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HOMENAGEM À CORAGEM

  • Foto do escritor: joaquimgouveia06
    joaquimgouveia06
  • há 6 dias
  • 7 min de leitura

Gaiteira de Palmela

ANA PEREIRA DISTINGUIDA

COMO A MAIS QUALIFICADA DO PAÍS


A gaiteira de Palmela, Ana Pereira irá ser homenageada no próximo fim de semana, como a mais qualificada executante de gaita de fole portuguesa, num reconhecimento público do seu percurso e contributo para a dignificação deste instrumento ancestral durante o X Grande Encontro de Gaiteiros de Almalaguês, no concelho de Coimbra. Filha da conhecida escritora e poetisa Alexandrina Pereira, decidiu trocar a sua atividade profissional de contabilista licenciada, pelo gosto natural de aprender a tocar gaite de fole, instrumento pelo qual já nutria enorme paixão. Arriscou. Fez-se ao caminho, desbravou conceitos, aprendeu técnicas e percorreu um país onde a tradição ainda mostra fulgor ancestral, rumando, depois, a Vigo, onde se manteve durante 5 anos. como solista em orquestras sinfónicas e filarmónicas. A conversa que lhe sugeri tem o propósito de trazer à grande ribalta literária, uma jovem natural de Palmela , que será distinguida pela sua coragem, determinação e exemplo de que o papel da mulher tem, verdadeiramente, importância em toda a vida social e artística no mundo.


Joaquim Gouveia - O X Grande Encontro de Gaiteiros de Almalaguês irá homenagear-te pelo teu percurso e contributo para a dignificação da gaita de fole no nosso país, considerando-te a mais qualificada gaiteira portuguesa. Este reconhecimento, para além de justo e muito oportuno, destaca, ainda, o papel feminino na história da atualidade da gaita de fole em Portugal. Numa retrospetiva breve à tua longa carreira, sentes-te preparada para receber tamanha distinção artística? Afinal é dos simples que reza a conservação das nossas ancestralidades culturais…

Ana Pereira – Não sei bem em que momento da nossa vida nos sentimos preparados para receber uma homenagem. Decerto não o esperava tão cedo e com tanto por fazer e contribuir. Claro que uma não impede a outra, mas pouco fiz em comparação com o que está por fazer. Mas aqui continuaremos.

JG – Depois de uma vida de estudante dedicada à contabilidade e finanças, onde te licenciaste e chegaste a desenvolver atividade profissional, alteraste por completo a agulha magnética à tua bússola e decidiste dedicar-te à aprendizagem da gaita de fole, no fundo um instrumento com um elevado grau de dificuldade de execução. Como é que estas coisas acontecem na vida de uma jovem?

AP – Penso que, como em quase todas as decisões de quem é jovem, aconteceu com muita leveza, despreocupação e naturalidade. Comecei a aprender o instrumento, fui descobrindo o mundo que o envolvia, fui-me apaixonando mais, envolvendo mais, estudando mais, até que acabou por ser o ponto central do meu caminho, como o é até hoje.

JG – O que é que tem mais sabor na tua carreira, o contacto e conhecimento com as raízes e origens do instrumento, fazendo recolhas e realizando espetáculos em meios tantas vezes longe dos olhares mais urbanos, ou seres, por exemplo, solista numa grande orquestra?

AP – Ambos trazem realizações diferentes. Por um lado, ser solista com orquestras sinfónicas e bandas filarmónicas fazem possível que se quebrem barreiras de preconceito para com o instrumento, permitem-me educar um público que é considerado culto, explicando e desconstruindo coisas como: “a gaita-de-foles não afina” ou “a gaita-de-foles é escocesa” ou “a gaita-de-foles é para tocar na rua”. E isto continua a ser um trabalho de extrema importância. Por outro lado, o poder experienciar vivências que se mantêm há séculos, com as pessoas que mantêm essas tradições vivas, que nos contam como era antigamente, que nos ensinam as músicas que aprenderam das mães e das avós… é algo impagável, imperdível e tão efémero como somos todos nós. É aqui que me sinto em casa. É a tocar na rua junto das pessoas, a tocar para que dancem, chorem ou riam. É muito amor à camisola, mas é, principalmente, muito amor à arte.



JG – Palmela, a tua vila natal, tem tradições vincadas na gaita de fole. Ainda existem gaiteiros, mais antigos e sei que tentaste criar algo diferente dentro de uma perspetiva de recolha e projeção da tradição, mas, pelos vistos, algo falhou e as coisas não avançaram. Haverá, certamente, uma explicação…

AP – Palmela é um município que investe muito na Cultura. É graças a este município que hoje sou uma gaiteira prestes a ser homenageada, porque investiram e continuam a investir também neste lado cultural. Foi lá que comecei graças aos instrumentos que compraram e às aulas que pagaram e ao grupo que subsidiam. E ainda que tenham tradições ligadas às gaitas-de-fole, nem sempre é fácil que se consiga subsistir disso e menos num território com tão pouca oferta de trabalho nessa área. Um município não pode manter sozinho todas as tradições. Pode criar ambientes para que essas tradições se mantenham o melhor possível e isso a Câmara de Palmela faz. Mas a oferta laboral como gaiteira é mínima comparada com outros pontos do país e eu não posso viver apenas de amor à camisola ou apenas de amor à terra onde nasci.

JG – Quanto ao “país gaiteiro” a tradição ainda está bastante viva e, pelo que me é dado saber, existem muitos jovens que continuam a querer dar seguimento à visibilidade de um instrumento tão singular, forte e, sobretudo, muito tradicionalista que nos leva a pensar em paisagens bem diferentes quer na cor, no ambiente e na simbiose entre o estranho e o belo. Há garantias de futuro, certo?

AP – Sim, há sem dúvidas garantias de futuro. Existem cada vez mais pessoas a tocar e muitos jovens estão interessados em aprender este instrumento, seja pela sua veia mais tradicionalista, ou pela mais modernista, na verdade não importa. Quantos mais formos, mais força teremos para manter e desenvolver esta arte e esta cultura.

JG – O preço de uma gaita de fole no mercado é muito variável e ajusta-se a muitas carteiras. Contudo existem, também artesãos que constroem gaitas diferentes e únicas, ou seja, para além da sua funcionalidade como instrumento, a gaita de fole permite, por outro lado, manter abertas oficinas artesanais. As tuas gaitas são projetadas por estes artesãos a teu gosto e jeito?

AP – Sim, cada artesão traz as suas próprias características de construção, sendo que, entre afinação, madeiras e detalhes estéticos tudo é personalizável, por isso a minha tem incrustada a imagem de uma gaiteira e do galo de Barcelos. Mas é sempre importante falar desta economia paralela que é facilmente esquecida na cultura: manter “tradições vivas”, dá trabalho a muita gente.



JG – A cultura em Portugal é cara, ou varia de região para região?

AP – A cultura em Portugal é cara para as condições que se vivem nos dias de hoje no país, independentemente da região. Ainda assim, diria que é uma questão de opção. Escolher entre ir a um concerto, ou pôr comida na mesa não é uma verdadeira escolha, não é verdade? Por outro lado, pagar com cartão de crédito um bilhete para o concerto do artista que aparece massivamente na televisão e não dar 10€, por uma entrada para ver artistas independentes e fora do circuito televisivo é, esta sim, uma escolha. A cultura acessível existe, mas é preciso querê-la muito e procurá-la bem. A grande diferença entre as regiões do país reside na facilidade de acesso à cultura. Eu que vivi uns anos no Alentejo interior, reconheço o esforço que era fazer entre 30 a 60 minutos de carro para chegar a teatros com oferta cultural. Já para não falar da pouca diversidade oferecida, seja em consumo cultural (concertos, teatros, etc.), seja em participação cultural (aulas de música, dança, etc.). O que precisamos é de educar públicos, investindo em oferta diversificada e principalmente na perseverança. Educar leva muito tempo. Às vezes uma vida inteira.

JG – Finalizando a nossa conversa, o que pensas dizer em Almalaguês, no próximo fim de semana, quando fores distinguida, em nome da tradição não só da gaita de fole, mas de todas as tradições culturais e lúdicas do país e sobre a importância da mulher na história das nossas artes?

AP - Ainda não sei bem o que vou dizer nesse dia, mas partilharei algumas histórias do meu caminho, como por exemplo, a do dia em que, recém chegada da Galiza, decidi sair de casa às 7 da manhã, sozinha, com a gaita de fole às costas em direção a um encontro de gaiteiros do qual nada sabia e onde não conhecia ninguém e fui parar ao primeiro Encontro de Gaiteiros de Almalaguês, e foi esse o momento que me abriu as portas a tudo o que aconteceu depois no resto do País. E falarei certamente das pessoas que me ajudaram e ajudam a fazer este meu caminho, principalmente. sendo mulher num meio que era tão, predominantemente, masculino, dos desafios que isso traz e de como é possível adaptá-los para que mais mulheres sintam vontade e coragem de o fazer.

 

AS RAZÕES DE UMA JUSTA HOMENAGEM E DISTINÇÃO

 

Há mulheres que fazem da tradição um lugar de permanência, não por repetição, mas por escolha.

No ano em que o EGA tem como tema principal o Tributo à Mulher, a homenagem à gaiteira Ana Pereira, de Palmela, nasce com sentido e justiça. O seu percurso cruza estudo, prática e transmissão, sempre com a gaita de fole como eixo e responsabilidade.

Ana Pereira construiu um caminho sólido e exigente, entre o violino folk, a investigação, o ensino e a presença ativa em projetos que marcaram a música tradicional portuguesa e galega.

Do trabalho com orquestras folk à coautoria do primeiro Cancioneiro de Gaita-de-Fole português, há uma linha evidente: cuidar da tradição para que ela continue a ter lugar.

Esta homenagem fala de percurso, mas fala, sobretudo, de mulher, de conhecimento e de continuidade.

O tema escolhido para esta edição será “Tributo à Mulher” e sublinha o papel feminino na história e na atualidade da gaita-de-fole em Portugal. Entre as iniciativas previstas, destaca-se a homenagem a Ana Pereira, considerada a mais qualificada gaiteira portuguesa, num reconhecimento público do seu percurso e contributo para a dignificação deste instrumento ancestral.


 

 

O PERCURSO DE ANA PEREIRA


O percurso de Ana Pereira, a gaiteira de Palmela, é marcado por um compromisso com a gaita de fole, combinando estudo, prática, ensino e investigação, destacando-se como uma das mais qualificadas gaiteiras portuguesas, com reconhecimento pelo seu contributo para o instrumento.

Pontos-chave do seu percurso:

Origem: Vinda de Palmela, o seu trabalho tem sido de grande responsabilidade e dedicação à gaita de fole.

Âmbito: O seu percurso abrange o violino folk, investigação, ensino e participação ativa na música, sempre com a gaita de fole como eixo central.

Reconhecimento: É reconhecida como uma das mais qualificadas gaiteiras de Portugal, sendo homenageada em eventos dedicados à gaita de fole pela sua importância para a dignificação do instrumento.

Foco: A sua carreira foca-se no estudo, prática e transmissão do conhecimento da gaita de fole, consolidando um caminho sólido e exigente.

 

 

 

 
 
 

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