O riso dos sobreviventes
- Leonídio Ferreira
- 22 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de out. de 2025
Leonídio Ferreira (texto)
Luís Cangueiro (foto)

Vou imaginar que tiveste sorte na vida e a tua mãe também. Que sobreviveram à Guerra do Ultramar, a vossa Guerra de Libertação Nacional. É sorte isso de sobreviver, porque depois da independência veio a guerra civil. Assim, serás um pouco mais velho do que eu, que já fiz 50 anos. Desculpa lá este tutear: afinal somos da mesma geração (o meu pai até aí combateu), e tal como a independência prometeu muito ao teu país, a revolução que a antecedeu trouxe grandes promessas ao meu. E devolveu-me o pai. Não façamos, porém, comparações. Acredito que foste à escola e até podes ler isto que escrevo, pois terás aprendido a língua dos colonizadores, que por acaso vem da língua de uns antigos colonizadores do meu país, mas há dois mil anos, e por isso as memórias são tranquilas. E não façamos comparações, porque eu sei que nisto de ter sorte, fui mais bafejado. Nasci num continente rico em que mesmo o mais pobre dos países é mais rico do que o mais rico do teu. Só lamento não termos deixado o teu jovem país com mais legado que atenuasse, um pouco que fosse, os erros do passado. Tens certamente filhos, como eu, e netos, que eu não tenho, mas aqui nascem menos crianças do que aí. E por isso nas vossas cidades e aldeias se ouvem risos de crianças a correr atrás de uma bola, alguns imagino a sonhar ser outro Eusébio, o nosso, teu e meu, herói. E é esse riso de criançada pelas ruas, riso que nesta fotografia tirada um dia no norte de Moçambique, não vejo no teu rosto, que me faz pensar que és hoje feliz por o ouvires. Por os ouvires. Imagino que lutaste muito, contra a guerra, a doença e a fome. E que trouxeste a tua mãe para viver contigo quando te mudaste para a cidade grande. Ela agora também se ri muito com os chutos dos bisnetos.


Uma crónica que emociona — entre memórias, feridas e afetos, sobra o riso dos que resistem. Abraço