Mudar não é apagar o passado
- Carlos Cardoso

- 29 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
O TEMPO NÃO ESPERA POR NÓS

De novo, a passagem do ano
O tempo não pára. Nem abranda, nem negoceia. Avança, ponto final. Quando damos por isso, estamos outra vez no fim do ano. O calendário segue o seu rumo, indiferente à nossa capacidade de acompanhar os dias. Daqui a um ano, este instante já será passado. A única diferençaa possível estará na forma como foi vivido.
É aqui que surge a pergunta incómoda, porque é que os anos passam tão depressa? Não é uma questão de contexto, nem de sorte. O tempo não valida escolhas, limita-se a expô-las. Mostra, sem piedade, aquilo que repetimos. Mês após mês, ano após ano, fazemos quase sempre o mesmo. Poderia haver evolução, mas o que mais noto é desgaste. Não é falta de tempo, é excesso de rotina.
Chega o final do ano, comem-se as passas, fazem-se promessas, personificam-se os meses e reforça-se a ideia de que “para o ano é que é”. A verdade é simples, os hábitos já estão instalados, muitas vezes sem darmos conta. Mudam-se as palavras, não se mudam os comportamentos. E assim o ano seguinte nasce velho.
Há idades em que o tempo parece andar mais devagar. Na infância e na juventude, cada dia pode ser diferente. Há reinvenção constante, curiosidade, risco. Mais tarde, a inércia instala-se. A vida familiar, o trabalho, as obrigações tomam conta do quotidiano. O calendário passa a mandar. Sabemos quando é a Páscoa, quando vem o Carnaval, quando chegam as férias. Tudo marcado, tudo previsto. Os anos tornam-se iguais e passam num instante, sobretudo quando se vive de datas fixas e rotinas fechadas.
O tempo não espera que estejamos prontos. Não nos pergunta se aprendemos algo desde a última passagem de ano. Avança. E aquilo que pensámos mudar fica, quase sempre, por cumprir.
Mudar não é apagar o passado. É compreendê-lo. É usar a experiência como vantagem estratégica. Quem já percorreu o caminho devia decidir com menos ilusão e mais precisão. Isso reduziria erros, frustrações e desculpas. O passado, bem interpretado, deixa de ser um peso e passa a ser orientação. As escolhas ganham profundidade quando nascem da compreensão e não da simples vontade de mudar.
Não tenho ilusões, para a maioria, nada mudará. O novo ano chegará, passará depressa e não vai parar para que se pense melhor.
Ainda assim, desejo a todos um 2026 com tudo aquilo que mais desejarem. Mas convém não esquecer uma coisa essencial, desejar não chega. É preciso fazer por isso.


Li este texto com aquele nózinho bom na cabeça, porque é impossível não nos revermos nele. Quem nunca sentiu que o ano passou a correr e que, no fundo, pouco mudou? Gosto muito da forma direta como falas do tempo, da rotina e das promessas que repetimos quase sem pensar. Não soa a sermão, soa a conversa honesta. Fica aquela sensação desconfortável, mas necessária, de que desejar não chega mesmo — é preciso mexer-se. Um texto que dá que pensar, e isso já é muito.