Postal do Barroso - Sete bombeiros e um país inteiro dentro de um fardamento
- Maria José Afonso

- 16 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

O Rodrigo Pereira disse-me, com as pernas quase a tremer mas a voz firme, que isto “vai ser engraçado”. Tem nome de almirante e olhos de quem nunca fugiu a uma responsabilidade. Estavam ali, alinhados, sete novos bombeiros de terceira, com o nervoso miudinho de quem já sabe o que vai custar e mesmo assim diz que sim. É um daqueles dias em que se cresce sem pedir licença. uma espécie de batismo que teve mesmo água.
É bonito, este início. Esta coisa rara de querer fazer parte de uma estrutura que nos exige mais do que dá. O Rodrigo explicou, sem grandes floreados, que quis entrar nos bombeiros “porque é bom para a terra”. Disse-o com aquela clareza que só os muito novos (e os muito sérios) conseguem ter: “Muita gente pensa que é fácil, mas não é.” Já percebeu, como tantos antes dele, que o voluntariado não é só tempo livre, é escolha, sacrifício e compromisso. Gostou particularmente das formações com cordas, montanhismo, resgates, essas artes de pendurar a vida pelos ganchos da coragem.
O Fábio foi mais direto: “Sempre tive este bichinho.” Entrou porque o chamaram, e porque há coisas que não se conseguem explicar, apenas sentir. Os bombeiros, para ele, são “uma profissão um bocado de risco… mas é bom.” Está lá tudo. O medo, o respeito e a decisão. E nota-se que sabe que a comunidade nem sempre compreende, mas isso não o impede de ir. “Os bombeiros fazem sempre falta.” Ponto final.
Depois o Alexandre Barroso, 21 anos acabados de fazer, explicou que isto “já impõe algum respeitinho”. Entrou com os amigos, seduzido pela adrenalina e pelo serviço. Gosta da ideia de poder ajudar, de não passar a vida apenas a trabalhar e a dormir. E quando diz que agora pode “ajudar o quartel de Montalegre”, não é gralha nem exagero, é humor de quem está nervoso mas não recua. Sabe-se já dentro da equipa, da família.
Falta o Martim. O meu bombeiro. Óbvio que não quis prestar declarações à mãe jornalista. O silêncio dele diz mais do que qualquer frase feita. Não há entrevistas, mas conheço-lhe os valores. Crescer a saber onde se deve estar, mesmo que ninguém repare. Ser discreto, ser firme. Ser útil. Tudo o que lhe falta em palavras, há de ter em ação, e isso basta-me.
São todos diferentes. Um gosta dos incêndios florestais, outro das operações com cordas. Um acha que a comunidade reconhece, outro acha que sim e não, depende dos dias. Todos sabem que há mais acima, que serão sempre novos, sempre a aprender. Mas o que fica é esta convicção limpa: que vale a pena. Que a integração é uma escola de vida, como disse o comandante. Que o padrinho escolhido por afinidade é mais do que formalidade, é bússola, é abrigo.
Sete bombeiros novos é pouco numa folha de Excel. Mas é muito numa aldeia. São sete futuros a começar num país que precisa, como nunca, de gente que não desista. Gente que, como eles, olha para o risco, para o frio, para a sirene, e diz: “Claro. Sempre.”


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