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José A. Gonçalves

Foto do escritor: José A. Gonçalves
José A. Gonçalves
19 de set.
4 min de leitura

O CALDO DE CEVADA BATIZADO COM

ÁGUA DA CHUVA



Aqui há atrasado (expressão que me faz sempre rir de cada vez que a digo ou ouço, não sei porquê), liga-me o Joaquim Gouveia (o Quim, como é geralmente conhecido). Era manhã, provavelmente, sol aí em Portugal e certamente nublado aqui em Inglaterra (olha que novidade).

"Achas que me consegues enviar uma crónica sobre ti, Bocage e Inglaterra?", pergunta-me ele, com um entusiasmo na voz que me fez sorrir. "Epá, acho que sim, olha que giro!", digo-lhe eu, quando na verdade os sobrolhos franziram-se-me perante um dos mais improváveis desafios que alguém alguma vez me lançou.

"Bolas, Quim" foi a minha reação mais perto da verdade. Mas foi apenas o choque inicial da proposta. E para me refazer, decidi entrar no pub mais próximo e pedir uma "pint" de cerveja (pouco mais de meio litro, mas desce bem). Nem de propósito... O amigo Bocage lá estava sentado, a canto, com uma caneca de cerveja na mão, mas com ar desconfiado...

Olhando para o copo com profundo desgosto, Bocage diz-me: "Apá Zé... Chamas a isto bebida, sóce? Isto é caldo de cevada batizado com água da chuva! Um só gole do nosso tinto de Setúbal, faria o Rei Carlos, tirar a coroa e cantar o fado no meio da rua. Mas enfim... se o destino quis que Elmano Sadino vegetasse entre os anglo-saxões, que ao menos o álcool seja farto, ainda que fraco."

Eu só podia estar a delirar, com certeza...

Mas Bocage lá continuou ajustando o colarinho de renda, num tom entre a melancolia e o sarcasmo. "Que crime cometi para que o destino me arrastasse até este ninho de névoa e fleuma? Trocar o sol de Portugal, por esta humidade que me entra nos ossos... É esta a famosa Inglaterra? Um país onde até o céu parece ter medo de sorrir!" "Pelo menos aqui estás a salvo da Inquisição e do Pina Manique, Bocage. Inglaterra é a terra da liberdade de expressão.", disse-lhe eu.

É então que Bocage solta uma gargalhada: "Liberdade! Ah, a bela palavra que os homens usam quando querem trocar uma prisão de pedra por uma de névoa. De que me vale a liberdade de dizer o que penso, se nesta língua abestalhada o amor soa como o ranger de uma carroça? Diz-me lá: como se canta a paixão em inglês? I love you? Parece o soluçar de um asmático! Onde está o estro, a melodia, a fúria de um verso lusitano?"

Não consegui discordar do Elmano Sadino, mas disse-lhe: "Podes sempre escrever em português! Há muitos intelectuais e poetas por cá. Já conheceste algum dos poetas ingleses?"

"Conheci uns quantos nesses salões gélidos. Falam muito de Shakespeare e de Byron. Têm o seu mérito, não nego, mas falta-lhes o fogo no sangue! Têm a alma engomada como os colarinhos que usam. Aqui, se um homem se apaixona, escreve um tratado sobre a moralidade do afeto; em Portugal, se me apaixono, morro de febre, escrevo dez sonetos e acabo na cadeia por caluniar o marido da senhora!"

Estas palavras de Bocage apanharam-me tanto de surpresa que acabei por cuspir a cerveja... O sobressalto fez-me sair daquele delírio. Olhei para a frente e o Manuel Maria, já não estava lá. Foi só imaginação...

Mas fiquei a matutar no que me disse o Bocage...

Na realidade, há mais pontos em comum entre Bocage e Inglaterra do que pensamos, ou pelo menos do que EU pensava. Sim, não sou um Bocagiano, daqueles que estudam a vida e obra do Elmano Sadino, embora também não seja daqueles que acham que Bocage era apenas o das anedotas. Reconheço em Bocage um dos nomes maiores da literatura portuguesa, ao qual falta ainda o devido reconhecimento nacional. E não, colocá-lo nas antigas notas de 100$00 não foi suficiente.

Não sendo, portanto, um 'expert', decidi pesquisar que pontes poderia utilizar para que a ligação entre mim, Bocage e Inglaterra fizesse sentido. E faz! Pelo menos, numa fase inicial da pesquisa, fez sentido a ligação entre Bocage e Inglaterra, nomeadamente através da literatura inglesa.

Bocage, entre correrias pelas ruas de Lisboa a fugir dos homens de Pina Manique e saltar janelas meio nú para escapar a maridos furiosos, ainda tinha tempo para traduzir obras literárias, maioritariamente francesas, como as 'Fábulas de La Fontaine' e poemas de Voltaire, mas também latim, como as 'Metamorfoses', de Ovídio.

A experiência inglesa de Bocage está relacionada com a tradução para português da 'Epístola de Heloísa e Abelardo', de Alexander Pope. Uma tradução indireta, já que foi feita através de uma adaptação francesa, da responsabilidade de Claude Joseph Colardeau. Bocage sentia-se mais à vontade para trabalhar textos franceses, o que revela responsabilidade e ética profissional por parte de um poeta tantas e tantas vezes descrito como o oposto.

Mas basta de factos. Falto eu. Onde é que entro eu nesta estória.

Falo aqui do Bocage tradutor. A palavra 'traduzir' vem do latim 'traducere', que significa levar de um lugar para outro, fazer passar uma fronteira. Foi isso que Bocage fez há dois séculos. E há mais de uma década, calhou-me a mim passar a fronteira. Não peguei num poema para o traduzir para português; peguei na minha própria existência e traduzi-a para inglês.

Após todos estes anos, aprendi a traduzir o tom de voz para não parecer agressivo nos diálogos; traduzi os gestos; traduzi o nosso abraço tão português (daqueles apertados, que envolvem a alma, vocês sabem...) num aperto de mão a medida de quem aceita que dois seres humanos se podem tocar; traduzi a nossa urgência latina por um pacato e automático 'Sorry' murmurado na fila do supermercado.

No fundo, é essa a beleza da emigração: é o ato contínuo de viver na fronteira entre o que fomos e o que temos de ser.

Claro que haverá sempre coisas nossas, como a saudade e o orgulho cego na nossa história. Coisas que não têm equivalente em inglês. Permanecem intraduzíveis.

E vou voltar ao mesmo pub. Pode ser que encontre o Manuel Maria, outra vez para que possamos ter mais dois dedos de conversa entre goles de caldo de cevada batizado com água da chuva.

 

 
 
 

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