Notas de um dia qualquer
- Carlos Lopes

- 29 de jan.
- 1 min de leitura
Memórias do bairro onde nasci

Há lugares que permanecem connosco mesmo quando deles nos afastamos. O Bairro Santos Nicolau, em Setúbal, é um desses cantos do mundo onde o tempo parece ter aprendido a caminhar devagar, medindo os dias pelo cheiro do rio e o som das gaivotas que rasam os telhados. Foi ali que nasci e cresci, rodeado da azáfama daqueles que viviam do mar e das fábricas que lhe davam forma em conserva — sardinhas, carapaus, atum e sonhos enlatados para o mundo.
Nas ruas estreitas de calçada gasta, ouvi desde cedo o bater compassado dos passos da minha avó, operária da fábrica, e o riso cansado da minha mãe ao regressar do turno. O meu avô, com as mãos curtidas pelo sal, contava histórias de tempestades e camaradas perdidos, sempre com o olhar posto no horizonte, onde o azul se confundia com a saudade. O meu pai, pescador como os seus, ensinou-me que o mar tem humor próprio — ora generoso, ora bravio, mas sempre digno de respeito.
Hoje, o bairro mudou — há menos cheiro a peixe e mais silêncios nas esquinas. Mas o espírito de Santos Nicolau, vive nos muros descascados, nas janelas com roupa estendida e no eco longínquo das sirenes que marcavam as trocas de turno nas fábricas. Em cada pedra ainda habita um rumor de vida, um retrato de gente simples que moldou uma cidade com o suor e a esperança.
Santos Nicolau não é apenas um bairro; é uma raiz comum que nos puxa de volta, lembrando-nos de onde viemos e do valor de quem construiu Setúbal com as mãos, o mar e o coração.

Que texto tão bonito, Carlos Lopes! Gostei muito, sinceramente.