Rafael Rodrigues

“ACHAVAS QUE ESCREVIA SONETOS BASEADO EM COUVES?...”

Há encontros que se marcam. Outros acontecem.
E depois há aqueles que nunca aconteceram, mas deviam ter acontecido.
Foi assim que, numa tarde qualquer, enquanto caminhava por Setúbal, sem destino certo, dei comigo parado junto à estátua de Bocage. Olhei para ele. Ele olhou para mim, pelo menos foi essa a impressão que tive. E pensei, meu caro Manuel Maria Barbosa du Bocage, se tu soubesses como anda isto...
Foi então que ouvi uma voz atrás de mim, a do
Bocage:
Anda como sempre andou. Só mudaram os casacos.
Virei-me.
Ali estava um homem magro, olhar vivo, cabelo desalinhado, ar de quem tinha acabado de sair de uma taberna depois de discutir poesia, política, mulheres, religião e a conta do vinho.
Rafael:
Desculpe... nós conhecemo-nos?
Bocage:
Tu talvez me conheças. Eu é que ainda estou a decidir se vale a pena conhecer-te.
Gostei imediatamente do homem.
Rafael:
Bocage?
Bocage:
O próprio. Embora já tenha ouvido chamar-me coisas piores.
Olhei novamente para a estátua. Depois para ele.
Rafael:
Então aquele ali...
Bocage:
É a versão oficial. Está calado, não bebe e não incomoda ninguém. Por isso é que gostam tanto dele.
Comecei a rir. Estava apresentado o poeta. Seguimos pela cidade. Parámos no café. Eu tinha encontrado Bocage e, convenhamos, não era ocasião para perguntar pelas horas…
Rafael:
Dizem que foste um grande boémio.
Bocage:
Dizem isso porque fica melhor nos livros. Eu diria apenas que gostava da vida e tinha o péssimo hábito de querer vivê-la.
Rafael:
Mulheres?
Olhou para mim como quem tinha acabado de ouvir a pergunta mais desnecessária da História.
Bocage:
Rafael... sou poeta. Achavas que escrevia sonetos inspirado em couves?...
E continuámos. Falava das paixões com aquele sorriso de quem sabia que o amor pode ser uma coisa muito séria, sobretudo quando não levamos demasiado a sério quem ama.
Perguntei-lhe se tinha amado muito. Parou. Desta vez não brincou.
Bocage:
Amei. E sofri. Muitas vezes pelas mesmas pessoas. O amor tem esse defeito extraordinário: quando funciona, tira-nos o juízo. Quando acaba, devolve-nos o juízo tarde demais.
Aquilo ficou-me. Continuámos a caminhar.
Rafael:
E a tua vida? Foi feliz?
Bocage encolheu os ombros.
Bocage:
Felicidade? Vocês hoje continuam à procura disso?...
Rafael:
Mais do que nunca.
Bocage:
Então continuam tramados.
Ri-me.
Bocage:
No meu tempo ninguém tinha felicidade para mostrar aos outros. Quando muito tinha-se uma boa noite, um amigo, uma paixão, uma mesa com vinho e alguma esperança para o dia seguinte. Vocês inventaram essa coisa extraordinária de parecer felizes.
Olhou para mim.
Bocage:
Diz-me uma coisa, Rafael. Hoje as pessoas ainda conversam?
Hesitei.
Rafael:
Conversam...
Bocage:
Essa pausa respondeu por ti.
Expliquei-lhe os telemóveis, as mensagens, as redes sociais, os milhares de amigos que algumas pessoas têm sem conhecer verdadeiramente meia dúzia. Ficou espantado.
Bocage:
Mil amigos?!...
Rafael:
Às vezes cinco mil.
Bocage:
E quando precisam de ajuda aparecem os cinco mil?
Rafael:
Aí já estamos a falar de outra matemática.
Bocage soltou uma gargalhada.
Bocage:
Então inventaram uma praça onde toda a gente fala e quase ninguém escuta! Admirável progresso!
Comecei a perceber que ressuscitar Bocage, podia ser perigoso.
Perguntei-lhe pela política. Talvez não devesse.
Bocage:
Ainda existem políticos?
Rafael:
Existem.
Bocage:
Prometem?
Rafael:
Muito.
Bocage:
Cumprem?
Olhei para ele.
Ele olhou para mim. Não foi preciso dizer nada.
Bocage:
Finalmente uma tradição portuguesa que vocês conseguiram preservar!
Desatámos os dois a rir. Depois contou-me das prisões, das perseguições, da pobreza, das aventuras, dos excessos, da passagem pela Índia, das desilusões e daquele espírito inquieto que nunca conseguiu caber dentro das regras que os outros lhe queriam impor.
Rafael:
Valeu a pena viver assim?
Ficou algum tempo em silêncio.
Bocage:
Não sei, Rafael. Mas aprendi uma coisa, uma vida inteira passada a agradar aos outros acaba por desagradar profundamente ao homem que encontramos no espelho.
Aquilo já não era Bocage, o libertino. Era simplesmente um homem que tinha vivido.
Rafael:
Então que conselho darias a alguém do meu tempo?
Bocage:
Só um?...
Rafael:
Começa por um. Não abuses.
Sorriu.
Bocage:
Não adies demasiado aquilo que te faz sentir vivo.
Ficámos calados, depois acrescentou.
Bocage:
Diz aos teus amigos que bebam o café enquanto está quente. Que abracem enquanto têm braços para abraçar. Que digam gosto de ti antes de o outro precisar de o ouvir numa homenagem. Que não guardem palavras bonitas para os mortos. Os mortos já não precisam delas.
Desta vez fui eu que fiquei sem resposta.
Rafael:
E os problemas?
Bocage:
Resolvem-se os que podem ser resolvidos. Os outros não merecem que lhes entreguemos também a nossa alegria.
Rafael:
E a idade?
Bocage riu.
Bocage:
A idade é uma invenção dos calendários para assustar gente distraída.
Boa resposta. Essa guardei. Já regressávamos ao largo quando lhe fiz a última pergunta.
Rafael:
Se voltasses hoje à vida, o que farias?
Olhou em redor.
Setúbal passava por nós. Gente apressada. Carros. Telemóveis. Esplanadas. Homens preocupados. Mulheres bonitas. Velhos conversando. Jovens correndo atrás de sabe-se lá quê.
Bocage sorriu.
Bocage:
Provavelmente fazia exactamente o mesmo.
Rafael:
Escrevias?
Bocage:
Muito.
Rafael:
Amavas?
Bocage:
Demais.
Rafael:
Bebias?
Bocage:
Rafael, não estragues uma conversa séria com perguntas cuja resposta já sabes.
Gargalhei. Chegámos novamente à estátua. Antes de desaparecer, virou-se para mim.
Bocage:
E tu? O que vais fazer com aquilo que ainda te resta?
A pergunta apanhou-me desprevenido.
Rafael:
Viver.
Ele sorriu.
Bocage:
Então não perdeste o teu tempo comigo.
Dei dois passos. Voltei-me. Já não estava lá. Apenas a estátua. Imóvel. Séria. Olhei para aquele Bocage de bronze e murmurei, tu és muito mais engraçado fora daí. E ainda me pareceu ouvir:
Claro que sou. Experimenta tu ficar aí parado duzentos anos.
Continuei o meu caminho. Não sei se encontrei Bocage. Não sei se sonhei. Mas fiquei com uma certeza. Passamos demasiado tempo preocupados em acrescentar anos à vida e esquecemo-nos, algumas vezes, de acrescentar vida aos anos.
Talvez aquele velho boémio setubalense tivesse razão. A vida não exige que sejamos santos. Pede apenas que sejamos verdadeiros, que saibamos rir, amar, ter amigos, cair algumas vezes, levantar outras tantas e, sobretudo, não chegar ao fim com a sensação de termos assistido à nossa própria vida sentados na primeira fila.
Quanto ao Bocage... Se algum dia passarem pela estátua dele e ouvirem alguém rir, não se assustem. Pode ser apenas o vento. Ou pode ser ele a olhar para nós e a pensar:
Mudaram os séculos... mas estes tipos continuam exactamente na mesma.

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