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Rafael Rodrigues

Foto do escritor: Rafael Rodrigues
Rafael Rodrigues
19 de set.
4 min de leitura

“ACHAVAS QUE ESCREVIA SONETOS BASEADO EM COUVES?...”



Há encontros que se marcam. Outros acontecem.

E depois há aqueles que nunca aconteceram, mas deviam ter acontecido.

Foi assim que, numa tarde qualquer, enquanto caminhava por Setúbal, sem destino certo, dei comigo parado junto à estátua de Bocage. Olhei para ele. Ele olhou para mim, pelo menos foi essa a impressão que tive. E pensei, meu caro Manuel Maria Barbosa du Bocage, se tu soubesses como anda isto...

Foi então que ouvi uma voz atrás de mim, a do

Bocage:

Anda como sempre andou. Só mudaram os casacos.

Virei-me.

Ali estava um homem magro, olhar vivo, cabelo desalinhado, ar de quem tinha acabado de sair de uma taberna depois de discutir poesia, política, mulheres, religião e a conta do vinho.

Rafael:

Desculpe... nós conhecemo-nos?

Bocage:

Tu talvez me conheças. Eu é que ainda estou a decidir se vale a pena conhecer-te.

Gostei imediatamente do homem.

Rafael:

Bocage?

Bocage:

O próprio. Embora já tenha ouvido chamar-me coisas piores.

Olhei novamente para a estátua. Depois para ele.

Rafael:

Então aquele ali...

Bocage:

É a versão oficial. Está calado, não bebe e não incomoda ninguém. Por isso é que gostam tanto dele.

Comecei a rir. Estava apresentado o poeta. Seguimos pela cidade. Parámos no café. Eu tinha encontrado Bocage e, convenhamos, não era ocasião para perguntar pelas horas…

Rafael:

Dizem que foste um grande boémio.

Bocage:

Dizem isso porque fica melhor nos livros. Eu diria apenas que gostava da vida e tinha o péssimo hábito de querer vivê-la.

Rafael:

Mulheres?

Olhou para mim como quem tinha acabado de ouvir a pergunta mais desnecessária da História.

Bocage:

Rafael... sou poeta. Achavas que escrevia sonetos inspirado em couves?...

E continuámos. Falava das paixões com aquele sorriso de quem sabia que o amor pode ser uma coisa muito séria, sobretudo quando não levamos demasiado a sério quem ama.

Perguntei-lhe se tinha amado muito. Parou. Desta vez não brincou.

Bocage:

Amei. E sofri. Muitas vezes pelas mesmas pessoas. O amor tem esse defeito extraordinário: quando funciona, tira-nos o juízo. Quando acaba, devolve-nos o juízo tarde demais.

Aquilo ficou-me. Continuámos a caminhar.

Rafael:

E a tua vida? Foi feliz?

Bocage encolheu os ombros.

Bocage:

Felicidade? Vocês hoje continuam à procura disso?...

Rafael:

Mais do que nunca.

Bocage:

Então continuam tramados.

Ri-me.

Bocage:

No meu tempo ninguém tinha felicidade para mostrar aos outros. Quando muito tinha-se uma boa noite, um amigo, uma paixão, uma mesa com vinho e alguma esperança para o dia seguinte. Vocês inventaram essa coisa extraordinária de parecer felizes.

Olhou para mim.

Bocage:

Diz-me uma coisa, Rafael. Hoje as pessoas ainda conversam?

Hesitei.

Rafael:

Conversam...

Bocage:

Essa pausa respondeu por ti.

Expliquei-lhe os telemóveis, as mensagens, as redes sociais, os milhares de amigos que algumas pessoas têm sem conhecer verdadeiramente meia dúzia. Ficou espantado.

Bocage:

Mil amigos?!...

Rafael:

Às vezes cinco mil.

Bocage:

E quando precisam de ajuda aparecem os cinco mil?

Rafael:

Aí já estamos a falar de outra matemática.

Bocage soltou uma gargalhada.

Bocage:

Então inventaram uma praça onde toda a gente fala e quase ninguém escuta! Admirável progresso!

Comecei a perceber que ressuscitar Bocage, podia ser perigoso.

Perguntei-lhe pela política. Talvez não devesse.

Bocage:

Ainda existem políticos?

Rafael:

Existem.

Bocage:

Prometem?

Rafael:

Muito.

Bocage:

Cumprem?

Olhei para ele.

Ele olhou para mim. Não foi preciso dizer nada.

Bocage:

Finalmente uma tradição portuguesa que vocês conseguiram preservar!

Desatámos os dois a rir. Depois contou-me das prisões, das perseguições, da pobreza, das aventuras, dos excessos, da passagem pela Índia, das desilusões e daquele espírito inquieto que nunca conseguiu caber dentro das regras que os outros lhe queriam impor.

Rafael:

Valeu a pena viver assim?

Ficou algum tempo em silêncio.

Bocage:

Não sei, Rafael. Mas aprendi uma coisa, uma vida inteira passada a agradar aos outros acaba por desagradar profundamente ao homem que encontramos no espelho.

Aquilo já não era Bocage, o libertino. Era simplesmente um homem que tinha vivido.

Rafael:

Então que conselho darias a alguém do meu tempo?

Bocage:

Só um?...

Rafael:

Começa por um. Não abuses.

Sorriu.

Bocage:

Não adies demasiado aquilo que te faz sentir vivo.

Ficámos calados, depois acrescentou.

Bocage:

Diz aos teus amigos que bebam o café enquanto está quente. Que abracem enquanto têm braços para abraçar. Que digam gosto de ti antes de o outro precisar de o ouvir numa homenagem. Que não guardem palavras bonitas para os mortos. Os mortos já não precisam delas.

Desta vez fui eu que fiquei sem resposta.

Rafael:

E os problemas?

Bocage:

Resolvem-se os que podem ser resolvidos. Os outros não merecem que lhes entreguemos também a nossa alegria.

Rafael:

E a idade?

Bocage riu.

Bocage:

A idade é uma invenção dos calendários para assustar gente distraída.

Boa resposta. Essa guardei. Já regressávamos ao largo quando lhe fiz a última pergunta.

Rafael:

Se voltasses hoje à vida, o que farias?

Olhou em redor.

Setúbal passava por nós. Gente apressada. Carros. Telemóveis. Esplanadas. Homens preocupados. Mulheres bonitas. Velhos conversando. Jovens correndo atrás de sabe-se lá quê.

Bocage sorriu.

Bocage:

Provavelmente fazia exactamente o mesmo.

Rafael:

Escrevias?

Bocage:

Muito.

Rafael:

Amavas?

Bocage:

Demais.

Rafael:

Bebias?

Bocage:

Rafael, não estragues uma conversa séria com perguntas cuja resposta já sabes.

Gargalhei. Chegámos novamente à estátua. Antes de desaparecer, virou-se para mim.

Bocage:

E tu? O que vais fazer com aquilo que ainda te resta?

A pergunta apanhou-me desprevenido.

Rafael:

Viver.

Ele sorriu.

Bocage:

Então não perdeste o teu tempo comigo.

Dei dois passos. Voltei-me. Já não estava lá. Apenas a estátua. Imóvel. Séria. Olhei para aquele Bocage de bronze e murmurei, tu és muito mais engraçado fora daí. E ainda me pareceu ouvir:

Claro que sou. Experimenta tu ficar aí parado duzentos anos.

Continuei o meu caminho. Não sei se encontrei Bocage. Não sei se sonhei. Mas fiquei com uma certeza. Passamos demasiado tempo preocupados em acrescentar anos à vida e esquecemo-nos, algumas vezes, de acrescentar vida aos anos.

Talvez aquele velho boémio setubalense tivesse razão. A vida não exige que sejamos santos. Pede apenas que sejamos verdadeiros, que saibamos rir, amar, ter amigos, cair algumas vezes, levantar outras tantas e, sobretudo, não chegar ao fim com a sensação de termos assistido à nossa própria vida sentados na primeira fila.

Quanto ao Bocage... Se algum dia passarem pela estátua dele e ouvirem alguém rir, não se assustem. Pode ser apenas o vento. Ou pode ser ele a olhar para nós e a pensar:

Mudaram os séculos... mas estes tipos continuam exactamente na mesma.

 

 

 
 
 

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