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Reportagem (marchas)

  • Foto do escritor: Carlos Lopes
    Carlos Lopes
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Das Fogueiras de Santo António e arraiais

às Marchas Populares de Setúbal



Há um momento singular na história cultural de Setúbal que, embora não seja frequentemente evocado, merece ser resgatado como ponto de partida para compreender a relação profunda desta cidade com as suas festas populares.

Foi Hans Christian Andersen, o célebre escritor dinamarquês, quem nos deixou um dos mais vívidos retratos das noites de Santo António em Setúbal, durante a sua estadia nesta cidade. Na noite do santo casamenteiro, Andersen foi de charrete, a convite do vizinho Martinez, testemunhar a efervescência das ruas setubalenses. Descreveu fogueiras acesas por toda a parte, moços e moças a dançar até de madrugada, foguetes a subir nos céus, rapazes seminus a saltar as chamas e um cortejo de gente do mar, seguido de mulheres e crianças, cantando e tocando flautas e tambores. Era a alma popular de Setúbal a revelar-se, crua e autêntica, muito antes de qualquer certame organizado.

Esse espírito genuíno que Andersen captou com a sensibilidade de um observador privilegiado é, afinal, o mesmo que alimenta até hoje a tradição das Marchas Populares. Nascidas formalmente em 1936, por inspiração do modelo criado em Lisboa quatro anos antes, por Leitão de Barros, as marchas setubalenses tiveram um início modesto e marcado pelas dificuldades económicas da época. As primeiras coletividades a desfilar na Praça de Touros representavam a Rua de São Sebastião, a Travessa da Saúde, a Rua Direita de Tróino, os Olhos de Água, o Largo da Portuguesa e o Largo das Machadas. Mais parada de mascarados do que manifestação cultural estruturada, o certame revelava já, no entanto, a vontade de uma comunidade se afirmar através da festa.



Após décadas de interregno, foi em 1988 que as marchas renasceram com real vigor, por iniciativa da vereadora Paula Costa, atraindo multidões à Avenida Luísa Todi num evento que, desde então, se tornou um dos mais identitários da cidade. O desfile nesta avenida icónica, é ainda hoje o momento mais aguardado do certame, o instante em que os bairros e as coletividades se mostram ao mundo com a sua criatividade, os seus figurinos, os seus arcos e a sua música.

Ao longo dos anos, o certame contou também com momentos marcantes na Praça de Touros Carlos Relvas, onde as coletividades se apresentavam perante o júri, e no Estádio do Bonfim, onde a entrega de prémios funcionava como o ponto culminante da festa, com uma energia e uma emoção que ficaram na memória de todos os que, como eu, primeiro como apresentador, depois como responsável da Marcha do União Futebol Comércio e Indústria, tiveram o privilégio de os viver. A ausência destes dois espaços no formato atual é sentida por muitos como uma perda simbólica, um empobrecimento da dimensão espetacular que o certame um dia soube ter.

Sendo justo no diagnóstico, é impossível não reconhecer que as Marchas de Setúbal têm revelado pouca evolução no plano organizativo. O certame tem persistido no tempo com uma certa resistência à inovação, mantendo-se amarrado a fórmulas do passado que, embora confortáveis para quem as conhece, limitam o seu alcance e a sua projeção. A criatividade dos participantes contrasta, muitas vezes, com a rigidez de uma estrutura que teima em não acompanhar os tempos.



E, no entanto, o talento existe e é reconhecido muito além das fronteiras do Sado. Nomes como, aqueles que conheci melhor, nomeadamente Amílcar Caetano, José Condeça, Idaliano Batista, Oliveiros do Rosário, Acácio Guerreiro, Francisco Branquinho, Carlos Zacarias, José Pina (Zeca da Fonte Nova) e Bruno Frazão, entre outros ensaiadores sadinos, construíram ao longo dos anos um legado artístico que em nada fica a dever ao que se faz em Lisboa. Não é por acaso que vários destes entusiastas têm sido chamados, nos últimos anos, a trabalhar nas coletividades que participam nas Marchas da capital. É o reconhecimento, pela via mais eloquente, de que Setúbal tem escola, tem método e tem génio criativo.

A este universo pertencem também as vozes que embelezaram as marchas ao longo dos anos, como as cantoras Georgete de Jesus, Piedade Fernandes, Ivone Dias, Sara Margarida e Deolinda de Jesus, entre outras, cujo talento sempre admirei, e que emprestaram emoção e memória a tantas noites de junho. E não podemos ignorar o contributo da Perpétua Azeitonense e das restantes coletividades de Azeitão, cuja participação sempre engrandeceu o certame com uma qualidade e uma dedicação que sublinhavam o carácter verdadeiramente concelhio do evento.

Ao longo de muitos anos, tive o privilégio de apresentar este certame e de o acompanhar de perto, seja no contacto direto com as coletividades, seja nos programas que realizei na Rádio Voz de Setúbal, onde dei voz aos que raramente a têm: madrinhas, músicos, costureiras, eletricistas, serralheiros, ensaiadores e marchantes que, ano após ano, entregam o seu trabalho voluntário e apaixonado à construção de cada marcha. São eles, mais do que qualquer organização ou regulamento, a verdadeira alma desta festa, o mesmo espírito que Hans Christian Andersen soube ver nas fogueiras de Santo António, numa noite de charrete pelas ruas da minha cidade.


Fotografia captada por Américo Ribeiro, durante uma exibição de uma das antigas marchas no recinto do antigo Sanatório do Outão (data incerta)
Fotografia captada por Américo Ribeiro, durante uma exibição de uma das antigas marchas no recinto do antigo Sanatório do Outão (data incerta)

 

 
 
 

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