GRANDE ENTREVISTA xetúbalsite
- Joaquim Gouveia

- 8 de mai.
- 9 min de leitura
Fernando Tomé, um "setubalense" por convicção
O jogador que “deu” luz ao Estádio do Bonfim
“QUANDO O SPARTAK DE MOSCOVO VEIO AO BONFIM O HINO DA RUSSIA FOI SUBSTITUÍDO PELA INTERNACIONAL…”
Quando alguém é feliz nas palavras que encontra para definir esse tão nobre sentimento, a propósito de um percurso da sua vida contagia, por eloquência e admiração, os que o ouvem ou leem, como é agora o caso nesta conversa com uma das mais singulares figuras do Vitória Futebol Clube, de Setúbal, vulgarmente por aqui denominado de “Enorme” e que Fernando Tomé, antigo jogador do clube explica quês e pormenores de uma vida ligada às tradições deste Vitória, que chegou a ser figura primeira tanto por cá no país, como no mundo do futebol internacional, amealhando troféus e conquistas que hoje, apesar da menos feliz situação da sua equipa principal, ainda enchem de orgulho uma massa associativa que continua a marcar indelével presença seja em que campo for onde o “Enorme” dispute um encontro, como até se verificou nestes anos em que o clube sadino tem estado arredado dos principais palcos do futebol nacional. Para assinalar o retorno do clube a uma divisão nacional, recordamos a entrevista realizado com o Fernando Tomé, por ocasião dos 114 anos de existência do Vitória Futebol Clube.

Joaquim Gouveia - “Costumo dizer que tenho uma boa madrasta que é Setúbal, tenho um bom padrasto que é o Bairro Santos Nicolau e tenho um pai desportivo fabuloso que é o Vitória”. É com esta expressão que costumas definir a tua afinidade com Setúbal. Nasceste no Porto e passaste por várias localidades como a Covilhã, Barrosinha, Moura e Aljustrel, em função dos clubes que o teu pai, também jogador de futebol e treinador representava. Afinal este rapaz que chegou a Setúbal, aos 9 anos de idade e aqui se radicou até aos dias de hoje, em que filho se tornou que a própria cidade tanto dele se orgulha?
Fernando Tomé - Eu é que tenho orgulho de viver com a minha “madrasta” boa. e porque tenho também um “pai desportivo” enorme, e também tive um “padrasto” do melhor que há em Setúbal, o Bairro Santos Nicolau, sem menosprezo por todos os outros bairros e locais desta linda Cidade. Mas tive a felicidade de ser o bairro da família Tomé, com a parteira da altura mais conhecida, não só no bairro, como em muitos locais de Setúbal, a minha avó Augusta Tomé, que teve na vida 20 filhos e juntou à mesa 13, porque alguns morreram quando nasciam, segundo ela contava aos netos e não só, por isso o meu orgulho do lindo bairro.
Joaquim Gouveia - Quando chegaste por aqui, Setúbal era, no momento considerada a terceira cidade do país. O que mais te fascinou e que acabou por ter peso imediato na tua afirmação como setubalense até hoje? Foi um deslumbramento para um jovem que chegava de terras alentejanas, depois de até ter residido em locais mais pobres em termos sociais e comunitários? De que forma te agarraste a esta nova realidade de viveres num centro mais evoluído socialmente, mesmo para a época?
Fernando Tomé - Quando era mais pequeno vinha passar as férias a Setúbal, pois o meu pai tinha toda a sua família por cá, e fazia também alguns dias de férias na Moinhola, onde viviam os meus avós e tios da parte da minha mãe. Então eram eles a fazer aquilo que entendiam o melhor para satisfazer as duas famílias. Portanto, mesmo sem pensar já era imbuído nesta sociedade que mais tarde vim encontrar.
Joaquim Gouveia - E o Vitória Futebol Clube, o que provocou em termos de sentimento futebolístico a um filho de ex-jogador, já muito familiarizado com a modalidade? Foi um piscar de olho instantâneo?...
Fernando Tomé - Sim, porque também já estava enraizado na família do meu pai, pois tive dois tios que jogaram no Vitória, o Adriano e o José Luciano, tendo também o meu tio José António, jogado no São Domingos, pois como vês já havia na família jogadores de Futebol. Mas sem desprimor, o meu pai foi o que mais longe foi e dada a sua vivência em outras partes do país, mas para mim foi, como dizes, um piscar de olho porque ainda antes de chegar ao Vitória, joguei num Torneio de Populares pelo Vasco da Gama do Bairro Santos Nicolau e depois sim, iniciei-me no Vitória nos principiantes a que hoje chamam juvenis.
Numa década o Vitória foi realmente um dos enormes protagonistas do Futebol Nacional e Internacional

Joaquim Gouveia - Aos 18 anos, ainda na formação, ouviste o mestre Fernando Vaz chamar pelo teu nome e lançar-te como médio na equipa principal do Vitória. Nessa altura o clube entrava numa dimensão grandiosa tanto a nível nacional, como, depois, internacional. Percebeste que era uma grande oportunidade para entrar no comboio do sucesso de uma carreira profissional?
Fernando Tomé - Sim é verdade, pois comecei como profissional na época de 65/66, vinha o Vitória, de ter ganho a primeira Taça de Portugal e entrado pela segunda vez nas Competições Europeias. Para mim era realmente uma grande oportunidade como jogador do Vitória, mas ao mesmo tempo difícil pois só jogavam 11 em cada jogo e só ia o guarda-redes como suplente. Como deves calcular, era muito complicado ser jogador na altura, mas tive a felicidade de ter muitos e bons companheiros de equipa que muito me ajudaram nesse período para não falar também no senhor Fernando Vaz, que me lançou como se diz na gíria, na “alta roda do futebol nacional” e não só, pois em 66/67 tive a oportunidade de fazer o meu batismo nas Competições Europeias, apadrinhado pelo colosso na altura a Juventudes, de Itália.
Joaquim Gouveia - A tua foto está no arquivo do clube relativo à inauguração do Estádio do Bonfim, onde eras já presença constante no onze inicial. Mas ainda mais relevante é a tua saída contrariada para o Sporting Clube de Portugal, mas que acabaste por aceitar porque o dinheiro da transferência, dois mil contos, seria para possibilitar a iluminação do Estádio do Bonfim, ou seja, o Fernando Tomé, deu à luz no Bonfim, com a sua despedida para Alvalade. Os vitorianos têm perceção desse gesto tão nobre da tua parte para com o clube? O que ainda significa tal atitude para ti?
Fernando Tomé - Alguém nessa altura teria que sair, havia pelo menos mais três ou quatro que poderiam sair, mas a direção entendeu sair só um, fui eu. Só para dar um exemplo, tirando os três grandes sabes quem é que deu mais jogadores à Seleção “A”? Foi o “enorme”, nós Vitória de Setúbal, quando em Inglaterra jogámos seis jogadores e um estava suplente e era guarda-redes e mais o treinador senhor Pedroto. Foi só um aparte do que era o Vitória na altura, deu-se como dizes a instalação da luz no Estádio do Bonfim e aí vem aquilo que eu, em tom de brincadeira digo aos amigos, que a torre de iluminação que está perto do “Maracanã” que é minha, o que me disseram na altura é que já havia uma comissão para essa instalação e que realmente a verba que o Sporting pagou deu para a luz e mais alguma coisa, disseram na altura os dirigentes, falo por eles.
Joaquim Gouveia - O Vitória acerta o passo e alarga ao país a sua dimensão de grande clube de futebol que acaba, depois, por extrapolar para o mundo conquistando troféus de importância inquestionável como Taças de Portugal, Teresa Herrera, a Copa do Mundo, o Troféu Ibérico de Badajoz, torneios na América. O que vos dava alento para uma mentalidade e primor de qualidade verdadeiramente apaixonante e tão vibrante?
Fernando Tomé - Claro que sim, não só a nós como também àqueles que nos admiravam. Não se esqueçam que o Vitória, numa década foi realmente um dos enormes protagonistas do Futebol Nacional e Internacional, o que fazia com que os jogos disputados fossem fora do Estádio do Bonfim, porque não havia iluminação e eram efetuados no Estádio de Alvalade e só fizemos um jogo no Estádio da Luz, com a Juventus. Depois já no Bonfim, então foi o que se diz, deliciar os amantes do bom futebol. Foi isso que durante esses dez anos o Vitória proporcionou a toda a gente.
Depois do 25 de abril de 74, o distrito de Setúbal, começou a ser afetado por muitos motivos e os clubes não fugiram à regra

Joaquim Gouveia - Na altura o Estádio do Bonfim enchia as suas bancadas registando a sua maior enchente no encontro com o Spartak de Moscovo, na primeira vez que a bandeira soviética foi hasteada num estádio português e em que uma equipa russa jogava no país. De todo o lado veio público e dizia-se que as pessoas queriam saber se os russos eram extraterrestres… Se eram levaram 4 bolas para o seu planeta. Como é que vocês sentiram esse acontecimento tão estranho no nosso país por força da ditadura?
Fernando Tomé - Nesse jogo eu já não estava no Vitória, mas vou contar o que me sucedeu, como já tinha mudado para o Sporting, nós jogámos na terça-feira com o Glasgow Rangers e vim, na quarta-feira ver o tal jogo, numa enchente espetacular onde, como se diz, não cabia a cabeça de um alfinete, pois estava a lotação esgotada. Não tocaram o hino da Rússia, mas sim a “Internacional”, para disfarçar o ambiente, e que como se sabe, naquela altura era complicado à brava, e fico-me por aqui…
Joaquim Gouveia - Durante as suas campanhas europeias o Vitória, defrontou grandes colossos do futebol europeu como o Leeds, a Fiorentina, o Liverpool e tantos outros, obrigando grandes vedetas internacionais a deslocarem-se a Setúbal, para prazer do público vitoriano e não só. Qual a melhor definição que nos poderás oferecer para descrever esses memoráveis momentos vividos nos anos dourados do clube, entre as décadas de 70/80 do século passado?
Fernando Tomé - Por mim não gosto de falar muito, porque estive sempre dependente dos meus companheiros, porque não gosto de me enaltecer, mas quem teve realmente a felicidade de defrontar grandes equipas Europeias e porque não Mundiais?, tal como o Liverpool, onde fiz o golo que nos levou a Inglaterra, com vantagem, ou jogar com o Olympique de Lyon, onde tive a tal felicidade de ter feito 3 golos na vitória por 5-0 e ainda é recorde que eu gostaria que fosse batido, era sinal que o Vitória, andaria novamente no auge do futebol.
Joaquim Gouveia - Ao longo dos tempos, a partir dos finais de 1980, o Vitória começou a sofrer um certo eclipse até com algumas passagens pela segunda divisão. A cidade e a própria região atravessam momentos sociais e políticos muito complicados e os apoios ao clube começaram a diminuir e, muitas vezes, a escassear. Desde essa altura o clube viveu num autêntico carrossel de emoções. Alguma vez tiveste a ideia de que esta situação tão triste e penosa como a que se encontra hoje o Vitória, pudesse algum dia acontecer? Como é que um vitoriano como tu assiste a tudo isto completamente desprovido de qualquer reação porque nem isso é possível para alterar esta condição absolutamente inimaginável noutros tempos?
Fernando Tomé - É evidente que não passava não só por mim mas por todos aqueles que gostamos e amamos o clube, mas, como sabes, aqueles que mais acompanham o fenómeno Futebol pós o 25 de Abril, não foi só a nível desportivo, mas até social que o distrito de Setúbal, começou a ser afetado por muitos motivos, e depois os clubes não fugiram à regra pois também começaram a sofrer, como se diz na gíria, “na pele e na carne” até levar aqueles que outrora andaram também na primeira divisão do futebol, casos do Barreirense, CUF, Montijo, Seixal, a terem graves problemas tal como nós. Mas na verdade eu não gostaria de ter que focar algo mais porque a minha tristeza e de algumas dezenas, centenas ou milhares de amantes do “enorme” nos custa a ver realmente onde nós andamos, depois de anos de grande valia desportiva porque o Vitória, sempre foi um clube eclético, tendo sempre a elevar o seu bom nome em outras modalidades. Fico por aqui e com muita tristeza…
Por Setúbal e pelo Vitória, estarei sempre ao dispor em virtude de tudo o que me têm dado

Joaquim Gouveia - No momento em que passam 114 anos sobre a fundação do clube que esperanças manténs de que ainda é possível dar a volta por cima? Qual a mensagem do Fernando Tomé, à direção e aos vitorianos?
Fernando Tomé - A minha mensagem de certeza que é igual a todos aqueles a quem o clube muito diz, pois não foi qualquer um que fez o que o Vitória, conseguiu ao longo destes 114 anos. Com muito respeito que todos os outros clubes me merecem, mas como nós dizemos, “pequenos” não somos pelo passado longínquo e recente, “grandes” também não somos porque nunca fomos Campões e já descemos de divisão, por isso somos “Enormes”!
Joaquim Gouveia - Para fecharmos esta nossa conversa deixa-me lembrar que entre muitos prémios e lembranças que a cidade já te dispensou, com a justiça que isso representa em nós na distinção de um dos “nossos” melhores, tens o teu nome num relvado sintético na Várzea da cidade, atribuído aquando do programa Setúbal Cidade Europeia do Desporto. É esta Setúbal que continuarás a amar e onde já deste origem aos teus filhos e netos?
Fernando Tomé - É evidente que muito eu devo quer à cidade, quer ao “Enorme”, por todos os motivos que já aqui abordei. Por isso vou continuar a dizer, que por Setúbal e pelo Vitória, estarei sempre ao dispor em virtude de tudo o que me têm dado. Não posso esquecer toda a minha família, desde esposa, filhos e netos todos naturais desta linda e acolhedora cidade: só eu não consigo mudar de naturalidade apesar de continuar a gostar de ter nascido no Porto, mas a minha vivência nada tem a ver com os seus hábitos pois saí de lá tinha meses de idade, pois tenho mais tempo de vivência na Covilhã e também na Barrosinha, Moura ou Aljustrel, terras que tive o prazer de viver e ter algo para contar desses locais.

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