Sinistralidade. O depois... (GNR)
Capitão Celso Pereira (*), partilha preocupações fundamentais da GNR, em termos de Segurança Rodoviára
“NUNCA CONDUZIMOS APENAS POR NÓS. NINGUÉM SABE AS CONSEQUÊNCIAS DE UM SIMPLES ERRO…”

Joaquim Gouveia – Perante os assustadores números da sinistralidade no nosso, país onde se contam cerca de 600 perdas de vidas humanas por ano e apesar de todas as campanhas, as operações de patrulhamento e segurança, parece estarmos perante uma espécie de suicídio estranho, onde os condutores arriscam saltar de uma cadeira para ver se a corda que têm no pescoço aperta. Será uma metáfora, claro, mas não terá algum fundo de verdade?
Capitão Celso Pereira – A sinistralidade rodoviária continua a constituir um problema profundamente preocupante, em Portugal e no plano internacional. Conduzir implica, por natureza, exposição a determinado nível de risco. O que deve preocupar-nos é que, muitas vezes, somos nós próprios, enquanto condutores, que aumentamos esse risco através das decisões que tomamos ao volante, por vezes sem termos plena consciência das consequências que daí podem resultar. Uma distração, alguns quilómetros por hora a mais, uma manobra desnecessária ou a decisão de conduzir depois de consumir álcool podem parecer, naquele instante, comportamentos sem consequência. Mas aumentam o risco não apenas para quem conduz, como para todos aqueles com quem partilhamos a estrada. E talvez seja essa uma das dimensões mais difíceis da sinistralidade, perceber que uma decisão de poucos segundos pode produzir consequências para uma vida inteira. Quando ocorre um acidente grave, o impacto não termina no local. Estende-se à família, aos amigos, ao local de trabalho e à comunidade. Há vidas que se perdem, outras que ficam profundamente condicionadas e famílias que passam a viver com uma realidade que nunca imaginaram enfrentar. Por isso, mais do que aceitar o risco como inevitável, temos de procurar reduzi-lo todos os dias, em cada decisão que tomamos na estrada.
JG – Por tudo o que se conhece em termos de testemunhos pós sinistros, o que mais vos preocupa nas explicações de cada condutor, ou seja, qual o grau de consciência que lhes sobra para explicar uma tragédia que provocou consequências, na maior parte dos casos, dolorosas e irremediáveis não só para si mas, também, para terceiros? Será, certamente, algo, completamente, desconcertante, assustador…
Capitão Celso Pereira – Existe naturalmente uma diferença muito grande entre um acidente do qual resultam apenas danos materiais e um acidente do qual resulta uma vítima grave ou mortal. Quando alguém percebe que uma determinada ação ou decisão tomada ao volante esteve associada a consequências irreversíveis para outra pessoa, é difícil imaginar que essa consciência não deixe uma marca profunda. Uma das realidades mais duras da sinistralidade é precisamente esta: antes do acidente, ninguém sabe qual será a consequência de um erro. Uma distração pode terminar apenas num susto ou num pequeno dano material. Mas a mesma distração, alguns metros à frente, noutras circunstâncias, pode resultar numa morte ou numa incapacidade permanente. E é impossível prever, previamente, qual desses resultados irá acontecer. O sistema rodoviário é composto pelo homem, pelo veículo, pela via e pelo ambiente, e há inúmeras variáveis que interagem permanentemente. Não conseguimos eliminar todo o risco, mas conseguimos reduzi-lo. É por isso que, na estrada, devemos muitas vezes pecar por excesso de prudência. Porque aquilo que hoje parece apenas uma pequena cedência à segurança, pode evitar que amanhã tenhamos de viver com a consciência de que uma decisão nossa contribuiu para mudar, irreversivelmente, a vida de outra pessoa

“A EDUCAÇÃO PARA A SEGURANÇA RODOVIÁRIA DEVE COMEÇAR O MAIS CEDO POSSÍVEL”
JG – Tenho, para mim, que apesar de todas as razões que explicam estes assustadores números de sinistros rodoviários, como o álcool, a velocidade excessiva, as manobras arriscadas e outas, a principal razão estará sempre na falta de civismo e respeito pelo outro. Estes valores não deveriam fazer parte, obrigatoriamente, do currículo escolar desde logo no primeiro ano em que a criança entra na escola? Isso já foi equacionado por quem estuda e decide estas matérias?
Capitão Celso Pereira – A estrada é, antes de mais, um espaço de convivência entre pessoas. E, como qualquer espaço de convivência, exige regras, respeito, previsibilidade e consideração pelos outros. Costumo dar um exemplo muito simples: se estamos numa fila de supermercado, normalmente não ultrapassamos todas as pessoas para chegar primeiro à caixa. Então por que razão, numa fila de trânsito, há quem considere aceitável ultrapassar pela berma, mudar sucessivamente de via ou criar uma manobra apenas para ganhar alguns metros? Pode parecer um comportamento pequeno, mas não é indiferente. Introduz alterações inesperadas no fluxo de trânsito, gera travagens, mudanças de velocidade e novas situações de conflito que podem contribuir para congestionamentos e acidentes. Por vezes, dentro de um automóvel, cria-se uma falsa sensação de isolamento. Mas não estamos sozinhos nem blindados das consequências das nossas decisões. Por isso, considero que a educação para a segurança rodoviária deve começar o mais cedo possível. Uma criança que aprende desde cedo a atravessar em segurança, a utilizar o cinto, a usar capacete numa bicicleta e a respeitar os outros utilizadores da via tem maior probabilidade de transportar esses comportamentos consigo quando se tornar adulta. E aqui a família tem também uma responsabilidade extraordinária. As crianças aprendem muito mais pelo que observam do que pelo que lhes dizemos. Se um pai ou uma mãe discutem constantemente no trânsito, utiliza o telemóvel ao volante ou desvaloriza uma regra, a criança pode interpretar esse comportamento como normal. A educação rodoviária começa na escola, mas começa também no banco de trás do automóvel.
JG – Os vossos elementos que se deslocam aos locais dos acidentes estarão, certamente, devidamente preparados para enfrentar a visualização de cenas que chegam a ser de um horror quase inimaginável. É uma profissão dura, de alto risco e com várias repercussões psicológicas. Os militares sentem a missão quase como um dever humano perante uma obrigação da profissão que escolheram, o que a poderá tornar menos agressiva? Normalmente que consequências daí resultam para eles?
Capitão Celso Pereira – Os militares que trabalham diariamente na estrada estão, inevitavelmente, expostos à dimensão mais dura da sinistralidade rodoviária. A formação inicial, a especialização, a experiência operacional, a preparação técnica e o apoio da estrutura de comando são fundamentais para permitir que consigamos atuar com profissionalismo em circunstâncias particularmente exigentes. Mas há uma realidade que não devemos esconder: a formação prepara-nos para atuar; não nos torna indiferentes ao sofrimento humano. Há imagens, situações e histórias que ficam sempre connosco. Por detrás de cada vítima existe uma pessoa, uma família e uma história de vida. E os militares que intervêm num acidente têm contacto direto com essa realidade nos seus momentos mais difíceis. O espírito de missão, a experiência e a coesão entre os militares ajudam-nos naturalmente a lidar com essa exigência. E existe também a consciência de que aquilo que fazemos tem um propósito muito concreto: proteger vidas e tentar evitar que outras famílias passem pela mesma realidade. Talvez seja também isso que transforma a experiência acumulada não em indiferença, mas numa determinação ainda maior. Cada tragédia que vemos reforça em nós a convicção de que temos de continuar a atuar através da informação, da prevenção, do policiamento e da fiscalização, procurando reduzir o risco rodoviário de todas as formas ao nosso alcance
JG – Depois da tragédia o pesadelo. Vítimas com sequelas para toda a vida, famílias destroçadas, a vida que parece ter perdido a sua cor e sentido. Sem estarmos em teatro de guerra, os números da nossa sinistralidade sugerem que viajar nos dias de hoje apenas tem como certeza a partida. Concorda?
Capitão Celso Pereira – Não colocaria a questão de forma tão determinista, porque milhões de deslocações são realizadas diariamente em segurança. Mas os números da sinistralidade obrigam-nos, sem dúvida, a reconhecer que o risco existe e que não pode ser banalizado. Conhecemos o número de acidentes. Conhecemos as vidas perdidas. Conhecemos os feridos graves. E sabemos também que, por detrás de cada um desses números, existe uma história humana. Quando ocorre um acidente significa que, de alguma forma, o sistema rodoviário falhou. Esse sistema é constituído pelo homem, pelo veículo, pela via e pelo ambiente. E basta, por vezes, que um desses elementos falhe num determinado momento para se criar uma situação de risco. É, precisamente, por isso que não considero que exista prevenção em excesso. Enquanto condutores, não conseguimos controlar todas as variáveis da estrada. Não controlamos, integralmente, o comportamento dos outros, o ambiente ou aquilo que pode acontecer alguns metros à frente. Mas conseguimos controlar muita coisa, por exemplo: decidir a velocidade a que circulamos. Não utilizar o telemóvel. Colocar o cinto ou a “cadeirinha”.
Manter uma distância segura. E, sobretudo, decidir não conduzir depois de ingerir bebidas alcoólicas. Não podemos eliminar completamente o risco rodoviário. Mas podemos fazer muito para não o aumentar.
“A SINISTRALIDADE RODOVIÁRIA TEM UMA DIMENSÃO PROFUNDAMENTE HUMANA”

JG – A compreensão dos pós tragédia não poderá trazer resultados significativos para a consciencialização dos condutores? A GNR é de opinião que se insista nesse tipo de campanha com mensagens fortes e decisivas, para além de todos os esforços que têm sido desenvolvidos para combater os índices da sinistralidade?
Capitão Celso Pereira – O condutor ocupa uma posição muito particular no sistema rodoviário. É, simultaneamente, um dos principais intervenientes na prevenção do risco e uma das pessoas que queremos proteger. Por isso, a sensibilização continua a ser absolutamente essencial. Conhecer as consequências reais de um acidente pode ajuda-nos a compreender que as regras rodoviárias não existem para criar dificuldades aos condutores. Existem porque resultam de décadas de conhecimento sobre aquilo que mata e fere nas estradas. A GNR continuará, de forma isenta, firme e cortês, a utilizar todos os instrumentos ao seu dispor para promover comportamentos seguros. E hoje o policiamento rodoviário já não acontece exclusivamente na estrada. Existe também uma dimensão digital do policiamento rodoviário. Através das plataformas digitais conseguimos diariamente informar, esclarecer dúvidas, promover campanhas de sensibilização e fazer chegar mensagens de segurança rodoviária a milhares de pessoas, muitas delas antes mesmo de iniciarem uma viagem. O sistema rodoviário está a evoluir muito rapidamente, seja através da tecnologia dos veículos, das novas formas de mobilidade ou da própria forma como os cidadãos comunicam. E quando estamos a falar de salvar vidas, não podemos permitir que a prevenção fique atrás dessa evolução. Temos de estar onde estão os condutores: na estrada, naturalmente, mas também no espaço digital.
JG – O Senhor Capitão, para além de militar da GNR é, também, um condutor na sua vida particular. Perante o que acabámos de conversar que lhe parece mais justo nesta altura deixar ao critério da própria população portuguesa no geral?
Capitão Celso Pereira – Enquanto militar, mas também enquanto condutor, considero que há uma mensagem fundamental: a segurança rodoviária não pertence a uma única entidade e não pode ser deixada exclusivamente nas mãos de outra pessoa. É uma responsabilidade coletiva. Cada um de nós tem um papel que pode parecer pequeno, mas que, num determinado momento, pode fazer toda a diferença. Quando conduzimos, não estamos apenas a proteger-nos a nós próprios. Estamos a proteger os nossos filhos, os filhos dos outros, os nossos pais, os nossos avós e todas as pessoas que, naquele momento, partilham a estrada connosco. A sinistralidade rodoviária tem uma dimensão profundamente humana. Um segundo de distração, velocidade inadequada, ou uma decisão errada, podem resultar num acidente que altera várias vidas para sempre. E não apenas a vida de quem parte. Também a daqueles que ficam.
Por isso, não podemos individualizar esta responsabilidade. Precisamos da Guarda Nacional Republicana, das entidades responsáveis pelas infraestruturas, das escolas, das autarquias, das empresas, das associações, das famílias e de cada cidadão.
Só através de um esforço conjunto podemos aproximar-nos, verdadeiramente, do objetivo de zero mortes na estrada. E talvez a mensagem mais simples seja quando entramos num veículo, nunca conduzimos apenas por nós. Conduzimos também por todos aqueles com quem vamos cruzar-nos no caminho.
*(Adjunto do Chefe da Secção de Operações, Informações e Relações-Públicas da Unidade Nacional de Trânsito da GNR)
Dados Globais (Janeiro a Junho de 2026)
Principais Destaques
Agravamento da mortalidade: Verificou-se uma evolução desfavorável em comparação com o ano anterior, com destaque para um crescimento acentuado nos casos de atropelamento e nas ocorrências dentro das localidades.
Fonte oficial: Os dados provisórios foram consolidados e divulgados pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR
Principais Indicadores (GNR — Janeiro a Junho de 2026)
Distribuição e Padrões de Risco
Localização: Cerca de 80% dos acidentes com feridos ocorrem em ambiente urbanizado / dentro de localidades. [1, 2]
Distritos com mais acidentes com veículos de duas rodas:
Porto: 632 acidentes
Braga: 421 acidentes
Lisboa: 397 acidentes
Faro: 388 acidentes
Aveiro: 365 acidentes
Setúbal: 340 acidentes [1]
Vítimas mortais por distrito (dados GNR):
Santarém: 8 mortes
Faro: 7 mortes
Aveiro: 6 mortes
Setúbal: 6 mortes
Porto: 5 mortes [1]

Comentários