TAS leva à cena “Manual do bom fascista” de Rui Zink
- Joaquim Gouveia

- 23 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Fora do armário ou dentro de si poderá existir um bom fascista. Acredita?
Você acredita que pode ser um bom fascista, daqueles que não se escondem num armário e admitem essa inevitabilidade? Ou prefere, por outro lado, esconder-se num refúgio apenas seu sem dar muito nas vistas? Alguma vez pensou nestas possibilidades? O autor Rui Zink, conhecido escritor português, acredita que há dentro de todos nós um bom fascista e que, nalguns casos, mais cedo ou mais tarde chegará ao Poder. O TAS – Teatro de Animação de Setúbal – coloca em palco todas estas evidências, duvidas, receios, certezas, convidando-nos a uma reflexão sobre o assunto onde se ri muito e alto, se ridiculariza, se denuncia e que nos obriga a perceber que, afinal, não queremos ser um bom fascista, numa altura em que a extrema direita já mete mais do que a cabeça de fora. Mas isso pode não acontecer com todos… A atriz Célia David, escreveu a dramaturgia e encena o espetáculo, Numa conversa muito ao nosso jeito de sempre, fala das consequências (repiso eu), que este “Manual do Bom Fascista”, poderá criar na esfera psicológica dos espetadores. É que o livro de Rui Zink, aponta 100 razões para se ser um bom fascista. A dramaturgia da Célia David, quebra o manual ou dá-lhe ainda mais gás? Apareça nas sessões previstas no Teatro de Bolso, a partir do próximo dia 27 do corrente e faça o favor de se incomodar!...

Joaquim Gouveia – O “Manual do Bom Fascista” sugere interpretações tão livres, demagogas e, ao mesmo tempo realistas, que levam o próprio autor a considerar “Ler este livro e começar a rever-se nele é um sinal de saúde mental. O meu medo são as pessoas que leem o livro e não se reveem de todo porque se acham o máximo”. Perante tal ironia levada a sério, como decidiste arrancar para a dramaturgia deste livro que, no fundo, nos convida a ser um bom fascista fora do armário?
Célia David – O TAS – Teatro Animação de Setúbal, já levou à cena várias peças de Rui Zink, Onde fica Auschwitz?, Pandora Box, Fuga e mais recentemente Simplesmente Abril, que me inspirou a pensar na adaptação de Manual do Bom Fascista, que tinha lido quando foi editado e que é, cada vez mais, pertinente. Gosto muito da escrita do Zink, e por brincadeira, pedi-lhe para fazer o “plágio autorizado” como o próprio define as adaptações para teatro de textos não dramáticos, “a partir de...”, “baseado em...”, etc. e tal... e como fui autorizada, comecei a trabalhar com uma equipa muito criativa, com a colaboração do autor e o resultado é o que vamos ver...Para já, não se trata de convidar a ser um Bom Fascista, mas sim a “descobrir o Bom Fascista adormecido dentro de si”. Não é uma apologia é uma inevitabilidade. Só ao reconhecer certos comportamentos podemos mudá-los. Essa é a minha esperança para não dizer fé, porque isso no espetáculo tem outra conotação.
JG – Pelo que me foi dado perceber existirá, certamente, uma perturbação na dramaturgia, sobretudo, quando o Rui Zink, afirma nesta sua obra que o fascismo está dentro de nós e mais tarde ou mais cedo chega, quase sempre, ao Poder. Perante a evidência do rápido e repetido crescimento do fascismo, no nosso país, através da ascensão de ideologias radicais e crescentes manifestações de extrema-direita, como colocas essa questão em evidência no espetáculo?
CD – De alguma forma, estamos todos em sintonia, no essencial. O autor deu à dramaturgia toda a liberdade. Está a ser uma colaboração bastante aberta no que diz respeito ao texto, mas também do ponto de vista ideológico e simbólico, com influências do teatro do absurdo numa abordagem teatral muito pouco dogmática. Essa evidência está exposta no espetáculo, mas vai mais longe, sem querer desvendar muito, será que essas manifestações não são mais abrangentes e transversais na sociedade atual?

JG – O autor tem sido o revisor da dramaturgia que adaptaste para a sua obra subir a palco, em formato de teatro. Que tipo de sugestões ou expetativas ele tem colocado? Em entrevista não muito distante, afirmou que a nossa intelectualidade deixa muito a desejar e que a maioria das companhias de teatro não apresentam textos de autores portugueses. Este vosso novo espetáculo não contradiz, propriamente, esse desiderato, mas poderá ser uma alavanca importante para a reversão desta realidade dada até a visibilidade que o Rui Zink, tem, sobretudo, nos meios culturais, intelectuais e comunicativos?
CD – O TAS – Teatro Animação de Setúbal, apresenta textos de expressão portuguesa com muita regularidade, este ano foram todas as criações, 2 de Rui Zink e 1 de Teresa Rita Lopes, por exemplo. Portanto, não é o nosso caso. Esperamos muito sucesso com o espetáculo e também com a venda do livro. O Rui deu-me carta branca para fazer a adaptação, falámos, discutimos, fez sugestões, deu ideias, um processo muito natural. Não foi propriamente um revisor. Concordou com a estrutura e confiou. Até na escolha do elenco, pouco óbvia e algo surpreendente, acabou por se render.
JG – A encenação do espetáculo, também, é da tua responsabilidade. Como se caracteriza um fascista em palco? Que movimentos, gestos, voz são necessários para convidar a rever-nos num, ou noutro momento do texto, a concluir que, afinal, o fascismo mora dentro de nós ou, no mínimo, estará entre nós? Por outro lado, há um amarelo dominante que veste os atores. Simbologia?
CD – Acho que é uma surpresa porque não corresponde ao estereótipo que todos, de uma maneira ou de outra, temos na nossa cabeça. Fruto de preconceitos, de clichés, pelas imagens dos media, dos nossos sonhos ou pesadelos, mas temos... nem sempre corresponde, isso posso assegurar. Relativamente aos símbolos, por psicologia ou marketing, o amarelo é dominante. Simboliza o sol, o ouro, é muito chamativo, sensacionalista e também um sinal de perigo. A espiral que remete para o Rei Ubu, peça de teatro de Alfred Jarry, o pioneiro do Teatro do Absurdo e que muita semelhança tem com a nossa personagem principal, é simultaneamente um símbolo de movimento, mudança e caos. As riscas do pano de fundo, a estrutura do cenário, os figurinos e adereços, tudo faz sentido e bate certo porque, desta vez, esse processo foi muito rigoroso.

JG – Como dramaturga e encenadora que te parece mais lógico que aconteça relativamente às reações, interpretativas, do público, quanto ao texto e nas cenas decorrentes em palco: a perturbação pelo renascimento do fascismo no país e a consequente consciência de que há algum fascismo em cada um de nós, por parte dos mais renitentes, ou a glorificação do espetáculo pelos novos e antigos fascistas, ou populistas?
CD – Não conseguimos prever exatamente o que pode acontecer, a reação do público só a saberemos depois da estreia e pode ser muito diversa, mesmo quando o assunto não é tão polémico, é assim. No entanto, pelo tom que imprimimos à representação tenho sérias dúvidas que possa ser usado como bandeira a favor do fascismo, longe disso. Aliás, é uma paródia, ridiculariza, denúncia, critica, ri, ri muito alto. É nossa opção, rir, mesmo que o assunto seja sério. Talvez assim, cada um de nós recuse ser um Bom Fascista.
JG – Para ti o que é mais importante neste espetáculo? O alerta para um passado sombrio que regressa de mangas arregaçadas, ou a provocação para uma reação determinante e corajosa contra essa condição que nos condenará, de novo, à grilheta da liberdade e da democracia?
CD – O espetáculo começou por ser um alerta para esse fenómeno da “ascensão do fascismo”, mas rapidamente ultrapassou essa preocupação e, sob a forma de uma sátira cómica e corrosiva, tomou contornos de um absurdo desconcertante, pelo menos para nós. Essa realidade é demasiadamente contraditória, paradoxal, caótica. Material profundamente teatral, um manancial para a criação artística, que até nos assusta.... Acredito que o mais importante seja mesmo chamar a atenção para a naturalidade com que se começa a conviver com esta questão. A normalização do fenómeno que parece estar instalado.



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