top of page

Teatro Estúdio Fontenova estreia nova peça para criar diálogos e reflexões necessárias

  • Foto do escritor: XetubalSite
    XetubalSite
  • 6 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 7 de nov. de 2025

De 14 a 23 de novembro, no Forum  Municipal Luisa Tódi


"Quando é que um corpo deixa de ser manipulado social e culturalmente para passar a fazer ecoar a sua voz interior?"


(foto Helena Tomás)
(foto Helena Tomás)

entrevista - Joaquim Gouveia

Rosa Dias, em fase de transição de género, autora deste novo espetáculo do Teatro Estúdio Fontenova, aborda uma temática corrente que gera convergências, divergências e, sobretudo, muito debate. A questão da própria liberdade de género de cada um, a escolha, a transformação e a sua aceitação social. São enormes os dogmas em volta do assunto, essencialmente, na tradição católica-cristã, ainda vigente numa Europa, que, no entanto, vê crescer os movimentos denominados de LGBTQIA+, a cada momento, a cada dia, a cada oportunidade, fazendo ouvir a sua vontade e reclamando o seu direito a uma escolha que deve pertencer, sempre por sempre, à própria condição humana. Porque a autora se encontra fora do país, propus a Patrícia Paixão (atriz e produtora do TEF), falarmos um pouco sobre este novo espetáculo da companhia e do assunto que aborda. O que se espera é que as consciências se libertem de preconceitos. E por isso é importante assistirmos a "O Erro de GPTO ou as mentiras de PI".

Joaquim Gouveia - A uma companhia de teatro contemporânea e aberta às realidades que moldam, compõem e levantam discussão nos nossos tempos, impõe-se, como é natural, levar à cena espetáculos onde muitos dos temas que maior polémica, ou mesmo agitação social levantam como é, no presente, o assunto LGBTQIA+. Que reação esperam do público? Por outro lado, poderemos acreditar que será um espetáculo que irá ter a presença de todo o género de público ou, poderá apenas, ser mais apelativo à própria comunidade que nele se revê?

Patrícia Paixão - Acredito, pessoalmente, que há temas que causam “polémica” ou “agitação social” sem razão de ser ou justificação, ou cuja justificação tem como base o preconceito, homofobia e transfobia e, infelizmente, alguma ignorância e medo do desconhecimento. O que é levado a cena é uma metáfora que utiliza a AI, neste caso materializada num robot e a identidade de género. Penso que a metáfora possa ser reconhecida não apenas para a questão LGBTQIA+, mas para pessoas cuja identidade é não normativa, ou não aquilo que correspondemos a um “padrão”. Aquilo que esperamos do público é que venha pelo tema, pela proposta cénica, pelo Teatro Estúdio Fontenova, pelo Ren, ou por outra razão que lhe convenha. Obviamente, não é apenas um espectáculo para a comunidade LGBTQIA+, mesmo que se relacione directamente com a mesma. Assim como, por ex., o espectáculo anterior que fizemos sobre a Mitra ou o litoral alentejano é para todas e todos, e não apenas para quem viveu na Mitra, ou para quem vive no litoral alentejano. Uma vez mais, é um espectáculo para o qual podemos abrir diálogo e criar relação.


JG - Este novo espetáculo escrito por Rosa Dias, uma pessoa “trans” em fase quase final para "assumir" a sua nova identidade de género (esclarecimento: a identidade de género já está finalizada e decidida, faltando agora apenas o processo de transição sexual que, segundo os processos clínicos pode levar cerca de 5 anos a concluir), fala deste processo como habitat da identidade de género e, acima de tudo, de equidade humana na sua plenitude de cada ser. É uma mensagem forte ainda não totalmente aceite pela sociedade e sobretudo pelas diversas correntes religiosas e ideológicas que mantêm um certo fundamentalismo quanto à natureza designada por “homem-mulher (binário)”. Esta vossa proposta prevê elucidar que o caminho da própria liberdade humana passa por aqui, por esta forma de ser diferente, mas igual a todos?

PP – Há uma palavra que a Rosa, integra neste texto, que é “empatia”, penso que desenvolvemos pouco a empatia nas nossas relações humanas, e obviamente, existe algum alarmismo e arautos do apocalipse à mistura. Nos últimos tempos, difundiu-se que o esclarecimento sobre identidade de género é uma ameaça a “costumes” e “tradições”. Na verdade, o que se referem é a ameaça “um costume” ou a “uma tradição” (católica-cristã) alicerçada, uma vez mais, numa existência única binária. Historicamente, as pessoas trans e não-binárias sempre existiram, na cultura indígena norte-americana existe um terceiro género (two spirit), e não é a única cultura onde se manifestam terceiros géneros e fluidez. A nossa cultura ocidental, com breves excepções (por exemplo com Espinoza), separa o corpo da mente, a razão do espírito, quando sabemos que as mesmas estão interligadas. Há abordagens à espiritualidade e crença, à própria ciência, que se cruzam e interligam. Infelizmente, conhecemos ainda muito pouco sobre a nossa sexualidade e identidade. O Relatório Kinsey e os próprios estudos ocidentais sobre a sexualidade são recentes. Penso que quanto mais nos conhecermos e percebermos que somos muito menos não-binários, mais resolvidos estaremos enquanto pessoas, maior empatia conseguimos desenvolver, e menos probabilidade teremos de espalhar ódio para com os outros.

JGA autora fala de PI, e levanta a questão se é uma marioneta humanizada qual filho de Gepeto, ou uma actualização de sistema gerada por AI, sob o comando de GPTO? Mas, parece-me, que a principal questão é levantada quando a Rosa Dias, afirma que este Pinóquio, já não é o “filho” do seu tão conhecido criador, mas fruto de uma relação entre tecnologia e corpo deixando, então, em aberto aquilo que é, no essencial, o mais preocupante desta questão que é “quando é que um corpo deixa de ser manipulado social e culturalmente para passar a fazer ecoar a sua voz interior?”. Este será sempre o grande debate, ou dilema, De acordo?

PP – Acho que essa pergunta ressoa em todos nós porque estamos, invariavelmente, dependentes de um sistema. Para PI o sistema é GPTO, algo que o controla… mas a certo ponto, percebe que este sistema está ligado ao nosso próprio sistema socio-económico. Rosa, coloca em cima da mesa várias vezes a questão do trabalho, e como a metáfora do Robot, consegue ou não ter trabalho, e que quando se apercebem que é um Robot, o quão mais difícil é ter um trabalho estável ou um trabalho com dignidade. Assim, mesmo sabendo que nós somos, a luta e questionamento para com o sistema vigente mantém-se.


Ren D Marcus, com o encenador José Maria Dias, num ensaio (foto Helena Tomás)
Ren D Marcus, com o encenador José Maria Dias, num ensaio (foto Helena Tomás)

JG – A peça é interpretada apenas por Ren D Marcus, encontrado no casting que vocês promoveram para este espetáculo, onde procuravam um ator “trans”. Já tem experiência anterior ou é estreia absoluta?  Trata-se, portanto, de um monólogo. Quais são as expetativas, neste momento, quanto às exigências da peça e da própria encenação do José Maria Dias?

PP - A audição a Ren D Marcus foi uma surpresa, não apenas pelo Ren mas pela quantidade de pessoas que responderam. O Ren é um jovem que terminou há pouco o curso de teatro, e a esse nível será uma estreia, no entanto, a sua disponibilidade, entrega e profissionalismo foi uma agradável surpresa. O que quer que vejam em palco, a expectativa já foi superada, o Ren, deu o melhor de si e foi-se sempre superando. Terá certamente um caminho de crescimento a fazer, mas estes primeiros passos foram sólidos e com grande desejo de uma continuação futura.

JGA propósito deste novo espetáculo estão agendados dois encontros na Livraria Culsete e no Forum Municipal Luísa Todi, onde para além de outros convidados estará presente a Rosa Dias. Uma vez mais o Teatro Estúdio Fontenova, traz à comunidade um tema atual, pertinente e que irá, certamente, gerar debate, convergência e concordâncias…

PP - Os encontros/eventos paralelos são algo que temos promovido em alguns dos nossos espectáculos. Na livraria Culsete faremos o lançamento do livro, no dia 15 de Novembro pelas 16h30 com a presença da Rosa Dias, Dani Bento (Engenheira de Software, licenciada em Astrofísica e Astronomia e pós graduada em Sexualidade Humana. Ativista pelos direitos LGBTQIA+, justiça social e saúde mental) e Luísa Monteiro (Dramaturga, jornalista, encenadora, e professora do ensino superior. Escritora com mais de 30 livros publicados, nos últimos anos tem escrito textos originais para o Teatro Estúdio Fontenova.) Nesse mesmo fim-de-semana, Domingo dia 16, após o espectáculo, teremos uma conversa no foyer do Fórum Municipal Luísa Todi com Joana Peres da Cooperativa Seies e Tomás Barão, activista LGBTQIA+ e pertencente ao coletivo Qardume que este ano organizou a 1ª Marcha LGBTQIA+ de Setúbal. Serão momentos descontraídos de diálogo e conversa aberta que poderão colocar em cima da mesa os temas que o espectáculo aborda e outros que sejam levantados! Contamos obviamente de todas, todos e todes que se queiram juntar a nós.



 
 
 

Comentários


Mantenha-se informado(a) com as novidades publicadas no Xetubal Site.
Subscreva a nossa newsletter semanal e acompanhe os conteúdos mais recentes, diretamente na sua caixa de entrada.

Serviço gratuito, com total respeito pela sua privacidade.

Email enviado!

FICHA TECNICA

Edição e coordenação de JoaQuim Gouveia (jornalista)

Produção gráfica: Catarina Branco

Revisora: Ana Santos

Email: xetubalsite@gmail.com

Contacto: 915 568 820

Sede: Setúbal

bottom of page