O imenso mundo de Malena Martins
- joaquimgouveia06
- 6 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 9 de dez. de 2025
A CIDADE LUZ ILUMINOU-SE PARA A JOVEM SETUBALENSE

Maria Helena Martins, rapariga muito jovem, bonita, vencedora do 1º Concurso da Rainha do Sado, partiu sem glória da sua terra onde, por via desse enorme feito, foi destratada e, quase, condenada ao insucesso. Mas não se ficou pelo mal dizer da cidade a que hoje, regularmente, regressa com a mesma determinação com que partiu. Estudou em Lisboa e, depois, em Paris, onde cursou Comunicação Social. Num ápice e devido às suas linhas de modelo de passerelle e fotografia, abraçou uma carreira na moda que a catapultou para um percurso, verdadeiramente, extraordinário na época, cruzando-se com as grandes figuras não só da moda como das artes numa Paris, completamente iluminada pelo progresso e bom gosto. O mais difícil foi deixar os pais em Setúbal, confessa ainda hoje, mas a decisão estava tomada por que Malena Martins, nome posteriormente adotado na sua carreira, quis fugir a um destino ditado pela boca da inveja, conquistando o seu palco e plateia longe dos olhares da maledicência e perto dos que a acolheram como a modelo portuguesa que, naquela altura, maior furor fez na moda parisiense entre estilistas e casas de renome. Quando aqui regressa traz consigo a simplicidade e o afeto que muito lhe admiramos. Ainda bem!
Joaquim Gouveia - Que é feito de ti Malena?
Maria Helena Martins - Continuo vivendo e trabalhando na Moda em Paris, apesar de vir de vez em quando a Portugal. E cada vez mais frequentemente.
JG - Que recordações guardas dos teus tempos de modelo profissional?
MHM - Guardo as melhores recordações desse tempo. E sinto-me uma privilegiada por ter vivido essa profissão numa época descontraída e sem esta avidez de sucesso e rentabilidade. Só guardo bons momentos e bons amigos.
JG - Se fosse hoje seria possível traçares o mesmo percurso num mundo tão competitivo e exigente?
MHM - Talvez ... Mas a profissão não se exprime da mesma maneira. Com o que trabalhei, se fosse hoje, seria rica de certeza.
JG -- Entretanto saíste para Paris, ainda bastante jovem depois de teres conquistado alguns prémios em Portugal. Certamente não terá sido uma decisão fácil, tal como os primeiros tempos e a adaptação a um mundo onde, ao contrário da tristeza nacional, se vivia já com outras condições e prosperidade. Sem querer entrar muito na forma como foste destratada pelos setubalenses após venceres o Concurso da Rainha do Sado, até porque a polémica já vai longe, mas este terá sido um dos motivos fortes…
MHM – O que me fez mal foi ter deixado os meus pais, mas o contexto em que vivia em Setúbal, depois do Concurso de Rainha que ganhei, não me deixou margem e parti sem lamentos. Setúbal, queria destruir a minha vida e eu não deixei. Os anos passaram e em cada dia eu confirmo que foi o melhor que fiz.

JG – E o que mais se destacou nas emoções que, certamente, sentistes em termos de uma nova vida longe da terra onde nasceste, estudaste e cresceste? A saudade da família e dos amigos, o cheiro do rio, os ares da serra…
MHM - Com 19 anos não nos pomos essas perguntas. Queremos descobrir a vida, as cores, a cidade, arranjar amigos, refazer-nos. A saudade sempre se cura com novas emoções. Seguir em frente. Viver.
JG – Em França foste uma modelo de exceção. Por cá nem todos sabem dessa tua ascendência e dos nomes grandes da moda com quem trabalhaste. Foi um mundo enorme que se ergueu na tua frente…
MHM – Nem eu tive a mínima curiosidade em explicar a ninguém o que fazia. A bisbilhotice não é a minha vocação e nem quero dar imaginação a gente que nunca fez nada para sair do gueto. Deixo que imaginem as coisas do jeitinho deles com a sujeira dos seus pensamentos.
JG - O mundo da moda é hoje muito mais exigente. Naquele tempo alguma vez te sentiste em posição mais vulnerável perante decisões menos consentâneas com as exigências da própria profissão?
MHM - O mundo da moda sempre foi muito exigente, muito duro e feito para uma élite. Não trabalha na moda quem quer, nem quem sonha. Trabalha na moda quem tem equilíbrio e força para suportar uma vida, que apesar das paletes, não tem nada de cor-de-rosa. Vence na moda quem tem um grau de paciência, de abnegação e de espírito de equipa muito grande. É preciso “engolir sapos” sem perder o sorriso duma capa de revista. E sei, por experiência que o conceito continua.

JG - Ainda há poucas semana a modelo setubalense Camila Vitorino, representou Portugal, na Miss Universo. Segundo a critica, embora não tendo saído vencedora, conquistou muita simpatia e deixou em aberto muitas possibilidades de sucesso para o seu futuro. Conheces a Camila? Qual o melhor conselho para esta jovem tão promissora?
MHM - Mais ou menos, tomei conhecimento e vi que tem uma maneira luminosa de desfilar e se impor. Mas até alguém reagiu agressiva quando eu disse que não iria ganhar nada. Um Concurso, que é o maior do mundo, nunca iria dar o premio a uma senhora com família constituída. Porque o ano que se segue ao Concurso é cheio de desafios, pessoas novas, países novos, muitas noites e dias sem dormir. Está em jogo milhões em publicidade e não há um minuto para a vida do antes. Jamais fariam uma Miss desfazer um passado onde há uma criança em jogo. Dentro desse jogo de vida há o antes e o depois. Tudo depende da educação que trouxemos para ele. Desejo tudo de bom para ela e felicidades para a sua família. Pode ter uma carreira como modelo e se souber aproveitar e fazer disso o seu trabalho, até ganhar mais do que as outras, graças a este Concurso.
JG - Que pensas, neste momento de Setúbal, a tua cidade e onde manténs uma presença muito regular?
MHM - Setúbal evoluiu imenso. A cidade modificou-se. Tem uma vida cultural invejável e montes de distrações. Um rio azul inigualável com acessos a praias como nunca tinha pensado vir a ver. As obras que foram feitas na cidade para melhorar o seu aspecto, contribuíndo para a sua modernidade, são dignas duma grande cidade europeia.
JG - Se fosses presidente da nossa Câmara, qual era a primeira medida que tomavas?
MHM - Comprava uns tampões bem fortes para não ouvir tanto disparate sobre o que se faz, ou não. Depois faria o que atualmente se faz. Contava os tostões que se tem e fazia das “tripas coração” para continuar as obras pagando a todos à medida que o dinheiro estica para isso.
JG - Que mensagem tens para deixares aos setubalenses?
MHM - Vem-me à cabeça a palavra coragem. Vem-me ao coração um turbilhão de sentimentos. Acho que conheci os melhores momentos a que poderia aspirar viver. No meu percurso de vida houve a emancipação das mulheres, houve a liberdade do movimento hippie, houve a revolução pacifica que nos mudou o nosso mundo português, houve uma melhoria de vida económica, que mesmo sendo fictícia, nos elevou ao prazer de nos sentirmos cidadãos do mundo. Tanta coisa boa, tanta coisa que nos fez acreditar e tudo isto num país sem guerra e em harmonia.



É incrível ver como alguém tão jovem enfrentou críticas e inveja em Setúbal, partiu para Paris e conseguiu conquistar o seu espaço no mundo da moda, mantendo sempre humildade e autenticidade. Gosto da forma como fala com tanta honestidade sobre a vida, sobre a sua cidade e sobre os desafios que enfrentou. Dá para sentir a força e a coragem que teve, mas também a ternura com que encara a sua terra e as suas raízes. Malena é um exemplo de como é possível transformar obstáculos em oportunidades e continuar a ser fiel a si mesma. Um verdadeiro orgulho setubalense! Parabéns!!!