Sinistralidade. O depois... (bombeiros)
CAPITÃO RAFAEL RODRIGUES (*) (ex- Comandante de Bombeiros profissionais)
“DEPOIS DE UM ACIDENTE PODE COMEÇAR UMA VIDA PROFUNDAMENTE DIFERENTE”

JG - Quando é solicitada a presença dos bombeiros para um acidente de viação, quais são os principais procedimentos a adotar? Como é feita a articulação inicial com o INEM?
Capitão Rafael Rodrigues – A primeira preocupação é salvar vidas, mas isso exige perceber, rapidamente, o que aconteceu e em que condições as equipas podem intervir. Um acidente de viação pode apresentar riscos muito diferentes consoante o local, o tipo de veículos envolvidos, a existência de incêndio e o número de pessoas envolvidas. A informação recebida no alerta ajuda a mobilizar a resposta inicial, ou seja, à chegada, essa informação tem de ser confirmada e atualizada. É preciso reconhecer o local, identificar os perigos e criar condições de segurança para as vítimas e para as equipas. Combustível derramado, fogo, destroços instáveis ou acessos difíceis podem condicionar o socorro. Ao mesmo tempo, as equipas procuram localizar as vítimas, perceber quem necessita de ajuda imediata e organizar o salvamento. Estas tarefas podem decorrer em simultâneo, desde que haja uma orientação clara e equipas com missões bem definidas. A articulação com o INEM, começa com a transmissão de informação útil: localização, acessos, riscos, número estimado de vítimas e necessidades de socorro. No terreno, o salvamento e a assistência médica têm de acompanhar-se. Retirar uma pessoa de uma zona perigosa, libertá-la dos destroços e prestar-lhe cuidados são momentos da mesma intervenção, que exigem decisões articuladas. O comandante deve manter uma visão do conjunto e pedir reforços em tempo útil. A pressa é compreensível; a improvisação sem critério pode agravar o que já é grave.
JG – Contudo existe outra entidade que é a Proteção Civil e, a partir daí, torna-se, de igual forma, estabelecer uma articulação com os bombeiros, a GNR/PSP e o INEM...
CRR - Cada entidade traz competências próprias, e o resultado depende da forma como essas competências se ligam. Os bombeiros intervêm no salvamento, no combate a incêndios e no controlo dos riscos, e participam no socorro às vítimas de acordo com a sua preparação e os meios disponíveis. Ao INEM, cabe a coordenação da resposta de emergência médica, em articulação com as equipas presentes. A Proteção Civil contribui para a coordenação e para a mobilização dos recursos necessários, conforme a dimensão e as características da ocorrência.
Na prática, tem de ficar claro quem dirige a operação, quem coordena cada área e por onde circula a informação. É necessário organizar os acessos, a chegada dos reforços, os locais de trabalho e a evacuação das vítimas. As forças de segurança e outras entidades também têm um papel, nomeadamente na proteção do local e na manutenção das condições para o socorro. Quando cada equipa conhece a sua missão, evitam-se ordens contraditórias e perdas de tempo. Nos meus 22 anos de comando, dei sempre muita importância a esta clareza. Ter recursos é essencial, mas eles precisam de ser utilizados no momento e no lugar certos. O treino conjunto permite conhecer capacidades e dificuldades antes de uma emergência. E o comando tem de ouvir quem está a trabalhar, ajustar as decisões à evolução do cenário e comunicar de forma simples. Numa operação exigente, uma informação bem transmitida faz muita diferença.
“NADA ELIMINA O IMPACTO PSICOLÓGICO DE TUDO AQUILO QUE UM BOMBEIRO VÊ”
JG - Quais são as maiores dificuldades humanas e operacionais num acidente grave, sobretudo quando há vítimas encarceradas, sofrimento das famílias e situações particularmente traumáticas?
CRR - Uma das maiores dificuldades é trabalhar sob pressão com informação ainda incompleta. Pode haver vítimas em locais de difícil acesso, veículos ou estruturas instáveis e riscos que obrigam a proteger a área antes de avançar. No desencarceramento, por exemplo, é preciso conjugar a libertação da vítima com os cuidados de saúde e com a segurança de todos. Por vezes, quem está de fora vê apenas o tempo a passar; quem está a intervir sabe que um movimento errado pode piorar a situação. A dificuldade humana estava muito perto de nós. Ouvíamos uma pessoa pedir ajuda, víamos o medo de quem estava preso e sentíamos a aflição da família. Tínhamos de falar com a vítima, explicar o que estávamos a fazer e transmitir confiança sem prometer aquilo que não podíamos garantir. As famílias também merecem atenção e respeito, embora a urgência da operação nem sempre permita às equipas o acompanhamento que gostariam de dar naquele momento. Enquanto exerci o comando, procurei ajudar a equipa a manter o foco, distribuir tarefas e perceber quando alguém precisava de ser substituído ou apoiado. Controlar a emoção durante o socorro não significa deixar de sentir. Significa conseguir agir apesar do que estamos a sentir. Depois da ocorrência, há que olhar para o que aconteceu com a equipa. O regresso ao quartel encerra uma operação, mas não resolve automaticamente o efeito que ela teve nas pessoas.

JG - É possível preparar psicologicamente um bombeiro para cenários traumáticos e situações inesperadas?
CRR - É possível prepará-lo melhor, e devemos fazê-lo desde a formação inicial. Mas não seria honesto dizer que existe uma preparação capaz de tornar alguém imune ao sofrimento. A experiência ajuda a organizar a resposta e a reconhecer dificuldades; não elimina o impacto psicológico de tudo o que um bombeiro vê. O treino dá segurança porque permite praticar decisões, conhecer procedimentos e confiar na equipa. A preparação psicológica deve acompanhar esse trabalho: aprender a reconhecer sinais de desgaste, compreender as próprias reações e saber onde procurar apoio. Também é necessário que no quartel se possa dizer que uma ocorrência nos afetou, sem receio de sermos considerados menos capazes. Essa abertura depende muito da atitude das chefias. Defendo um apoio acessível, confidencial e prestado por profissionais preparados para esta realidade. Uma conversa entre colegas pode ajudar, mas não deve ser confundida com acompanhamento especializado, nem imposta a quem ainda não quer falar. Há quem precise de apoio logo a seguir e quem só revele dificuldades mais tarde. O comando tem de estar atento, respeitar essa diferença e facilitar a ajuda. Pedir apoio é uma forma de cuidar da saúde e de continuar a exercer a profissão com segurança.
JG - Os acidentes que envolvem crianças são, particularmente, dolorosos e podem levar os próprios bombeiros a precisar de apoio psicológico. Como se vive uma ocorrência destas?
CRR - Uma criança em sofrimento mexe connosco de uma forma muito profunda. Pela sua vulnerabilidade, pela vida que tem pela frente e pela facilidade com que pensamos nos nossos filhos ou nas crianças que nos são próximas. Isso pode acontecer mesmo a um profissional com muitos anos de serviço. A experiência não apaga essa ligação humana. Durante o socorro, as equipas têm de procurar serenidade para cumprir a tarefa. A criança precisa de cuidados adequados, de uma abordagem que tenha em conta a sua idade e, quando possível, de palavras e gestos que a ajudem a sentir-se acompanhada. Os familiares vivem uma angústia enorme. É preciso tratá-los com respeito e dar informação com cuidado, dentro do que as equipas sabem e podem comunicar. O impacto pode tornar-se mais evidente depois. Uma equipa pode regressar mais calada, e esse silêncio merece atenção, sem que se tirem conclusões precipitadas sobre cada pessoa. Não devemos exigir que todos reajam da mesma maneira. Para mim, a responsabilidade de comando inclui verificar como estão os bombeiros e garantir que existe apoio quando é necessário. Nestas situações, não basta perguntar uma vez e dar o assunto por encerrado. Há efeitos que surgem ou se prolongam nos dias seguintes.

“HÁ DANOS QUE O MELHOR SOCORRO NÃO CONSEGUE REPARAR”
JG - O que fica depois de um acidente, para quem sobrevive com sequelas e para as famílias que perdem alguém? Os condutores deveriam ter maior consciência de que uma decisão imprudente pode deixar consequências para toda a vida?
CRR - Sem dúvida. Quando a estrada reabre e as viaturas de socorro saem, pode parecer que a ocorrência terminou. Para quem perdeu alguém ou sofreu uma lesão grave, começa muitas vezes uma vida profundamente diferente. Há tratamentos, reabilitação, perda de autonomia, alterações no trabalho e famílias que passam a assumir cuidados para os quais não estavam preparadas. E há ausências com as quais se terá de aprender a viver. Nem todos os acidentes têm a mesma causa, e não devemos julgar uma situação sem conhecer os factos. Mas há comportamentos de risco que podemos evitar: conduzir depois de beber, usar o telemóvel, circular a uma velocidade inadequada ou fazer uma ultrapassagem sem condições. A pressa e o excesso de confiança podem levar-nos a desvalorizar um perigo que, em segundos, se torna irreversível. Gostaria que a prevenção rodoviária ajudasse as pessoas a perceber estas consequências, para além das multas e das imagens do acidente. Respeitar as regras, descansar antes de conduzir e ajustar a condução às condições da estrada são decisões de proteção, para nós e para quem se cruza connosco. A segurança também exige vias bem cuidadas, fiscalização e educação; a responsabilidade não termina no condutor. Da parte dos bombeiros, farão tudo o que estiver ao seu alcance para socorrer. Mas há danos que o melhor socorro não consegue reparar. É essa consciência que gostaria de deixar: a vida que protegemos com uma decisão prudente pode ser a nossa, a de alguém que levamos connosco ou a de uma pessoa que nunca conhecemos.
JG – Relativamente aos perigos que os bombeiros correm nesta sua tão árdua como difícil profissão, registam-se até ao momento 3 mortes e 324 feridos só durante este ano. No entanto, pelas contas da Liga Portuguesa dos Bombeiros (LPB), com esta tragédia vamos em 258 mortes nos últimos 46 anos. Que fatores podem explicar estes números tão inusitados? A imprevisibilidade de cada serviço, a má preparação, o risco individual em situações de pura desobediência…
CRR - Joaquim Gouveia, esta é uma pergunta que merece uma reflexão profunda, porque estamos a falar de vidas humanas, de homens e mulheres que saem de casa para salvar os outros, sabendo que, por vezes, podem não regressar. E digo-lhe, com a experiência de quem dedicou mais de duas décadas ao comando de bombeiros profissionais, que não podemos aceitar estes números com a resignação de quem considera a morte uma consequência natural da profissão. Ser bombeiro é uma profissão de risco, mas morrer não pode ser considerado um risco profissional inevitável.
JG – Pelo que transmite é um assunto, na verdade, muito pertinente e fica a promessa de realizarmos uma nova entrevista no final do ano como que em jeito de balanço onde este tema será abordado. Entretanto e tocando, também, num tema sensível para os chamados de “Soldados da Paz”, sendo uma profissão tão dura e de alto risco, considera que os bombeiros são devidamente reconhecidos em Portugal, na remuneração, na carreira, nas condições de reforma e pelo serviço que prestam ao país? Ou essa justiça ainda está por fazer?
CRR - Na minha opinião, há ainda caminho a fazer. A população demonstra muitas vezes um carinho sincero pelos bombeiros, e esse reconhecimento tem valor. Mas a valorização profissional também precisa de se traduzir em condições concretas para trabalhar e viver com dignidade. Nos bombeiros profissionais, isso passa por remunerações adequadas à responsabilidade, carreiras com perspetivas claras, formação contínua e efetivos que permitam responder ao serviço sem desgaste excessivo. Passa igualmente por equipamentos, proteção da saúde e acompanhamento dos efeitos da exposição ao risco. O trabalho por turnos, as noites e a disponibilidade exigida têm consequências na vida pessoal e familiar que devem ser consideradas. As condições de aposentação ou reforma merecem uma discussão séria, tendo em conta a exigência física e psicológica acumulada ao longo da carreira. As situações profissionais dos bombeiros não são todas iguais, pelo que as respostas devem atender a essas diferenças. O princípio que defendo é simples: quem presta este serviço deve ter proteção e um horizonte profissional justo. Ao fim de 22 anos de comando, considero esta valorização uma responsabilidade de quem decide. Não podemos depender apenas da dedicação individual para manter um serviço tão exigente. Cuidar dos profissionais também é garantir que a população continua a receber um socorro competente e seguro.
* Ex-Comandante de Bombeiros Profissionais · 22 anos de experiência de comando

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