Opinião
- Rafael Rodrigues

- há 6 dias
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Crónica do primeiro Dia igual a todos os outros

Acordei hoje, dia 1 de janeiro de 2026, com aquela sensação épica de quem espera encontrar o mundo remodelado durante a noite. Fui à janela, espreitei o horizonte, ouvi os primeiros ruídos do dia… e nada. Absolutamente nada.
O mundo continuava no mesmo sítio, a vizinhança igual, o café a saber a café e eu… igualzinho a ontem, só com menos champanhe no sangue e mais lucidez no pensamento.
Confesso que pensei escrever uma crónica novinha em folha, dessas cheias de resoluções musculadas, promessas em forma de halteres e planos de vida dignos de PowerPoint motivacional. Mas a cabeça velha, experiente e algo desconfiada, disse-me logo:
Rafa, não inventes! O ano mudou, mas o ser humano não levou atualização automática.
Por isso fiz batota. Em vez de reinventar o mundo, fui buscar um poema antigo, sábio e perigosamente atual. Um daqueles textos que nos lembram que amar continua a ser difícil, esquecer ainda mais, os amigos são raros, os inimigos pedagógicos, o dinheiro manda mais do que devia e o riso, quando é forçado, dá cãibra na alma.
E é isso que me fascina. Passam-se anos, décadas, séculos… e continuamos a desejar exatamente o mesmo, que é amor que não doa, amizade que não falhe, utilidade sem escravidão, tolerância sem estupidez e um bocadinho de alegria que não venha com fatura emocional.
O poema diz tudo. Diz tanto que quase nos dispensa de falar. E talvez seja essa a grande lição deste primeiro dia do ano, menos barulho, menos fogo de artifício interior, menos promessas gritadas. Mais silêncio atento. Mais humanidade prática. Mais copos levantados sem discursos.
Desejos? Já ouvimos tantos que até o coração pediu pausa. Por isso não desejo nada de novo. Desejo apenas que saibamos usar melhor aquilo que já desejamos há anos e nunca cumprimos totalmente.
E agora sim, como manda a tradição e a boa educação emocional, vamos!
À nossa, à saúde… tchimmmmm tchimmmmm!
Abraços apertados, beijos sem conta ou com conta, conforme a idade e as costas, e aquela amizade que não precisa de calendário para continuar.


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