Talvez... crónicas
- Ana Acto

- há 6 dias
- 3 min de leitura
GATA BORRALHEIRA vs PRINCESA

" Afinal, quem sou eu? Uma Princesa escondida atrás de um avental, ou uma Gata Borralheira com sapatos de cristal?"
Abro o roupeiro e escolho sem muito cuidado o que vestir, porque na verdade qualquer coisa serve. Olho ao espelho, rosto pálido, olhar cansado. Suspiro... mais uma noite mal dormida.
Penso em pôr um pouco de maquilhagem nos olhos, dar cor aos lábios, talvez me desse outra graça. Abandono a ideia, pouco importa, ninguém reparará.
Chego à loja, e coloco o avental em volta do corpo, a minha vestimenta já de si banal torna-se agora invisível. Entranço os longos cabelos, tal como quando era menina. E estou pronta para mais um dia.
Mais um, entre panelas. Massas, tartes, bolos e doçarias. E gosto do que faço, de criar e despertar emoções através do palato. De inventar, de procurar novas receitas, rebuscar antigas, nas gavetas das tias ou avós.
Religiosamente, coloco os auscultadores nos ouvidos, e deixo que a magia aconteça. Por vezes perguntam-me: – Que música estás a ouvir?
Sorrio... porque raramente estou a ouvir música, mas não o sabem. E me canta Pessoa, Espanca, Neruda, Sophia, Quintana, Coralina e tantos outros, dos quais vou ouvindo as palavras escritas, declamadas em outra voz. Não sabem... dos livros que absorvo, ouvindo em áudio livros, ou de curiosidades que tenho sobre isto ou aquilo, e vou descobrindo assim, tentando ganhar tempo ao tempo...
E enquanto entrego meu corpo à vida, em minha mente e espírito, vou recebendo.
Embora a minha personagem preferida das princesas da Disney, seja a Bela, da Bela e o Monstro (sempre achei ser pelo seu amor aos livros, mas no fundo sei que é mesmo pela maravilhosa história de amor incondicional, não fosse eu uma romântica incurável) na verdade, se me comparasse a alguma dessas princesas, seria a Gata Borralheira, mais conhecida como Cinderela.
Aqui na loja, a maioria me conhece assim, como “a menina dos doces”, sempre de trança e avental enfarinhado, de roda do forno e do fogão.
Mas também isto não sabem... que esta minha paixão pelas palavras, leva-me muitas vezes para um reino encantado, onde sou livre de escrever e publicar o que sinto, e o declamar a quem me quiser ouvir. E que minhas palavras se espalham por aí, nos livros que escrevi, noutros que participei e atravessam fronteiras.
Neste reino, sinto-me uma princesa. Aqui, abro o roupeiro e escolho com primor, um dos meus lindos vestidos. Olho-me ao espelho, deixando a alegria desvanecer o olhar cansado. Ponho um pouco de batom, alongo as pestanas com rímel, escovo delicadamente os cabelos loiros e deixo-os finalmente soltos, livres e rebeldes. Olho-me e sorrio, como se reencontrasse uma amiga querida após uma longa ausência.
E vou por aí, de braços abertos, desfrutando desta magia, neste meu outro mundo, o meu reino encantado, e nele, apenas assim me conhecem.
Por vezes a Princesa vai à loja da Gata Borralheira, e os clientes olham e não a reconhecem. Curioso, penso eu, tal e qual o “efeito Super-homem”, basta pôr uns óculos e deixam de o reconhecer, e eu, basta tirar o avental e soltar o cabelo.
Mas como no conto, algumas horas depois, a magia acaba, e tudo volta ao que era. Novo dia, de volta ao avental. E nesses momentos, olho para as fotos que me tiraram em qualquer evento, e penso: “gostava tanto de ser assim...”, como se a rapariga da foto nem fosse eu. Mas sou...
E assim vivo, entre dois mundos tão díspares entre si, mas que se complementam.
E por vezes me pergunto: “Afinal, quem sou eu? Uma Princesa escondida atrás de um avental, ou uma Gata Borralheira com sapatos de cristal?”

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