REALIDADES PARALELAS
- Ana Acto

- 23 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

A notificação surgiu no ecrã.
Um simples comentário numa publicação.
Leve, conciso, discreto.
E outros foram surgindo esporadicamente, num tom casual, elogioso e respeitoso.
Chamou-lhe a atenção a sua postura, diferente.
Afinal, talvez existissem, esses, os raros.
A conversa acabou por surgir, fluida. Fazia-a rir. Não era intrusivo nem possessivo. Ia marcando presença, queria saber dela, dos seus dias, do seu mundo.
Uma presença invisível, mas ali, à distância de um teclado, um amigo.
Com o tempo, o desejo de algo mais foi surgindo. Intenções, vontades, uma intimidade casta.
Aos poucos, começou novamente a acreditar, mais que acreditar, a sentir...
De vez em quando, recebia uma foto dele, e quando se deitava, olhava-a e sorria , fechava os olhos, e ele por momentos, estava ali consigo.
E um dia, tão depressa como entrou na sua vida, subitamente, foi deixando de estar tão presente, as mensagens foram rareando e por vezes "desaparecia" dias. Ouvira falar de situações assim, mas não era seu costume dar essa abertura e, para ela, foi um choque.
Depois voltava, ao ponto de partida, como se a sua ausência nunca tivesse acontecido. Ao princípio não entendia o porquê, revivia as conversas, o que poderia ter feito ou dito errado. E as semanas passavam-se, o ir e vir, tornara-se banal.
Acabou por cair em si, fora apenas uma distração, talvez uma conquista para alimentar o ego, virtual, apenas isso.
Por vezes era carinhoso, outras distante.
Decidiu continuar a falar-lhe, mas intimamente distanciou-se e foi se deixando ficar na amizade, como se nunca o tivesse sonhado.
Um dia alguém chegaria, alguém que não procurasse desculpas para a sua ausência.
Alguém que faria tudo por um pouco da sua presença.
Um velho amigo convidara-a para uma saída, um jantar, ouvir música, qualquer coisa, desde que estivesse consigo. Fazia tempo que insistia, ela esquivava-se, sabia que talvez se lhe desse oportunidade, acabaria por ali ficar. Era tranquilo, muito parecido com ela até, inteligente atencioso, cuidador, mas.... seria o morno. Apenas morno... mas seria real.
Como era possível sentir falta do que nunca teve, dos beijos que nunca sentiu, das mãos que nunca tocaram seu corpo, da boca que nunca a tinha percorrido.
E sabia-o quente, quente... não morno.
Talvez o fosse porque era quase irreal, platónico, e como tudo o que é imaginado...perfeito.
Olhou-se ao espelho, levantou o rosto já não tão jovem, o corpo um pouco diferente de alguns anos e a sua beleza não era imaculada. Mas gostava desta mulher que se tinha tornado. Mais madura, de curvas cheias, voluptuosas, de vontades assumidas, e ainda assim, eterna menina, de sorriso doce e sonhos pueris. Sim, talvez não lhe fosse jovem o suficiente, magra o suficiente ou bonita o suficiente, talvez fosse isso. E não, não queria alguém que a fizesse sentir assim. Queria ser o sonho de alguém, seria o sonho de alguém. Lembrou-se de quem era e o que merecia.
O som de uma notificação caiu.
Deitou-se, abriu a mensagem, uma foto.
Doeu-lhe todas as linhas daquele rosto, e tudo o que encerrava em si. Todos os sonhos, expectativas e desilusões de uma vida, apenas mais uma. Talvez para ele, tudo fosse banal, cru. E talvez essa fosse a verdadeira realidade, simples assim.
Mas ela não era assim, a realidade era insuficiente para ela. Personificava a sensibilidade, a delicadeza, o amor. Sentia cada palavra dita, cada silêncio, cada ausência...mas nunca lho diria. Se não a sentiu na sua essência, bem... não lhe era destino.
Olhou para a foto no ecrã uma última vez, respirou fundo, permitiu-se derramar uma última lágrima, silenciosa, solitária.
Fechou os olhos, levou os lábios ao ecrã, um primeiro e último beijo, frio.
E disse-lhe adeus...
(A ti " Irina")


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