Porque hoje há Zink...
- Rui Zink

- 20 de mai.
- 3 min de leitura
O BEBÉ QUE NÃO GOSTAVA DE TELEVISÃO

Antipatizei com a agente literária. Em minha defesa ela antipatizou primeiro, mas sim, é verdade, depois eu também antipatizei. Ou terei sido o primeiro a antipatizar e ela só antipatizou depois? Não sei, já estou baralhado, não me lembro, e que importância tem quem antipatizou primeiro? O certo é que ambos antipatizámos um com o outro. Outra a situação e um teria desandado. Só que não podíamos desandar. Estávamos presos ali naquela ‘uaiteres residã’, mais retidos que em dia de greve gasolina num jerricã.
De resto, ela só tinha olhinhos para os putos americanos como ela que estavam a escrever o primeiro livro. Ia ter com eles e, sem ver sequer o que estavam a (tentar) escrever), oferecia-se para os agenciar. Não se preocupassem, ia ser limpinho, bastava dizer que o livrojá estava “em opção para Hollywood” e seria limpinho, vendido numa dúzia de países europeus, que aquela malta é muito compradoira. (Nota para os mais novos: ‘Hollywood’ é a antepassada da Netflix.)
A dada altura, após o jantar, ela chegou-se ao pé de mim e, por protestante cortesia, perguntou: “Algum destes livros (aqui na prateleira) é teu?”
Na altura ainda não havia ChatGPT para nos fornecer as melhores opções estratégicas, mas eu era um Napoleão um Grant um Alexandre o grande em ponto pequenino. E percebi que de nada serviria falar-lhe de um livro cheio de páginas escritas numa língua que não entendia. O que iria eu dizer, “beri gude”? “It will sell laike bagels?” Mostrar é sempre melhor que comentar – e aí mostrei a única coisa que ali tinha para mostrar: O bebé que não gostava de televisão.
Não expliquei o livro, foi mesmo mais show que tell: traduzi automaticamente e fui virando as páginas, sem explicar sequer a relação entre palavras (agora ‘words’) e desenhos. É um dos lados bons dos livros para crianças pequenas: rápidos de ler, seja para uma criança ou, naquele caso, para uma adulta.
Ela queria ir embora, mas a educação impediu-a.
Quando terminei, apenas murmurou: “Ah… É sobre crianças e televisão. Nós aqui na América interessamo-nos muito por televisão.” E, percebendo o que disse, acrescentou logo, muito nervosa: “E também por crianças!”
Perguntou-me se tinha agente. Eu tinha uma, naquele tempo, apenas de nome, eu estava na lista dos comatosos, mas naquele momento foi muito útil. Aí a americana viu que eu era ‘legit’. E foi falar com a outra.
Contei ao Manuel João e ele, eufórico, seguro de que a nossa fortuna estava feita, comprou uma quinta. Eu, mais contido, apenas um Porsche.
O contrato fez-se, estava tudo a correr muito bem, um dia ela pede que lhe envie uns tantos mais exemplares, ela pagava, deu-me o código para eu entregar na editora portuguesa. Os exemplares que eu enviasse (trinta) davam jeito para os mostrarem já ao comerciais das costas leste e oeste a dizer o “new Cat in the Hat” (sic, houve mesmo um blurb a dizer isso) que aí vinha na próxima temporada. Pãezinhos, ia vender que nem pãezinhos! Ou bagels. Ou galões se forem rebaptizados ‘Latte’.
Aqui começou o pesadelo. Pedi a um tipo cá na editora, muito simpático, boa onda, que disse com o voluntarismo que tanto nos caracteriza: “Vai já segunda-feira, Rui. Não te preocupes!”
E eu esqueci a regra sagrada: nunca confiar em alguém que diz “Não te preocupes”, sobretudo se trabalhar numa editora. Outra coisa que esqueci: uma pessoa dizer que vai fazer não quer dizer que vá fazer. Nem é por mal. Outras prioridades surgem. Uns dias depois lembrei-lhe, e ele disse: “Vou já reconfirmar com o armazém.” Mas era evidente, pela sua voz, que se tinha esquecido. Os dias passaram. A agente ligou-me dos Estados Unidos, os livros já deviam ter chegado. Falei de novo com o tipo da editora, e ele disse que já tinha dado instrução ao armazém. Desta vez acreditei nele mas pedi-lhe que confirmasse, porque nessa altura já me lembrava do provérbio espanhol do século XVII: “Se obedece pero no se cumple.” Ligou um dia depois a dizer que naquele armazém não tinham, mas iam já ver se no outro havia.
Resultado: perdemos um precioso mês e o livro foi apresentado às escuras aos comerciais, aquilo que precisamente eu tinha evitado quando vendi (sim, fui eu que vendi, pela minha experiência com agentes e editores foi quase sempre assim, embora depois queiram uma fatia grossa do bolo) o livro à americana com a qual até tinha antipatizado mas, em minha defesa, ela antipatizara comigo primeiro.
Ainda assim, ‘O bebé que não gostava televisão’ lá teve a sua viagem americana. E encontrou leitores. Perdão, ‘ríderes’.

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