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MÁRIO BARROS (artesão setubalense)

  • Foto do escritor: "xetubalsite"
    "xetubalsite"
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

O 𝗵𝗼𝗺𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝗰𝗼𝗻𝗰𝗲𝗻𝘁𝗿𝗮 𝗼 𝗺𝗮𝗿 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 

𝗱𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗺𝗼𝗹𝗱𝘂𝗿𝗮



𝘔𝘢́𝘳𝘪𝘰 𝘥𝘢 𝘊𝘰𝘯𝘤𝘦𝘪𝘤̧𝘢̃𝘰 𝘉𝘢𝘳𝘳𝘰𝘴 𝘯𝘢𝘴𝘤𝘦𝘶 𝘦𝘮 𝘚𝘦𝘵𝘶́𝘣𝘢𝘭 𝘦 𝘯𝘶𝘯𝘤𝘢 𝘴𝘢𝘪𝘶 𝘷𝘦𝘳𝘥𝘢𝘥𝘦𝘪𝘳𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘦 𝘥𝘦 𝘤𝘢́. 𝘔𝘦𝘴𝘮𝘰 𝘲𝘶𝘢𝘯𝘥𝘰 𝘢 𝘷𝘪𝘥𝘢 𝘰 𝘭𝘦𝘷𝘰𝘶 𝘱𝘢𝘳𝘢 𝘭𝘰𝘯𝘨𝘦 𝘥𝘢 𝘭𝘪𝘯𝘩𝘢 𝘥𝘦 𝘢́𝘨𝘶𝘢, 𝘱𝘢𝘳𝘢 𝘥𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰 𝘥𝘦 𝘰𝘧𝘪𝘤𝘪𝘯𝘢𝘴 𝘳𝘶𝘪𝘥𝘰𝘴𝘢𝘴, 𝘵𝘰𝘳𝘯𝘰𝘴 𝘦 𝘧𝘢́𝘣𝘳𝘪𝘤𝘢𝘴 𝘰𝘯𝘥𝘦 𝘰 𝘵𝘦𝘮𝘱𝘰 𝘴𝘦 𝘮𝘦𝘥𝘪𝘢 𝘦𝘮 𝘵𝘶𝘳𝘯𝘰𝘴, 𝘧𝘰𝘪 𝘴𝘦𝘮𝘱𝘳𝘦 𝘰 𝘮𝘢𝘳 𝘲𝘶𝘦 𝘭𝘩𝘦 𝘧𝘪𝘤𝘰𝘶 𝘢 𝘣𝘢𝘵𝘦𝘳 𝘱𝘰𝘳 𝘥𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰. 𝘈𝘮𝘢𝘯𝘩𝘢̃, 𝘢̀𝘴 16𝘩, 𝘯𝘰 𝘊𝘦𝘯𝘵𝘳𝘰 𝘥𝘦 𝘙𝘦𝘤𝘶𝘳𝘴𝘰𝘴 𝘌𝘥𝘶𝘤𝘢𝘵𝘪𝘷𝘰𝘴 𝘦 𝘊𝘶𝘭𝘵𝘶𝘳𝘢𝘪𝘴, 𝘪𝘯𝘢𝘶𝘨𝘶𝘳𝘢 𝘶𝘮𝘢 𝘦𝘹𝘱𝘰𝘴𝘪𝘤̧𝘢̃𝘰 𝘲𝘶𝘦 𝘥𝘢́ 𝘤𝘰𝘳𝘱𝘰 𝘦 𝘷𝘪𝘥𝘢 𝘢̀ 𝘱𝘢𝘪𝘹𝘢̃𝘰 𝘥𝘦 𝘶𝘮𝘢 𝘷𝘪𝘥𝘢, 𝘰 𝘳𝘪𝘰 𝘚𝘢𝘥𝘰. 𝘌́ 𝘶𝘮 𝘤𝘰𝘯𝘫𝘶𝘯𝘵𝘰 𝘴𝘦𝘯𝘴𝘪́𝘷𝘦𝘭 𝘥𝘦 𝘶𝘮𝘢 𝘢𝘭𝘮𝘢 𝘮𝘢𝘳𝘪́𝘵𝘪𝘮𝘢, 𝘤𝘰𝘯𝘵𝘢𝘥𝘰 𝘱𝘰𝘳 𝘲𝘶𝘦𝘮 𝘢 𝘷𝘪𝘷𝘦𝘶 𝘥𝘦𝘴𝘥𝘦 𝘱𝘦𝘲𝘶𝘦𝘯𝘰, 𝘯𝘢 𝘙𝘶𝘢 𝘥𝘢 𝘉𝘳𝘢𝘴𝘪𝘭𝘦𝘪𝘳𝘢.


Há homens que aprendem a olhar o mundo com livros. Outros aprendem com as mãos. Mário pertence claramente ao segundo grupo. Vem de uma família “toda do mar”, como faz questão de sublinhar. Gente que pescava, que regressava a casa com histórias ditas à mesa, baldes de peixe para distribuir e diversas narrativas que misturavam sobrevivência e solidariedade.

Ele foi o que “escapou”, diz, quase em tom de desculpa. Escapou para uma oficina, onde começou por limpar tornos e acabou mecânico. Trabalhou em várias casas conhecidas da indústria setubalense, passou também por uma fábrica de peixe. Foi operário a vida inteira.

Mas o mar nunca se deixou esquecer. Comprou um bote, fez-lhe uma cabine com as próprias mãos e quando o desemprego lhe bateu à porta soltou as amarras e começou a trabalhar por conta própria. Voltou à pesca, às lulas, reorganizou a vida. E, em paralelo, foi amadurecendo a sua criatividade e vontade de dar vida ao seu projeto artístico.



As peças que agora apresenta são feitas a partir de matérias naturais tal como búzios, vieiras, estrelas-do-mar, fragmentos recolhidos ou oferecidos por pescadores amigos. “Eles chamam-me Marinho”, conta, com um sorriso no rosto. Há uma rede informal de cumplicidades que alimenta o seu trabalho: malas cheias de conchas que já não servem para nada, restos que o mar devolve ou que a pesca descarta. Nada aqui é decorativo no sentido fácil da palavra. Tudo carrega uso, história e cheiro a mar.

Mário pinta à mão, compõe lentamente, passa dias sobre a mesma peça. Não trabalha em série, não repete formas. Há uma recusa clara da reprodução e do mercado. As obras não estão à venda, afirma. Não por estratégia, mas por convicção. “Isto um dia será para um museu”, diz, pensando nas filhas, no futuro, na cidade. O gesto é de generosidade no sentido mais simples e mais raro, acredita que o que faz pertence ao comum.

A exposição tem por propósito alimentar também memória histórica da cidade. Em vários trabalhos, Mário evoca as comunidades piscatórias que moldaram Setúbal ao longo do século XX. Fala das décadas de 30 a 80, da longa costa entre Tróia e Sines, da chegada de famílias do Algarve, como a sua, e do Norte, da rivalidade entre sadinos e varinos, das disputas no mar, do roubo de peixe, das tensões constantes. Mas fala também do momento em que tudo isso se suspendia: quando o Vitória jogava, eram todos do mesmo lado. A cidade surge como um constante pano de fundo, um organismo vivo e em permanente mutação.



Essas camadas estão presentes nos quadros que apresenta: culturas que se cruzam, barcos diversos, redes que contam conflitos antigos e explicam como se vendia o peixe na rua antigamente. Não há legenda explicativa nem intenção didática direta. O que há é matéria, textura, composição. Cada peça existe uma única vez, como existe uma única vez cada maré.

O objetivo de Mário Barros, através desta exposição é divulgar a cidade. Pede aos setubalenses que venham e que contem aos outros o que viram. Que reconheçam dignidade do seu trabalho.. Sabe o valor do que faz, mas não o separa da comunidade onde nasceu.

Quanto ao futuro, não há plano, nem estratégia, nem carreira. Há apenas continuidade. “Continuar a fazer. Enquanto puder.” A paixão, diz ele, só acaba com a morte.

Mário, Marinho, setubalense de gema, é um homem que passou a vida a trabalhar com as mãos e encontrou nelas a sua forma mais livre de dizer o mundo.



(texto e fotos da União das Freguesias de Setúbal, em colaboração com o "xetúbalsite.pt") 

 
 
 

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