Pintores, músicos, cantores, bailarinos, enfim, os artistas refugiam-se noutros países deixando a cultura e a arte do seu país em profundo silêncio. É uma imagem cruel…
"O MEU HOJE CRIATIVO É TRANQUILO (...) EM DIREÇÃO AO AMANHÃ"

Tetyana Anderson – Conheci o Victor, em Setúbal e falei com ele uma vez. Não posso concordar com ele, pelo contrário, a cultura da Ucrânia goza atualmente de grande notoriedade, interesse público e crescimento. Foram compostas centenas de novas canções maravilhosas, as canções dos nossos antepassados ganham nova vida e, domínio da pintura e das artes aplicadas, surgiram inúmeras novas obras. Atualmente, a “Vyshyvanka” ucraniana- uma blusa (camisa) bordada em ponto de cruz- tornou-se uma marca internacional, e os seus elementos são utilizados nas coleções da Gucci, da Dior e da Valentino. A canção de Natal ucraniana “Shchedryk” , composta pelo compositor Mykolai Leontovych em 1916 , é cantada por todo o mundo cristão, depois de em 1936 , o compositor americano Peter J. Wilhousky ter escrito nova letra e a ter rebatizado como “Carol of the Bells”. Aqui em Portugal, os artistas Valeryi e Marita Vaskov , muito conhecidos e a cantora e professora Larissa Savchenko. Entre aqueles que conheço pessoalmente e cuja dedicação ao trabalho da cultura ucraniana admiro simplesmente: Konstantin Sheplyakov – pintor de ícones e entalhador de madeira. Artistas como Bogdan Dide, Dmitryi Kolesnikov, Veronika Blyzniuchenko, a poetisa Tâmara Moroshan, a estilista Halyna Shcherban, o grupo vocal “Lita” e outros, todos eles promovem a cultura da Ucrânia, tornam a vida cultural em Portugal mais vibrante, interessante e rica .
Joaquim Gouveia – O futuro é amanhã. O que tem para fazer? Projetos na sua área de pintora, desenvolver novos contactos e, certamente, continuar a apoiar o seu povo naquilo que lhe é possível, certo? Que palavras deixa para um abraço ao povo de Setúbal?
Tetyana Anderson - O meu futuro é o hoje, quero viver o dia com felicidade, tanto quando possível. Não sei o que vai acontecer amanhã… Hoje estou a pintar um quadro ou vou a uma exposição com amigos. O meu hoje criativo é tranquilo e define um pequeno passo em direção ao Amanhã. Se posso ajudar os meus conterrâneos, faço-o. Agradeço sinceramente a toda a cidade pela hospitalidade e bondade! Desejo a cada morador, independentemente do tempo, que mantenha o sol no coração, desejo-lhes bondade e amor! Muito obrigada pelo conversa, sinceramente com cumprimentos da Tetyana.


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