Um teste de resistência civil
- Maria José Afonso

- 23 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
2ª feira ou a invenção da teimosia...

Segunda-feira é aquela invenção teimosa que se mete no caminho de quem prometeu a si mesmo que ia começar a semana com ordem, café decente e ideias arrumadas, mas acorda sempre com a impressão de que o relógio decidiu pregar uma partida e avançar meia hora por conta própria.
É o dia em que a alma ainda está a tentar perceber como regressar ao compasso quotidiano enquanto o corpo se arrasta para cumprir horários que foram pensados por alguém que nunca deu valor ao direito inalienável de ficar mais cinco minutos na cama.
É também o momento em que o país inteiro partilha uma espécie de acordo tácito: fingimos que temos tudo sob controlo, que a agenda faz sentido e que a cabeça não está metade no trabalho e metade nos restos do fim de semana, ainda espalhados pela memória com a mesma teimosia com que a chuva se agarra às serras do norte.
Segunda-feira funciona como um teste de resistência civil, uma espécie de exame colectivo onde ninguém estudou o suficiente e todos se amparam em cafés sucessivos, convicções provisórias e pequenas promessas de que, desta vez, a disciplina vai durar até quarta.
Há qualquer coisa de profundamente português nesta hesitação: encaramos a semana com uma mistura de desconfiança e pragmatismo, como quem olha para um caminho de terra e calcula se o carro passa ou se é melhor recuar. E, apesar de tudo, avançamos. Porque há contas para pagar, porque o país exige movimento e porque, lá no fundo, existe uma certa delicadeza no facto de a segunda-feira nos obrigar a retomar o passo, mesmo quando o passo não quer saber de obrigações.
Talvez seja isso que a torna suportável: esta capacidade de nos lembrar que, por muito árduo que seja levantar o país às oito da manhã, continuamos a fazê-lo com uma teimosia quase afectuosa, convictos de que, algures entre as tarefas e as conversas apressadas, ainda é possível encontrar graça ao dia que mais nos desarruma.


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