Natal em Setúbal
- Carlos Cardoso

- 9 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
“Montras Que Deram Vida a Um Sonho”
Estamos a menos de um mês do Natal e basta andar pela rua para sentir a correria do costume. Cada loja tenta fazer das suas montras um chamariz. É fita, é luz, é boneco… vale tudo para prender o olhar de quem passa, nem que seja só para arrancar um sorriso ou despertar aquela vontade quase infantil de entrar e ver mais de perto.

Hoje, ao passar pela Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, em Setúbal, frente da Setubauto (antigo stand de automóveis da marca Ford), e ver as montras tapadas com painéis de madeira, recordei outra imagem. Antes do fogo, que consumiu a loja que agora ali se encontrava, antes do vazio, antes do silêncio, lembrei-me do dia em que imaginei transformar aquelas montras na Casa do Pai Natal. E não foi só imaginar, foi pôr de pé uma ideia que, à partida, não combinava com o mundo automóvel, mas que acabou por marcar quem lá passou.
Numa reunião de direção, atirei a proposta para cima da mesa, criar algo que nenhuma marca de carros tinha feito. Trazer o Natal para dentro de um stand e mostrar que, por vezes, a diferença faz mais pela alma de um espaço do que qualquer modelo novo de quatro rodas. A resposta foi imediata, “Força. Faz como quiseres.” E assim começou uma das montagens mais especiais que coordenei.
O tema era simples, a Casa do Pai Natal no Polo Norte, com toda a azáfama que a imaginação permite. Os CTT chegaram a mandar fazer sacos de correio especialmente para a exposição, porque já não tinham do modelo que queríamos. As cartas eram verdadeiras, escritas por alunos de uma escola das redondezas, e davam uma autenticidade que nenhuma decoração comprada em massa conseguiria igualar.

Na zona onde os ajudantes do Pai Natal, “faziam as refeições”, colocámos um panelão de ferro oferecido pela D. Elisa, uma antiga cliente vinda de Tarouca. A madeira para a mesa e vários elementos da casa foi oferta da Navigator. Até os presentes tinham cartas escritas por colaboradores da Setubauto, cada um a recuperar o seu lado mais ingénuo, como se, por momentos, voltássemos a acreditar sem reservas.
No fim de tudo, a mensagem estava lá, as nossas viaturas simbolizavam os meios de transporte de todas as prendas do mundo. Um pequeno toque de fantasia num lugar onde, normalmente, se fala de motores e cilindradas.
Quando tirámos os papéis que tapavam as montras, as reações foram imediatas. Houve quem entrasse só para ver a exposição. Houve crianças que pediam aos pais que passassem pelo stand antes de irem para casa, só para espreitarem, mais uma vez, a Casa do Pai Natal. Foi um trabalho que me deu enorme satisfação, não só pelo resultado final, mas pela união de todos os que contribuíram para o tornar possível.
Hoje, ao passar novamente diante da Setubauto, não consegui evitar pensar, se tirassem aqueles painéis de madeira, voltaria a aparecer a Casa do Pai Natal? Por uns segundos deixei-me levar pela ilusão. E, sinceramente, soube bem sonhar outra vez.


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