O OUTONO É A BENÇÃO DE PODER PARAR
- Maria José Afonso

- 22 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de out. de 2025
Há dias em que o outono parece um agradecimento. A chuva cai direita, sem arrogância, como quem pede licença para lavar o ar e devolver o cheiro das pedras. Chaves, nessas manhãs, torna-se uma cidade de melancolia boa, aquela que não dói, que apenas confirma que estamos vivos.
As ruas molhadas ganham brilho de espelho. O chão , lavado pela primeira vez em semanas, mostra a sua verdadeira cor. O som da água a bater nas varandas mistura-se com o das conversas lentas dos cafés, onde se fala de tudo e de nada. E é aí que se percebe que o essencial está nas pequenas coisas: o guarda-chuva que teima em abrir ao contrário, o cão que atravessa a rua sem pressa, o ventinho que anuncia que o tempo mudou.

Há quem diga que o outono é triste. Não é. É o tempo da lucidez. O tempo em que a natureza se despe para se preparar, sem drama, para recomeçar. Chaves entende isso melhor do que qualquer outra cidade. Tem a serenidade das águas termais e a teimosia das muralhas , uma combinação rara de cura e resistência.
Andar por aqui num dia de chuva é um privilégio. Há um silêncio que não existe em mais lado nenhum. A cidade parece suspensa entre séculos, com o presente a fazer-se devagar, sem urgência. E quando a chuva cai “certinha”, como dizem os antigos, há uma paz quase infantil em deixar-se molhar um pouco, só para lembrar que o corpo ainda sente.
O outono é isto: a bênção de poder parar. De olhar para o céu, mesmo cinzento, e agradecer o simples facto de o ver. E Chaves, nesses dias, é a cidade que apaixona porque não precisa de tentar — basta ser.


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