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JOSÉ RAPOSO, DO BERÇO ALENTEJANO AO POETA NA CIDADE DO SADO

  • XetubalBlog
  • 6 de out. de 2025
  • 8 min de leitura

NUNCA O RECONHECIMENTO CHEGA TARDE


“SOU O POETA DA MINHA GENTE”



Nasceu no Alentejo, na vila de Santiago do Cacém, mas sente-se um filho de Setúbal, uma vez que para aqui orientou a bússola da sua vida há cerca de meio século. Chegou como farmacêutico e trabalhou na antiga Farmácia Lisboa, na rua Dr. Paula Borba, propriedade do bem conhecido e saudoso Dr. Chitas. Gostou da cidade, do seu ambiente natural, da sua paisagem e dos bons ares marítimos e da serra-mãe, que percebeu serem responsáveis pelos encantos de viver por aqui num clima fresco e com muita tradição enraizada nos antigos bairros da cidade. Criou a sua árvore genealógica com a sua Maria Manuela Raposo, a mulher da sua imensa vida de casado. Depois chegaram os filhos, primeiro o Pedro e depois o Ricardo, curiosamente, também farmacêuticos como o pai. José Raposo foi-se adaptando às novas realidades de uma cidade maior que o ninho familiar onde nasceu e se fez homem, num Alentejo, mais distante. Criou as raízes, abraçou novos amigos e tornou-se numa figura popular que sentia despontar em si prazer, gosto e muita alegria por ser já um dos cidadãos de bem desta Setúbal, que nunca mais deixou. Fez-se poeta aos 50 anos de idade, mas o gene da poesia, certamente, já andava por ali a minar-lhe a alma e um olhar atento e disponível para absorver a inspiração de cada dia, como conta na entrevista que lhe fiz e, abaixo, vos proponho. Tem livros escritos com poemas assinados por si, vários prémios conquistados com a sua poesia, homenagens de grau, particularmente, importante e a Medalha de Honra da Cidade, classe cultura, como a mais elevada distinção atribuída pelo município da cidade a um ilustre filho adotivo, sem dúvida, mas convicto que é mesmo um poeta da sua gente.


entrevista - Joaquim Gouveia (jornalista)



Joaquim Gouveia - O José Raposo é hoje um poeta da cidade. Reconhecido, cantado, homenageado. Existe muito carinho e admiração à sua volta. Para todos e pelo que nos deu a conhecer, começou nas lides poéticas a partir dos seus 50 anos de idade. Depois de uma vida profissional como técnico farmacêutico, toda esta distinção recebida no mundo agora de poesia é o reconforto para uma idade mais contemplativa e fraterna?

José Raposo - Ter carinho à minha volta é na realidade, o que mais me conforta e quando a esse carinho se junta o reconhecimento e distinção pelo que fazemos, neste caso a poesia, o que mais pode pretender o poeta? Poesia essa, que também carinhosamente ofereço à minha cidade.

JG - Se tivesse permanecido em Santiago do Cacém, sua terra natal, onde o Alentejo, já se sente desde as planícies ao cante, acha que teria sido um poeta diferente, talvez mais bucólico ou retratista, autor de poesia para o Cante Alentejano, interventivo nos usos e costumes de uma região particularmente amorosa e diferente desta urbe mais frenética como a cidade de Setúbal? Ou seja, seria um poeta alentejano no Alentejo…

JR - Não sei o que seria, teria talvez incentivos diferentes o que faria com que a minha poesia tivesse outros contornos. De uma coisa tenho a certeza, seria à mesma o poeta da “minha gente”, porque é para eles que escrevo! Hoje, a “minha gente” é o Alentejo e a nossa cidade de Setúbal.

JG - No caminhar de casa para o trabalho saltavam-lhe à ideia poemas de rua, da cidade, do relógio da igreja de S. Julião, da rapariga que passava e de tantas outras imagens que lhe surgiam diferentes, mas idênticas no propósito de alinhavar uma certa poesia urbana. Ainda lhe fazem falta esses percursos na inspiração matinal?

JR - Não fazem falta, mas provocam alguma nostalgia, que, afinal, também me inspira. O poeta “alimenta-se" do que vê e do que sente e essa inspiração surgia da observação de tudo o que me rodeava na altura e com tamanha intensidade que às vezes me assustava. Hoje percorro outros caminhos, com outra intensidade.

JG - Vencer concursos de marchas populares, prémios em eventos de poesia e em festivais da canção infantil e ter tantos fadistas a cantar a sua poesia é um legado que lhe coube em recompensa, também, pela sua enorme contribuição para que os poetas e autores de todos os géneros de música sejam considerados com maior dignidade, prestígio e sabedoria. Neste momento como se sente o poeta José Raposo, ao perceber a importância da sua obra na consideração dos outros?

JR - Sinto-me orgulhoso desse meu contributo e será sempre um objetivo meu. São duas classes que prestigiam a nossa cultura e devem ser reconhecidas como tal.

JG - Três livros editados para que nada fique por escrever na sua imensa inspiração e vontade de estar presente na poesia citadina, nos hábitos de leitura e cantoria e, sobretudo, no imenso prazer que se nota na amizade e fraternidade que deposita sempre que está em convívio comunitário. Foi galardoado com a Medalha de Honra da Cidade, na classe Cultura e tem sido largamente homenageado pela sua obra. E agora o que se pode ainda esperar de um amigo poeta que a cidade se habituou a ter por perto?

JR - Continuarei por perto, sempre com a minha gente e cidade no pensamento. Prezo muito a amizade e fraternidade e nunca serei mal-agradecido. Aqui cheguei há mais de meio século, sou filho desta cidade onde me fiz poeta e quero ser um bom cidadão. Contem sempre comigo, Setúbal é o meu paraíso.


Carla Lança (fadista)


“O HOMEM FEITO POETA QUE SE REINVENTOU A SI MESMO”



José Alberto Carmo Raposo, nasceu a 30 de Maio de 1947, em Santiago do Cacem, terra onde conheceu a Manuela, que viria a ser a sua esposa, mãe dos seus 2 queridos filhos ( Pedro e Ricardo) e um dos seus Pilares! Aquela que o acalma em momentos de turbulência, que tem um orgulho enorme no seu Zé e, está sempre presente nas suas conquistas! Além de esposo e pai dedicado é um avô extremoso, dedicando grande parte do seu tempo e atenção aos seus netos. Não se ficando por aí, relativamente ao amor e afeto, estendeu-os, também aos sobrinhos, que o tratam como um pai e os mais novos apelidaram no de “avôinho”, tal não é o tamanho do coração deste senhor. Voltando ao Alentejo é lá que com apenas 14 anos, começa o seu percurso em Farmácia, sendo este interrompido pelo então serviço militar obrigatório entre 1969 e final de 71, tendo passado por Beja, Coimbra, Lisboa e Angola ( Guerra do Ultramar). Chega a Setúbal no dia 3 de Janeiro de 1972, casando no ano seguinte com a sua Manelinha, e, faz desta a sua terra, a sua Casa, o cais onde atracou o seu coração. Retoma a sua vocação profissional e firma-se na Farmácia Lisboa, então localizada na rua Dr. Paula Borba, no coração da cidade, estando ao serviço dos setubalenses 40 anos nesse mesmo espaço. Para que nada faltasse à sua família, presta serviços, em simultâneo, noutras farmácias do nosso distrito. Curiosamente os filhos e um sobrinho seguiram esta mesma vocação. Mas a sua sensibilidade, a sua forma curiosa de observar e o seu amor á cultura, convidam-no a começar a escrever, já com 50 anos, e, é na escrita que o Zé, pega nestes pedaços da sua vida e molda-os em versos que toca quem os lê. Nele não existe uma fronteira clara entre o homem e o poeta. O homem vive, sente a fadiga, tem dúvidas, carrega o peso, o silêncio e a beleza dos dias. O poeta, que nele habita, recolhe esses instantes e devolve-os em palavras. E é nesse diálogo silencioso, entre quem é e o que escreve, que nasce a sua força. O homem banaliza o quotidiano, mas o poeta (o Zé), encontra poesia no mais simples gesto, no olhar perdido, ou num instante captado com a sua forma de observar e escutar. O José Raposo é o homem que precisa do poeta para não deixar a vida perder brilho e é o poeta que precisa do homem para não se perder no vazio. Um alimenta o outro. Talvez seja esse o dom da sua escrita, dar permanência ao que em si habita, e com a sua empatia, amizade e amor, transcreve para o papel de uma forma inexplicável um momento, uma história de vida, uma vivência, ou até uma simples piada, mas fá-lo com verdade, com afecto e cumplicidade. Que nunca deixe de ser os dois! É nesse encontro entre o homem que caminha e o poeta que sonha, que o mundo se enriquece. Acarinhado e reconhecido por muitos na cfidade de Setúbal, hoje, colhe todo o amor que semeou.

Obrigado José Raposo!



Arnaldo Ruaz (poeta)



P O E T A (ao José Raposo)


Magro, olhos castanhos, tez morena

De palavra oportuna, firme e segura

Quando toma na mão, a dócil pena

Dela brota impetuosa, a rima pura .


E se em aflição, alguém lhe acena

Com ar de sofrimento ou amargura

Não fica indiferente a uma tal cena

Valendo, assim que pode, à criatura.


Mas eis que o Destino, escarninho

Talvez só por capricho e sem razão

Quis travar-lhe o passo harmonioso


Não se rendeu e continua o caminho

Aquele que sempre fez com rectidão

O grande homem e poeta José Raposo.


Alexandrina Pereira (poetisa/escritora)



José Raposo, a Poesia em estado puro.

Escrever algumas palavras sobre o poeta e amigo José Raposo, requer uma dose de pura sensibilidade porque a Poesia navega nas veias deste Homem que faz da palavra poética uma ponte para o mundo da Amizade.

Tem uma forma simples de estar na vida. Quem com ele convive, sente aquela paz interior que nos faz bem. Aquele sorriso fácil que se aflora após uma frase bem conseguida onde o humor marca lugar.

E para alegria de todos os que estão perto dele “viajamos” por vários caminhos sempre que se lê os seus poemas. Ora sofremos com os seus versos onde nos descreve um mundo de desigualdades que o incomodam e nos incomodam também, ora “ouvimos” o lamento de um fado em que coloca toda a melancolia e descreve amores e desamores, ou ainda vamos com ele ao mundo das crianças onde a sua fantasia nos descreve a imaginação infantil.

É este o José Raposo, de quem tenho o prazer de ser amiga há já muitos anos. Setúbal reconhece-lhe a capacidade de fazer muitos amigos mas também a sabedoria de deixar nos poemas muito de si, e que adora partilhar. Abraçou tardiamente o mundo poético mas veio para ficar, e nós agradecemos!


Pedro Raposo e Ricardo Raposo (filhos)


“O HOMEM DE FAMILIA, AFECTOS E POESIA”



Muitos conheciam o Zé da farmácia, outros tantos o poeta José Raposo, mas só alguns conhecem o pai, o marido, o avô e o tio.

Quem o conhece poderá pensar, e com razão, que só pode ser um grande pai, mas “grande” será pouco para descrever o que ele foi e é para nós. Exigente, assertivo, rigoroso, características que valorizamos muito hoje que somos pais, mas também muito presente, carinhoso e justo. Juntamente com a nossa mãe, não nos deixou faltar nada, seja a nível emocional como a nível material, sempre com uma dose de pedagogia, frisando através do exemplo que com vontade, esforço e dedicação tudo se consegue, mesmo não nascendo em “berço de ouro”.

Hoje, o que foi/é enquanto pai, é agora enquanto avô, até no papel de moderador do amor “louco” que a nossa mãe nutre pelos netos. Dizer que temos primos que são como irmãos é representativo também do que os meus pais, enquanto casal, são para seus sobrinhos, pouca ou nenhuma distinção fazem em relação aos filhos. Marido dedicado, que sempre viveu para a sua casa. Enfim, hoje dizemos com orgulho que crescemos a desejar ser como tu.



Não Sou Um Homem Perfeito (José Raposo)


Eu sei que não sou perfeito


Longe disso com certeza


Sei que tenho um certo jeito


Que me deu a Natureza


Pra mentir quando é preciso


Nunca perdendo o juízo


E sempre a sorrir dizer


Coisas sérias a brincar


Com um brilho no olhar


Fazendo da brincadeira


A vida à minha maneira


Muitas vezes escondendo


Aquilo que estou sofrendo


Deixando cair sorrindo


Uma lágrima de verdade


Sabendo que estou mentindo


E lá por dentro vou rindo


Da mentira que preguei


Porque afinal eu sei


Que apesar de um certo jeito


Não sou um homem perfeito.




Homem (José Raposo)


O Homem


Pensava, pensava


E só pensava


Nada dizia


De tanto pensar


Calado estava e nada dizia


Pensava na vida


Pensava, pensava


De tanto pensar


Às vezes falava mas nada dizia


O Homem


Que só pensava


Um dia pensou enquanto falava


Falou, falou mas pouco dizia


Voltou a pensar


Porque ninguém o ouvia


E num momento


Enquanto pensava


Pensava e sorria


Para quê falar, se ninguém o ouvia


O Homem


Que só pensava


Às vezes dormia


Às vezes sonhava


E quando acordava


Pensava que ainda dormia


E o Mundo mudava


O Homem não via


Troavam canhões


A fome crescia


Crianças sofrendo


E o Homem pensava, nada fazendo


O Homem sofria mas nada fazia


Pensava, pensava


E enquanto pensava


O Homem morria.










 
 
 

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