Sinistralidade. O depois (psicóloga)
Jessica Duarte - Psicóloga *
“NÃO HÁ UMA MANEIRA BOA DE DAR UMA NOTÍCIA TRÁGICA”

Joaquim Gouveia – Nos primeiros momentos após um acidente rodoviário com elevado grau de tragédia humana, quais são os primeiros procedimentos que cabem aos psicólogos chamados ao local, ministrar nas vítimas (graves ou ligeiras). Qual a maior preocupação no momento?
Jessica Duarte – Numa situação destas, a primeira preocupação é sempre perceber como é que aquela pessoa está naquele momento e ajudá-la a recuperar algum sentido de segurança e controlo. prestam-se os primeiros socorros psicológicos. O psicólogo não chega ao local para “fazer terapia”. Chega para intervir numa situação de crise. Procura perceber quem está mais desorganizado emocionalmente, quem está em maior risco, quem precisa de ser protegido e acompanhado mais de perto. Estar presente, falar com calma, dar informação clara, ajudar a pessoa a organizar-se mentalmente e evitar que fique sozinha num momento de grande choque são os primeiros procedimentos. No INEM, os psicólogos podem intervir a partir do CODU, ou ser mobilizados para o terreno. A população liga para o 112 e, perante a avaliação da ocorrência, pode ser identificado que existe necessidade de apoio psicológico especializado.
JG – Em função do resultado, com ou sem perda de vidas humanas, como é prestado, no imediato o apoio às famílias se estiverem no local ou se houver a necessidade de serem informadas?
Jessica Duarte – A forma como uma família recebe uma notícia destas é muito importante. Não há uma maneira “boa” de dar uma notícia trágica, mas há formas mais humanas e mais cuidadas de o fazer. Procura-se que a informação seja dada de forma clara, direta, sem criar falsas expectativas, mas também com tempo e respeito pela reação da pessoa. Depois vem aquilo que, para mim, é talvez o mais importante: não ter pressa de retirar a dor. Às vezes há choro, outras vezes silêncio, revolta, incredulidade. Tudo isso pode ser uma reação normal perante uma situação destas inesperada. O psicólogo está ali para acompanhar esse primeiro impacto, ajudar a conter a desorganização, perceber se há alguém particularmente vulnerável e mobilizar familiares ou outras pessoas de referência para que ninguém fique sozinho nesse momento.
JG – Um acidente que envolva crianças como vítimas, mortais ou não, apresenta certamente um maior cuidado no apoio psicológico. Como se alivia uma dor tão profunda como a perda de uma criança?
Jessica Duarte – Eu diria que não se alivia uma dor destas no imediato. E talvez seja importante começarmos por aí. Perder um filho é uma experiência devastadora e não há nenhuma frase certa, nenhuma técnica, nenhuma palavra que retire aquela dor naquele momento. O que podemos fazer é estar. Estar verdadeiramente. Ajudar aquela pessoa a não ficar completamente sozinha dentro do choque, da revolta, da culpa ou do desespero. Nestas situações, o psicólogo não tenta “corrigir” o sofrimento. Tenta ajudar a pessoa a atravessar as primeiras horas com o máximo de suporte possível e perceber quem vai precisar de acompanhamento depois. Às vezes, o mais terapêutico naquele momento é simplesmente existir alguém capaz de ficar ao lado da pessoa sem tentar apressar o luto ou encontrar uma explicação para aquilo que não tem explicação.

“EM SEQUELAS GRAVES NUM FERIDO HÁ SEMPRE UM LUTO PELA VIDA ANTERIOR”
JG – As vítimas graves e ligeiras depois de conduzidas ao hospital continuam a receber apoio psicológico. Nos casos em que as sequelas limitam a vida para sempre, como se prepara, posteriormente, uma vítima para essa realidade?
Jessica Duarte – Quando existem sequelas permanentes, não se prepara uma pessoa para essa realidade numa conversa. É um processo, e muitas vezes um processo longo e com vários intervenientes. Um trabalho de equipa multidisciplinar. Há um luto pela vida anterior, pelas capacidades que se perderam, pelos projetos que talvez já não possam acontecer da mesma forma. A intervenção psicológica vai ajudando a pessoa a integrar essa nova realidade sem ficar reduzida a ela. Há uma diferença muito grande entre dizer “a minha vida mudou” e sentir “a minha vida acabou”. Trabalha-se a adaptação, a autonomia possível, novos objetivos, relações, identidade e também a aceitação das emoções que aparecem nesse percurso. E é importante lembrar que a família também precisa muitas vezes de apoio, porque a vida de todos muda.
JG – O sentimento de culpa tem alívio ou será definitivo?
Jessica Duarte – Pode aliviar. E muitas vezes alivia bastante. Depois de um acidente ou de uma situação traumática é muito comum aparecerem pensamentos como “se eu tivesse feito isto”, “se tivesse chegado mais cedo”, “se não tivesse ido por ali”. A nossa cabeça tenta encontrar uma explicação para aquilo que aconteceu e, às vezes, transforma essa necessidade de compreender em culpa. O trabalho psicológico passa muito por separar aquilo que é responsabilidade real daquilo que é culpa emocional. E mesmo quando existe responsabilidade, a pessoa precisa de encontrar uma forma de viver com aquilo que aconteceu sem ficar condenada psicologicamente para o resto da vida. O objetivo não é esquecer. É conseguir integrar o acontecimento na própria história sem deixar que ele passe a definir toda a vida
*especialista em Psicologia Clínica e da Saúde / Psicóloga na ULS Arrábida - Hospital de S. Bernardo, Setúbal
Em Portugal, existem várias associações e entidades dedicadas à defesa dos direitos,
apoio psicológico, jurídico e social de vítimas de acidentes rodoviários, bem como à prevenção da sinistralidade

Principais Associações e Organizações
ACA-M (Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados)
Âmbito: Defesa dos direitos dos cidadãos (condutores, peões e ciclistas) e promoção da mobilidade segura.
Apoio: Disponibiliza um serviço de apoio ao trauma rodoviário, que inclui acompanhamento psicoterapeuticamente orientado para sinistrados e respetivos familiares, ajudando a lidar com o choque e a adaptação a novas realidades.
Estrada Viva (Liga de Associações pela Cidadania Rodoviária, Mobilidade Segura e Sustentável)
Âmbito: Rede que integra várias associações civis (incluindo a ACA-M) focadas na redução da sinistralidade rodoviária e na exigência de políticas públicas de segurança mais eficazes e monitorizadas.
Associação Salvador
Âmbito: Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) dedicada a promover a inclusão e a melhoria da qualidade de vida de pessoas com deficiência motora (muitas das quais decorrentes de acidentes de viação), desenvolvendo também campanhas ativas de prevenção rodoviária em parceria com forças de segurança.
APAVAM (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima de Acidente Motard)
Âmbito: Apoio específico a vítimas e familiares de acidentes de viação envolvendo motociclistas.
Associação de Familiares das Vítimas da Tragédia da Ponte de Entre os Rios
Âmbito: Embora nascida de um desastre específico de infraestrutura rodoviária/fluvial, constitui uma referência nacional no apoio continuado a famílias enlutadas e na gestão de respostas sociais.
Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP)
Âmbito: Organização de referência dedicada ao estudo e à prevenção de acidentes de viação, colaborando frequentemente em iniciativas de sensibilização e apoio técnico.
Tipos de Apoio Disponíveis
Apoio Psicológico e Psicoterapêutico: Direcionado às vítimas diretas e aos familiares para mitigar o trauma pós-acidente, o luto ou o stress pós-traumático.
Apoio Jurídico e Técnico: Auxílio na compreensão de processos de indemnização, regularização de danos corporais e materiais junto de seguradoras.
Prevenção e Cidadania: Campanhas de consciencialização pública e pressão cívica para a melhoria da segurança nas estradas.
Nota: Para denúncias imediatas, emergências na estrada ou acidentes em curso, deve contactar diretamente o 112. Para apoio institucional e queixas relacionadas com a segurança rodoviária, pode consultar a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).

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