Grande Entrevista xts
- Joaquim Gouveia

- 8 de mai.
- 6 min de leitura
Vanessa Mascarenhas propõe "Nativa" ao cartaz de espetáculos no país
“A MÚSICA QUE FAZEMOS NÃO SE OUVE… SENTE-SE!”
Vanessa Mascarenhas decidiu lançar-se num projeto musical que pretende levar aos palcos “mais o sentir que própriamente o ouvir”. A metáfora compreende-se na forma como a descreve, com rara oportunidade, na entrevista que agora lhe propomos. Há todo um lado emocional, introspetivo e até mesmo espiritual, mas, como diz, sem rótulos. Nasceu em Setúbal e ao longo de vários anos aprendeu, experimentou, errou, mas nunca perdeu o fio condutor que, sabia, a levaria a um porto quase de abrigo mas, essencialmente, de novas descobertas de sons, de temas e palavras, de conteúdos e atitudes. Revê-se, essencialmente, na música soul admitindo que não foi uma escolha sua, acabando por perceber que este estilo musical sempre fez parte de si mesmo quando ainda disso não tinha consciência. Tal como a canção de Jorge Palma, enquanto houver estrada para andar, Vanessa propõe levar “Nativa”, por onde o seu caminho for abrindo palcos e novos públicos no país e, quiçá, internacionalmente

Joaquim Gouveia – Existe em ti uma clara inclinação pela Soul music. A profundidade da tua voz, o calor que empregas nas palavras, o corpo que vibra nos acordes e ritmos das composições, tudo numa sintonia a fazer perceber uma entrega absoluta a uma causa que, no fundo, também te pertence. Sentiste essa apetência pela soul cedo na tua vida. Há uma razão que saibas definir a ti própria e, depois, ao teu público?
Vanessa Mascarenhas: A soul music não foi uma escolha, foi um reconhecimento. Sempre esteve em mim, mesmo antes de eu ter consciência disso. Desde muito cedo senti essa ligação, quase de forma instintiva. Não foi algo que procurei, foi algo que me encontrou. E fez sentido porque me deu aquilo que eu mais precisava enquanto artista: liberdade para sentir, para interpretar e para ser eu mesma. A música soul permite-me cantar sem filtros. E é isso que levo para o palco, não apenas música, mas emoção, ligação e entrega. No fundo, não é sobre um estilo, é sobre aquilo que somos quando deixamos de ter medo de sentir.
JG – Depois de muitos anos a experimentares géneros musicais diferentes numa permanente aprendizagem mais ao nível vocal que, no fundo sempre foi a tua principal caraterística, sentes-te hoje já com o conhecimento necessário para as nuances que crias e que te começam a tornar uma referência (pelo menos e por enquanto nesta zona), te projetem a nível nacional numa primeira fase e, depois, quiçá numa carreira internacional?
VM – Sinto-me preparada no sentido em que hoje sei o caminho que quero seguir. Mas acredito que a preparação nunca está “fechada”, estamos sempre em construção, e eu ainda tenho muito para aprender. Tenho a sorte de estar rodeada de músicos incríveis, que partilham comigo o seu conhecimento e me desafiam constantemente a crescer. Durante anos explorei, testei, errei, evoluí… e tudo isso trouxe-me até aqui. Hoje existe uma identidade clara, um som que é nosso, e isso dá-me segurança para dar o próximo passo. Se isso nos levar a uma projeção nacional ou internacional, será uma consequência. O foco mantém-se: fazer música que vem de dentro, com autenticidade.
JG – “Nativa” é o nome do teu projeto. À primeira vista e não conhecendo, ainda, a razão que determinou tal escolha, poderei imaginar algo dentro de uma natureza espontânea, criadora, que traz uma mensagem a descodificar através do teu espetáculo e das músicas que compões. Existe um certo ambiente que desperta de uma originalidade quase mística, talvez espiritual, interior, intemporal?...
VM – Sim, completamente. “NATIVA” nasce da essência, daquilo que não é forçado. É sobre identidade, sobre aquilo que vem de dentro e não precisa de ser explicado. Existe, sim, uma dimensão emocional e até espiritual, mas sem rótulos. É sobre conexão, connosco, com os outros, com o momento. A música que fazemos não se ouve… sente-se.

Joaquim Gouveia – Pedro Abrunhosa, afirmou há algum tempo, que a inspiração não existe de todo e deu o seu próprio exemplo: “quando preciso de compor entro no estúdio onde existem apenas três elementos, eu, o piano e a mão de Deus”. Sem conhecer o teu lado espiritual ou mesmo de alguma crença, estás de acordo com esta afirmação do Abrunhosa, ou entendes a inspiração mais dentro da leitura da própria “Nativa”, que nos propões, por exemplo?...
VM – Percebo totalmente o que ele quer dizer. A inspiração não é algo que simplesmente aparece é algo que se trabalha, que se procura, que se constrói. Mas também acredito que há momentos em que algo maior acontece, algo que não se explica. No meu caso, existe disciplina, dedicação, trabalho e músicos muito experientes ao meu lado, o que naturalmente potencia a criação. Ainda assim, há momentos em que a música simplesmente chega. E nesses momentos, há uma ligação que não é racional é quase instintiva. Talvez seja isso: um equilíbrio entre construção e entrega.
JG – Quanto à banda que te acompanha apresentas músicos da cidade e outros de origem americana e alemã. O entendimento foi imediato?
VM – Sim, americana, alemã, setubalense, uma mistura muito rica. A verdade é que a maioria de nós já se conhecia de outros projetos, e foi a partir daí que decidi avançar com este, focado em temas originais. Cada um traz consigo uma bagagem diferente, com percursos e influências distintas. Mas há algo que nos une de forma muito natural: a música. Desde o início sentimos uma energia especial, uma sintonia que foi acontecendo sem esforço e isso criou uma vontade real de construir algo juntos. E essa ligação sente-se claramente em palco.
JG – Para além da soul, o teu espetáculo apresenta outros géneros como o rock, funk, blues, no fundo alguns emergentes a partir da soul. Contudo, pelas características quer da tua voz, como da tua presença em palco, esperava encontrar, também, Gospel. Não cabia no projeto, ou ficará, talvez, para o futuro como possível desafio?
VM – Faz todo o sentido a presença do gospel no projeto e ele está lá, ainda que de forma subtil: na emoção, na entrega, na forma como comunicamos. Mas não quisemos colocá-lo como um rótulo direto. NATIVA é um espaço aberto. Isso significa que pode evoluir, crescer e integrar novas influências ao longo do tempo. Estamos numa fase de construção, e há muitas ideias por concretizar, muitas surpresas pela frente.
JG – O que esperas que “Nativa” traga aos palcos e ao público nacional? Qual o atrevimento a que te permitiste para encontrar a coragem de nos poderes surpreender? Uma longa aprendizagem, ou o instinto que te impulsiona para voos mais largos com a transmissão de mensagens viradas ao amor, à determinação, à coragem, à felicidade da liberdade...
VM – Quero que as pessoas sintam. Que se revejam, que se libertem, que se emocionem. A música que fazemos fala de amor, de força, de recomeço, sem filtros.
O “atrevimento” foi esse: sermos fiéis ao que somos, sem tentar encaixar em rótulos.
Seguir o instinto, mesmo quando não é o caminho mais fácil. Porque, no final, o que fica é aquilo que se sente.
JG – Sentes que o caminho tem estrada para andar? Já existe agenda para começar a marcar datas? É um momento de ansiedade, certo?
VM - Há muita estrada para andar. Estamos numa fase de construção e de lançamento com concertos, novos temas a surgir e várias oportunidades a aparecer. Existe entusiasmo, claro, mas mais do que ansiedade, há uma vontade muito clara de fazer crescer o projeto de forma sólida. Este é só o início.
JG – Que musico/cantor, ou banda mais te inspiram neste momento?
VM – São vários, e por razões diferentes. Tina Turner, Stevie Wonder, Aretha Franklin e Janis Joplin, entre muitos outros, continuam a ser uma base essencial na minha forma de sentir a música, pela presença, pela emoção e pela forma como transformam cada interpretação em algo único. Cada um deles traz uma dimensão diferente, e todos juntos ajudam a construir a forma como hoje sinto e interpreto a música.
JG – A critica assusta-te ou acreditas que reforçará o teu projeto?
VM – Não assusta. A crítica faz parte do caminho. E quando é construtiva, ajuda-nos a crescer. Claro que é importante saber filtrar, nem tudo nos define. Mas acredito que um projeto sólido não se constrói evitando a crítica, constrói-se com consistência.
JG – Sendo o tempo o maior mestre é, também, por direito o maior barómetro de qualquer iniciativa. Tens tempo, certo?...
VM - Tenho o tempo certo. Não estou com pressa, mas também não estou parada.Cada etapa está a acontecer no momento certo e isso dá-me confiança. Porque, mais do que chegar rápido, queremos chegar com propósito.


Ainda não os conheço, mas esta conversa deixou-me ansiosa pela oportunidade de os ouvir. Parabéns, desde já, e votos de muito sucesso!
Sem dúvida uma excelente banda 🥰 , muito boa entrevista 😊, Parabéns NATIVA ❤️