O PODER DE UM LEGADO
- Ana Acto

- 22 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de out. de 2025

"A idade chega-nos a todos, é uma realidade, olhamos tantas vezes para os mais idosos, o que seremos um dia, os vemos mais apáticos, calados, muitas vezes de olhar perdido."
Já escrevi anteriormente sobre as minhas avós e muito há ainda a dizer sobre estas duas grandes mulheres. A propósito, aqui entre linhas, as minhas avós eram irmãs, sim, meus pais eram primos. Pronto, e agora já sabem como saí assim, com esta minha estranha forma de ser, com uma loucura saudável, modéstia à parte, que até sou boa rapariga.
Hoje tenho comigo a minha avó materna, veio de Tomar e estará cá uns dias. E ontem no evento de uma amiga, em que lançou um livro de receitas, falava-se do que nossas antecessoras nos transmitiam, receitas, ensinamentos, mezinhas. E hoje, logo pela manhã, fazia na loja as minhas brindeiras, uns bolos de erva doce e canela tradicionais da minha terra, receita desta minha avó. Sorri, ela chegou e a loja tinha-se enchido com o aroma dos seus bolos quentes, os “seus” bolos, a sua herança. Claro que já nem era eu se não metesse a minha mãozinha e alterasse algo na receita, um acrescento disto outro daquilo, (ela não achou muita piada) mas... os seus ensinamentos. Minha “tareca” chamou-me ela carinhosamente quando me viu. Saí mais cedo do trabalho e levei-a a passear, fazer umas compras, comprámos sapatos, molas para a roupa e... cacaréus, ora bem, cacaréus são bugigangas, aquelas coisas que as mulheres compram e que basicamente nem fazem falta, só servem para gastar dinheiro e ocupar espaço, mas que sabe-se lá porquê, precisam desesperadamente e... compram.
E fomos para casa, sentamo-nos as duas a almoçar, e a conversa foi surgindo. E foi-me falando das dificuldades de quando era jovem, de como antes de fazer 18 anos, fazia todos os dias vários quilómetros com 6 l de leite numa mão e medidores noutra e ia passando por várias aldeias a vendê-lo, pois tinham uma vacaria, de como os seus pais (meus bisavós) que sempre chamei a avó Iria e avô das vaquitas, tinham sempre trigo, centeio, milho, feijão e grão, de como era grande a sua adega, de como matavam 2 a 3 porcos ao ano e tinham sempre carne nas salgadeiras, de como depois de jantarem, e eram muitos (12 irmãos), ainda iam fazer com panelas grandes, queijo para venderem. E que depois de casar, teve a mesma vida, mas agora comandava ela as tropas nas suas fazendas, e lembro bem, também eu fui aí criada, fazia vindima, pisava as uvas, provava o vinho que o meu avô dava a provar da pipa (Ah o meu avô, e esse, dava outras tantas crónicas), e as sopas de cavalo cansado! Pois era...
Nas matanças ajudava a mexer o sangue quente, para não talhar e fazer os enchidos com as tripas (uma imagem forte eu sei, mas era assim, hoje não o conseguiria fazer), apanhei batatas da terra, com o crivo joeirava o feijão na eira. Ia com ela buscar os ovos no galinheiro, e era uma aventura, ou espreitava os coelhos bebés (pareciam ratos sem pelo). E as histórias continuavam a brotar, tanto para contar, tanto para ouvir, tanto para recordar, tanto para aprender.
E é esse o legado que nos deixas, esses valores, tradições, costumes e a tua história, que nos moldou como pessoas, com uma personalidade, gostos e características tão próprias.
A idade chega-nos a todos, é uma realidade, olhamos tantas vezes para os mais idosos, o que seremos um dia, os vemos mais apáticos, calados, muitas vezes de olhar perdido. Quantas vezes o estarão em pensamentos, memórias, saudades...
São enciclopédias vivas, terapeutas, curandeiros, colo.
Quis partilhar um pouco convosco a vida desta mulher (minha avó Natália), um pouco porque tinha tanto aqui para escrever, ao reler parece-me tão, mas tão pouco.
Uma vida entre tantas, mas para mim única, que fez de mim uma parte (enorme) da mulher que hoje sou.


Um texto que cheira a erva-doce e memórias — doce, genuíno e cheio de alma. Esta avó vive em cada palavra que escreveu.