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Natal de imigrante...

  • Foto do escritor: José A. Gonçalves
    José A. Gonçalves
  • 9 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

O meu natal: uma reunião de emergência da ONU!...




É dezembro, e mais uma vez, o meu coração fica a fazer um ping-pong irritante. De um lado, a bruma cinzenta e organizada de Inglaterra. Do outro, a luz dourada e a confusão calorosa da minha vida em Portugal. Mas, para aumentar o nível de dificuldade — a maravilhosa, e logisticamente desafiante, confusão —, o Atlântico e o Canal da Mancha não são as únicas águas a separar as tradições: agora há também o Báltico no meio. A minha noiva é polaca, e de repente, o dilema do bacalhau vs peru transformou-se num triângulo cultural de alta complexidade natalícia. Basicamente, a nossa Consoada parece uma reunião de emergência da ONU, e a única coisa que está garantida é que vamos comer demasiado. Aqui em casa, a Véspera de Natal (24 de dezembro) é onde a verdadeira batalha se trava. Eu cresci com a nossa Consoada: jantar tarde, o bacalhau a nadar no azeite, as filhoses e os sonhos a cobrirem a mesa. Um ritual de aconchego lento. Depois, chega ela, a minha noiva, com a tradição polaca: a Wigilia. E a Wigilia é uma coisa séria. Não são cinco ou seis pratos. São doze pratos, todos sem carne. Doze! A minha cozinha de emigrante aqui em Inglaterra tem o tamanho de um armário, e agora tenho de conjurar uma dúzia de travessas. Juro que só para arrumar o Barszcz (sopa de beterraba) e os Pierogi (pastéis), ao lado do tacho do Bacalhau, preciso de um diploma em engenharia… A tradição polaca tem um momento que me desarma, que me apela à emoção de forma avassaladora: o Oplatek. É uma bolacha de Natal (uma hóstia), que se parte e se partilha, desejando-se os votos mais sinceros, olho no olho. Trocamos o Oplatek e, por segundos, sinto uma união sem fronteiras ali na nossa sala inglesa. E há um lugar extra na mesa. A tradição de deixar um lugar vazio para um convidado inesperado. Que beleza! Como se alguém que ja não está entre nós, nos possa fazer companhia se assim o entender. No que toca à doçaria, a luta é épica: o nosso robusto Bolo-Rei, contra o delicado Makowiec, um pão doce recheado com sementes de papoila. Resultado? Comemos os dois. É o único caminho para a paz conjugal. Então, como fazemos? Criámos o Nosso Natal Híbrido... e comprámos um frigorífico maior. O nosso dia 24 começa com o ritual polaco: Oplatek e o banquete de 12 pratos – onde, sim, o Bacalhau (Português) é promovido a um dos pratos principais. Comemos com um lugar a mais na mesa e celebramos a noite. E por vezes sucumbimos à tradição inglesa e arranjamos uns Christmas Crackers que, com a ajuda de duas pessoas, estouram após as extremidades serem puxadas, revelando um pequeno brinquedo e um papel contendo uma piada (daquele humor muito, mas muito inglês…) e, claro, uma coroa de papel ridícula para usar enquanto finalmente me afundo na fatia de Bolo-Rei. No final, sinto que este Natal é o mais verdadeiro de todos. É a prova de que o amor não se importa com fronteiras, nem com receitas de Natal. É uma consoada feita de Barszcz, Bacalhau e Christmas Crackers. É confuso, é barulhento, é uma prova de vida. É o meu pedacinho de Portugal, Polónia e Inglaterra, a aquecer-se à mesma mesa. E o meu maior desejo é que não haja sobras, porque já não cabem no frigorífico. Mas quem é que consegue resistir a uma filhós polaco-portuguesa?...


José A. Gonçalves* setubalense jornalista/argumentista radicado em Inglaterra

 
 
 

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