O caminho do Mercado da Machanga
- José Mário Leite
- 7 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de out. de 2025
José Mário Leite (texto) - Luís Cangueiro (foto)

Antes que a manhã avance, os pés nus calcorreiam, ligeiros, o caminho de terra, em direção ao
mercado. Na véspera, à tardinha, os mais pequenos pontapearam bolas de trapos e pisaram
linhas traçadas no chão do terreiro. O mesmo chão, calcado, ao cair da noite, pelos juvenis,
sublinhando os frenéticos ritmos dos tambores. Os mais velhos andarilharam o dia todo, no
chão da cubata, no caminho da horta, no capim do mato.
As pernas bamboleiam, compassadas, cansadas mas determinadas a percorrer,
apressadamente a distância que, voluntariosamente, ou por arrasto, tem de ser vencida no
mais curto intervalo de tempo. Ontem cirandavam no campo da bola, marcado com o
calcanhar que pisavam a raia dos jogos desenhados na terra, movimentavam os corpos gastos,
carregando filhos, carregando lenha, carregando a vida e acompanhavam, empolgadas a
batucada, procurando outras pernas que nelas se enlaçavam, se misturavam, se amavam.
As mãos seguram, firmes, os cestos de vime cheios de produtos hortícolas. Seguraram, firmes,
os remates certeiros com marca de golo, escolheram e atiraram as jogas mais lisas e
achatadas, para fixar a casa que permite a progressão no jogo, que agarraram o pilão, a asa da
panela, o vencilho do molho dos gravetos para o lume ou o cabo da enxada, que entrelaçaram
outras mãos e nelas se misturaram com ternura, paixão e prazer.
As pequenas canastras de ramos entrelaçados, as taças metálicas e de barro, as trouxas de
pano ou de pele vão, todas, sem exceção, pousadas e apertadas contra as cabeças, dormentes
algumas, cansadas outras, preocupadas e apreensivas... mas também confiantes, otimistas,
sonhadoras.
É o sonho que as move e que, com naturalidade, lhes desenha no rosto um sorriso bonito e
espontâneo.


Uma crónica que faz sentir o cheiro da terra e o pulsar da vida. Cada palavra carrega a beleza da luta e do sonho.