Setúbal dos laranjais à “plantação” de cimento urbano
- Joaquim Gouveia

- 22 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de out. de 2025

“Setúbal, das sardinhas, dos laranjais e vinhas e do louro moscatel”. Assim dizia a marcha do centenário que enaltecia uma cidade que repartia o mar com o campo, a vida na pesca e na agricultura. A laranja de Setúbal, era afamada, crescia por todas as quintas da cidade e gerava vários postos de trabalho.
O poeta e escritor Cabral Adão escreveu, no seu livro “Flores do rio azul”, sobre a laranja setubalense: “dulcíssima, sumarenta, de casca agarrada, impregnada de subtílimas essências citrinas que não tem inveja à mediterrânica ou sudatlântica, criada na brisa do Sado azul e da costa da Galé”.
A cidade envaidecia-se de tão nobre tradição quebrada, entretanto, nos finais da década de cinquenta aquando da desenfreada construção dos novos bairros citadinos que vieram a ocupar o lugar das antigas quintas.

O Plano Geral da Urbanização de Setúbal, de 1944, (ver em baixo), mostra uma cidade ainda pejada de quintas e pomares. Mas a partir dos anos sessenta, fruto da crescente industrialização do concelho foi necessário criar novos edifícios para albergar os muitos forasteiros que chegavam à cidade à procura de emprego. Assim nascem os bairros novos e com eles dá-se a decadência dos pomares que, anos mais tarde, acabarão mesmo por sucumbir.
Setúbal era uma cidade bela e pacata. Na sua passagem por estas terras o escritor dinamarquês Hans Cristhian Anderssen terá mesmo afirmado: “Depois de percorrer toda a Europa e parte do Oriente, em busca de um lugar de eleição encontrei, ao cabo do mundo, Setúbal, o Paraíso terreal”.
Muitas eram, pois, as quintas que despontavam por toda a cidade e mesmo pelo concelho. Quinta do Hilário, da Bezelga, das Rosas, Valverde, S. Paulo, Boavista e Bonecos, entre muitas outras destacavam-se pela excelência dos seus pomares onde a laranja despontava.
O “Doce de Laranja”, da antiga “Confeitaria Abrantes” era vendido à porta dos “Belos”, antiga estação rodoviária da cidade (hoje em demolição), por vendedeiras que ali montavam as suas bancas prontas a servir os viajantes.
Hoje a realidade é bem diferente e Setúbal perdeu a originalidade da sua laranja que despontava sobre ramos com picos, característica que a tornava única e deveras saborosa.
Para a história ficam recordações de uma cidade que, apesar de tudo, soube cantar as suas enormes qualidade.
A doce Pastelaria Abrantes

O Governo Republicano liderado por António Maria da Silva, nascido em 7 de dezembro de 1922, poucos dias antes de em Setúbal abrir portas ao público a Pastelaria Abrantes, viria a finar-se um ano depois, em 15 de novembro de 1923.
O mesmo não aconteceria com o estabelecimento setubalense que ainda se encontra entre nós, cheio de vitalidade e em plena laboração, quando está prestes a completar um século de vida.
Ao longo de todas estas décadas esta antiga casa tem vindo a brindar os seus clientes com doces especialidades cujas receitas e métodos de fabrico vão passando de geração em geração.
Seja no campo das bebidas, de que é exemplo o célebre anis Elmano Sadino, aos afamados Bolo Rei e Bolo Rainha, passando pela doçaria, com o antigo e popular “Doce de Laranja” são produtos de alta qualidade que facilmente os setubalenses identificam.
Esta emblemática casa foi fundada no distante 22 de dezembro de 1922 e tem as suas instalações na baixa da cidade de Setúbal, na Rua Estevam de Vasconcelos nºs 34 e 38.
Se o bolo rei deixou de ter a fava e o brinde, por força de imposição da Lei, ele não deixou de ser menos saboroso por isso mesmo, tal como o doce de laranja que em tempos passados era também comercializado por vendedores ambulantes, populares figuras que os mais antigos setubalenses ainda bem se lembram.
E era normalmente junto à estação rodoviária dos Belos, na Avenida 5 de outubro, que podíamos ver esses mesmos vendedores de cesto enfiado no braço apregoando o delicioso produto a quem chegava ou partia nos autocarros de cor verde daquela antiga empresa sedeada em Azeitão.
A prestigiada pastelaria modernizou-se e hoje para além das doces iguarias de fabrico próprio serve também refeições a preços módicos.
Mas é o agradável cheirinho do pão de fabrico caseiro que mais atrai o visitante que passa à sua porta, enquanto na nossa memória ainda ecoa o pregão dos vendedores: “Doce de laranja, especialidade de Setúbal”.
Rui Canas Gaspar 2015-outubro-27


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